Não me preocupo com déficit dos EUA, diz Galbraith

Para o professor da Universidade do Texas, a preocupação está no uso improdutivo dos recursos fiscais

Luciana Xavier, da Agência Estado,

29 de maio de 2009 | 16h10

O governo dos Estados Unidos deve continuar gastando para estabilizar a economia, acredita o economista norte-americano James K. Galbraith, em entrevista exclusiva à jornalista Luciana Xavier, do AE Broadcast Ao Vivo, por telefone, de sua casa em Austin, no Texas.  

 

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"Não estou preocupado com o déficit ou a dívida pública. É positivo que isso esteja ocorrendo, pois sem esses gastos a economia iria de verdade se desintegrar", observou o economista.

 

Mas ele está, sim, preocupado com uso improdutivo dos recursos fiscais, com a transferência das perdas do sistema bancário para as contas do governo, sem ter nada significativo em troca. "Isso é uma questão muito, muito séria", sublinhou Galbraith. Ele também acredita que a China poderá se recuperar mais rápido desta crise e com isso o Brasil deve ser beneficiado.

 

Galbraith, filho do renomado economista John Kenneth Galbraith, é professor de Economia na Universidade do Texas e diretor do Projeto Desigualdade na mesma universidade. É autor de vários livres, entre eles, "The Predator State: How Conservatives Abandoned the Free Market and Why Liberals Should Too" (na tradução livre, "O Estado Predador: como os conservadores abandonaram o livre mercado e por que os liberais também deveriam fazê-lo").

 

Veja a seguir a íntegra da entrevista:

 

Agência Estado - Está mais fácil ter uma visão geral da crise?

James K. Galbraith - Mais fácil? Mais fácil do que há seis meses? Creio que talvez sim. Temos alguma noção de quão violenta e profunda é esta crise, numa escala que não víamos na economia mundial desde os anos 30.

 

AE - O índice de confiança do consumidor atingiu em maio o maior patamar em oito meses. O senhor reconhece sinais consistentes de recuperação da economia dos Estados Unidos?

 

Galbraith - Não dou muito peso para indicadores de confiança do consumidor. Mas acho que tivemos liquidação de inventários, que puxaram os estoques para baixo. Então, haverá algum reavivamento da produção. E temos enormes quantias do Orçamento sendo destinadas às famílias e isso também está ajudando muito.

 

AE - Como senhor vê a situação do sistema bancário no momento? E os testes de estresse mostraram a real condição dos bancos?

 

Galbraith - Os testes de estresse não mostraram uma real condição dos bancos. Eles foram elaborados simplesmente para dar segurança ao público. Não foram testes de estresse como é feito no senso normal da prática regulatória. Mas está claro que o governo está colocando seu peso por trás das instituições bancárias. Desse ponto de vista, se você está interessada em saber se os bancos irão sobreviver, eu acho que a resposta é sim. Simplesmente porque suas perdas serão absorvidas pelo contribuinte com o passar do tempo.

 

AE - Com relação ao problema do déficit e dívida pública dos EUA. O senhor disse em um artigo que eles podem, devem e irão subir com a crise. Por que?

 

Galbraith - É muito importante, quando o setor privado está em colapso, que o setor público gaste, reduza os ganhos com impostos e aumente as despesas de modo a colocar dinheiro no bolso do setor privado, ajudando a estabilizar o nível total da atividade. Então, deste ponto de vista, não estou preocupado com o déficit ou a dívida pública. É positivo que isso esteja ocorrendo, pois sem esses gastos a economia iria de verdade se desintegrar. Mas estou, sim, preocupado que estejamos fazendo uso improdutivo dos recursos fiscais, da dívida pública, simplesmente transferindo as perdas do sistema bancário para as contas do governo, sem ter nada significativo em troca. Vamos terminar com o sistema bancário sem reformas e muitos dos problemas que nos trouxeram para esta última crise, sem solução. Não vejo nada nenhum avanço e isso é uma questão muito, muito séria.

 

AE - O que deve ser feito?

 

Galbraith - Eu iria me dirigir de modo mais duro aos principais bancos que fizeram jogos mais perigosos, aqueles que foram os maiores responsáveis por essa crise e que tiveram mais perdas com o subprime. Pediria uma extensa auditoria de seus balanços. Iria avaliar seus ativos e pedir que suas perdas fossem colocadas na contabilidade da instituição, no lugar de simplesmente serem removidas para essas parcerias público-privadas, que irão sobrar nos final das contas para o contribuinte.

 

AE - O senhor disse que não está preocupado com o aumento do déficit e da dívida dos EUA. Não vê problema caso os EUA venham a perder o rating soberano AAA?

 

Galbraith - As agências de rating, que falharam de modo escandaloso ao tentar entender o mercado de hipotecas subprime, não devem ser levadas a sério agora, no que se refere a entender como a dívida publica dos EUA funciona. Não há absolutamente razão, não há como os Estados Unidos, que nunca tiveram default em 50 anos, terem agora default da dívida em dólares. Enquanto houver eletricidade fazendo os computadores no Departamento do Tesouro funcionar, isso não vai acontecer. É realmente um tipo exercício tolo de economia convencional, as agencias de rating falarem sobre rebaixamento do rating soberano dos EUA.

 

AE - Como o senhor vê o papel dos mercados emergentes nesta crise, especialmente Brasil e China?

 

Galbraith - O Brasil em certo grau não foi tão fortemente afetado pela crise como outros países. Em parte pelo caráter do equilíbrio de seu comércio exterior e, em parte, por não ter tido sua economia muita afetada, uma vez que não tinha hipotecas subprime no seu sistema financeiro. Já a China foi muito afetada por causa da queda das exportações, queda de demanda do mercado americano e também porque havia uma enorme bolha imobiliária nas maiores cidades, que entrou em colapso. Mas acho que a economia chinesa irá se recuperar razoavelmente mais cedo, pois o governo se moveu agressivamente para gerar demanda doméstica. E também porque o setor de exportações irá reagir tão logo os inventários dos EUA comecem a ser refeitos.

 

AE - Essa recuperação na China beneficiará o Brasil?

 

Galbraith - Claro que sim. Se houver uma recuperação, os efeitos nos países produtores de commodities devem ser sentidos mais cedo.

 

AE - Que mudanças a crise trará para a economia dos EUA e do mundo?

 

Galbraith - Acho que irá reforçar o entendimento da necessidade de novas estruturas de condução da economia mundial, incluindo as estruturas financeiras, de modo que ajudem a proteger países de diferentes partes do mundo de governos ruins e de choques ocorridos em outros lugares. Acho que temos visto esse processo acontecendo na Ásia e América Latina e creio que esse movimento será reforçado.

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