Na contramão do BC, crédito encareceu no fim do ano

Os juros do financiamento de bens subiram de 56,4% para 65,2% de novembro para dezembro de 2005. A alta veio na contramão do Banco Central (BC), que desde setembro vem cortando a taxa básica de juros, e surpreendeu o consumidor exatamente nas compras de Natal. A elevação de 8,8 pontos porcentuais foi registrada nos financiamentos de eletrodomésticos e outros bens duráveis, exceto automóveis. A concessão desses empréstimos cresceu no fim de 2005, impulsionada por acordos entre o comércio e os grandes bancos. Na avaliação do chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, esse aumento foi alimentado principalmente pelos pagamentos parcelados em cartão de crédito, que são mais caros. "As redes (de varejo) em geral fizeram as parcerias com os bancos associando também as vendas aos cartões de crédito", comentou. Antes, o grosso das parcelas de financiamento de eletrodomésticos não era feito no cartão. Lopes observou que, se, por um lado, as associações entre lojas e bancos resultou num aumento do custo do crédito, por outro permitiu maior oferta de empréstimos. O BC não dispõe de dados sobre as taxas cobradas nos cartões e as informações sobre volumes emprestados são imprecisas. Ainda assim, a instituição calcula um aumento de 21,9% no saldo de empréstimos no cartão no fim de 2005. Na comparação com 2004, o salto pode chegar a 30,9%. Para o diretor-executivo do Banco Arbi/Servicash, Luís Fernando Pessôa, outra explicação para o aumento dos juros é a alta da inadimplência em algumas modalidades. Segundo o BC, o porcentual de atrasos subiu de 3,6% no fim de 2004 para 4,2% em dezembro de 2005. As modalidades em que a inadimplência mais se acentuou foram o cheque especial, em que a taxa média subiu de 6,1% para 7,6%, e o crédito pessoal, com os atrasos subindo de 5,8% para 6,1%. "Os juros mais elevados, no fim do ano, portanto, também são explicados pelos atrasos maiores nesse crédito pessoal", comentou Pessôa. Apesar do aumento do custo do crédito em dezembro, ao longo do ano o que os dados do BC registraram é que, na média, o consumidor procurou as modalidades menos caras. "No geral, houve uma procura mais racional por juros menores, demonstrando uma atitude mais proativa dos clientes", comentou Altamir Lopes. Segundo ele, isso se confirma pelo fato de o volume de empréstimo ter subido mais de 80% no crédito com desconto em folha, ante 11,9% nos empréstimos pelo cheque especial ao longo de 2005. O crédito consignado apresentou uma taxa média de juros de 36,4% ao ano, um nível alto, mas bem mais baixo que os 147,5% ao ano cobrados no cheque especial. Esse comportamento se alinha com uma cobrança feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em discurso feito em abril do ano passado, quando criticou a atitude das pessoas em não pesquisar os juros bancários. "Às vezes, o cara está no bar com amigos, tomando um chope, de preferência na sexta-feira, está lá xingando o banco, os juros, xingando o cartão de crédito, mas no dia seguinte é incapaz de levantar o traseiro da cadeira e ir ao banco mudar", disse.

Agencia Estado,

25 de janeiro de 2006 | 09h53

Tudo o que sabemos sobre:
finanças

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.