Natura deixa de ser novata e vira defensiva na Bovespa

Após dois anos e oito meses de sua chegada à Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), as ações da Natura conquistaram novo status. Analistas não chamam mais a empresa de "novata" e os papéis entraram para o rol dos escolhidos quando as questões no mercado parecem conturbadas. O novo feito da empresa de cosméticos, que reabriu a porta das ofertas de ações na bolsa paulista em 2004, foi transformar-se em um papel defensivo. O analista Alexandre Garcia, da Ágora Corretora, afirma que a companhia pode ser considerada uma ação de defesa tanto no aspecto de gestão quanto no financeiro. "A Natura conseguiu a fidelização de seus clientes por meio de um profundo trabalho de identificação com a sua marca. Muitas pessoas estão dispostas a pagar o dobro por um sabonete da empresa, por exemplo. A situação econômica pode estar ruim, e o consumo sofrer, mas as pessoas, dificilmente, abandonam os produtos da empresa, apesar de eles não serem baratos." A história traçada pela companhia, de inovação e desenvolvimento sustentável, agrada e provoca a identificação dos consumidores, na avaliação de profissionais. A Natura tem expandido seus negócios através da abertura de novos mercados e classifica o investimento crescente em inovação como um diferencial e uma forma de tornar-se mais competitiva no cenário internacional. Em outubro do ano passado, a empresa abriu um novo laboratório em Paris e agendou a inauguração de um espaço para a área de pesquisa e tecnologia para 2008, na cidade paulista de Campinas. O contato com os consumidores, para identificar seus desejos e preferências, também é constante. No lado financeiro, lembra o analista da Ágora, a companhia é forte geradora de caixa e paga "dividendos interessantes, com periodicidade definida". A Natura tem distribuído a remuneração aos acionistas a cada semestre e, conforme dados da Economática, alcançou "dividend yield" de 3%, mesmo patamar, por exemplo, de AmBev. O "dividend yield" é a taxa obtida dividindo-se o valor do dividendo distribuído por ação pelo preço atual da ação. A chefe da área de análise da Ativa Corretora, Monica Araújo, também classifica as ações da Natura como defensivas: "A companhia apresenta uma constância de resultados e de crescimento que faz com que investidores se sintam confortáveis com o papel", afirmou Monica, além de ressaltar, também, a remuneração aos acionistas. Ela cita a própria natureza de operação do negócio da companhia, que em vez de lojas atua por meio de revendedoras. "Enxergo essa forma de atuação como um meio de a empresa se proteger da queda de suas vendas, notadamente também das vendas a crédito", diz. No sistema da Natura, as revendedoras retiram os produtos da empresa e, após um prazo definido, para que consigam receber os pagamentos de suas clientes, têm de quitar a fatura. Se não o fizerem, são submetidas aos procedimentos habituais para inadimplentes, como a incidência de juros, por exemplo. "Também por conta desse mesmo trabalho das revendedoras, a empresa tem um público fixo", diz Monica. O analista Ricardo Fernandez, da Itaú Corretora, aponta que, em tese, qualquer empresa de varejo que não trabalhe com alimentos não é defensiva, pois seu produto pode ser considerado supérfluo. Ao falar de Natura, no entanto, ele observa que é preciso olhar para os produtos que a companhia oferta e para quem ela vende. "O que nós temos observado na trajetória de Natura é que os clientes da empresa têm se mostrado mais resistentes às oscilações de renda, que tanto afetam o consumo. Pelo desempenho constante das receitas da empresa, é possível notar que, quando há momentos de restrição do mercado, a ação atrai compra, diferenciando-se como ocorre também com a AmBev." Eduardo Kondo, do Departamento de Análise Setorial da Concórdia, diz não gostar do termo "defensiva", mas concorda que a Natura tem se destacado em sua trajetória na Bolsa por ser uma ação que reúne os "bons fundamentos e fortes aspectos de governança corporativa": "A Natura tem uma forte performance em bolsa, com uma ação que ilustra uma administração competente e profissional, com rentabilidade e ritmo de crescimento elevados e que mantém certa constância". Desde a estréia até hoje, as ações da fabricante de cosméticos acumulam valorização de 330%.

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