Não seria surpresa Fed cortar juro para perto de 0% em 2008

Para o economista Nouriel Roubini, "a inflação se tornou o último problema com o qual o Fed deve se preocupar"

Luciana Xavier e Suzi Katzumata,

28 de março de 2008 | 15h42

O economista Nouriel Roubini,  professor da New York University, disse que o Federal Reserve (Fed) deve manter o afrouxamento monetário para dar mais liquidez ao mercado. Os cortes de juros, segundo ele, poderiam levar os Fed Funds mais para perto de 0% do que 1%. Atualmente eles estão em 2,25%, após o Fed ter promovido redução dos juros em 3 pontos porcentuais nos últimos seis meses. "Mas a crise não é de liquidez, mas de solvência. E para isso será preciso o governo adotar soluções fiscais radicais", afirmou ao AE Broadcast Ao Vivo. Roubini foi conselheiro da Casa Branca no governo de Bill Clinton e mantém o blog econômico RGE monitor (http://www.rgemonitor.com/). - Ouça a entrevista com Nouriel Roubini Roubini não vê problema em os juros americanos chegarem a patamares tão baixos tendo em vista a inflação. "A inflação se tornou o último problema com o qual o Fed deve se preocupar", disse. Segundo ele, a recessão nos EUA levará a uma desaceleração global, que derrubará os preços das commodities em 20% ou 30% e isso reduzirá as  pressões inflacionárias, argumentou o economista. RecessãoOs indicadores econômicos mostram que os Estados Unidos estão em recessão desde dezembro ou janeiro deste ano e, na avaliação de Roubini, ela deve ser mesmo severa e longa como ele previa desde o ano passado. "Será uma recessão muito mais severa do que a esperada por Wall Street. Ela deve durar de 12 a 18 meses", disse. O economista acredita que os EUA terão PIB negativo até o primeiro semestre de 2009, podendo fechar este ano em queda de 2% ou mais.   Segundo Roubini, a recessão no mercado imobiliário dos EUA é a pior desde a Grande Depressão de 1929. "A recessão em moradia ainda não atingiu o fundo do poço. Os preços ainda vão cair mais", disse o professor da NYU. Ele também comparou a recessão da economia como sendo pior que as de 1991 e 2001. CulpaRoubini criticou a possibilidade de o ex-presidente do Fed Alan Greenspan liderar um grupo de gurus da economia para estudar saídas para crise, como aventou a candidata democrata à presidência dos EUA, Hillary Clinton. A idéia da senadora é de que esse grupo determine se o governo norte-americano deveria comprar casas para enfrentar a crise no setor de moradias do país.  Segundo ele, Greenspan é um dos culpados pela formação da bolha imobiliária. "Não acho que seria boa idéia. Afinal, ele tem parte no problema (atual)", disse o professor. Para Roubini, o governo poderia criar algo parecido com a Resolution Trust Corporation (RTC). A RTC foi uma agência criada pelo governo norte-americano em 1989, dentro da Lei de Reestruturação de Instituições de Empréstimo e Poupança, quando os EUA tiveram uma crise de crédito imobiliário, que atingiu instituições de perfil semelhante ao de caderneta de poupança, ou seja, que captavam recursos para financiar a compra de imóveis - as chamadas ‘savings and loan’ (S&Ls). A lei foi feita para incorporação ou extinção daquelas instituições, que entraram em crise financeira e se tornaram insolventes, por má administração, corrupção e fatores econômicos.  Uma das ações da RTC foi promover leilões periódicos de ativos dessas instituições, como imóveis e hipotecas, com pagamento muito facilitado. Nos primeiros leilões, imóveis foram vendidos a preços muito baixos e isso chamou atenção para os leilões seguintes, que acabaram por atrair mais interessados. Esse processo acabou por ajudar a estabilizar os preços dos imóveis no país e, ao final, o prejuízo do Tesouro com a operação de salvamento foi considerado muito pequeno diante das perdas que a crise teria provocado na economia sem tal intervenção. EmergentesDiante da expectativa de uma recessão severa e prolongada nos Estados Unidos, Roubini não acredita que será possível os emergentes, em especial os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China), saírem ilesos da crise. "Os Brics, principalmente China e Índia, não estão descolados e serão afetados pela recessão nos EUA. O consumo nesses países não compensará a recessão e a desaceleração global tornará a situação mais difícil para os mercados emergentes, como o Brasil. No Brasil, os fundamentos estão mais fortes, mas o país não está imune aos riscos", afirmou. Segundo ele, os emergentes têm tido boa performance graças à melhora dos fundamentos, mas também por uma boa dose de "sorte". Roubini disse também que a situação na Europa é "levemente melhor" que a dos Estados Unidos, mas há risco de uma desaceleração significativa na região. "Mas não de recessão", observou.  O economista disse também que o mercado norte-americano ainda poderá ter mais surpresas desagradáveis vindas do setor financeiro. "Muitos outros bancos devem estar em situação parecida com a do Bear (Stearns)", alertou.

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