Negócios com ações da Ipiranga deram salto na Bovespa

O volume de negócios com ações do Grupo Ipiranga na semana que antecedeu o anúncio da venda para o consórcio Petrobras, Braskem e Ultra concentrou-se na refinaria, que controla o segmento petroquímico da holding. Entre os dias 12 e 16 deste mês, foram negociados R$ 24 milhões em ações ordinárias (ON) na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). É mais do que o dobro do volume negociado nos três meses anteriores, entre 2 de janeiro e 9 de março: R$ 11,6 milhões. A mudança de média diária dá a dimensão do salto: de R$ 290 mil, em três meses, para R$ 4,8 milhões na última semana. É sobre os negócios com a refinaria que recairá o foco da investigação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre o eventual uso de informação privilegiada, um crime tipificado em lei. O fechamento do negócio envolveu um grupo vendedor controlado por cinco famílias com mais de 70 pessoas, outras três grandes empresas, advogados e agentes financeiros. No dia 9, uma sexta-feira, as ações ordinárias da Refinaria Petróleo Ipiranga, cotadas a R$ 51,50, fecharam o pregão da Bovespa com volume de negócios de R$ 96 mil. Na segunda-feira seguinte, dia 12, o montante já havia passado para R$ 2,2 milhões. Na sexta, dia 16, para R$ 13,2 milhões. Na segunda, dia 19, foi anunciado o negócio. A valorização dos papéis, em uma semana, foi de 55,6%. Os papéis ordinários da Distribuidora de Produtos Ipiranga também subiram, mas têm menor liquidez. Atravessam dias sem nenhum registro de negócio. Mesmo assim, o volume de R$ 36 mil da terça-feira 13 pulou para R$ 347 mil na sexta, 16. A valorização no período foi de 50%, de R$ 40 para R$ 60. No dia do anúncio do negócio, cada ação ON já valia R$ 100. Ou seja, mesmo quem comprou ações na alta, no fim da semana anterior, teve um ganho extraordinário. A CVM solicitou à Bovespa a relação completa das corretoras que negociaram as ações, quem comprou e quem vendeu, e para quem elas operavam. No cruzamento de dados, como de praxe, serão revelados os compradores esporádicos, o volume que cada um movimentou e até o patrimônio dos investidores, para identificar a utilização de possíveis ?laranjas?. Na lista das corretoras que mais negociaram ações na última semana aparecem desde nomes pouco conhecidos a grandes bancos. De quarta-feira em diante, quem mais comprou ações -para clientes- foram as corretoras Indusval, SLW, Novinvest e Ágora. Indícios O diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, disse que a companhia está ?tranqüila? com relação aos indícios de vazamento de informações antes da operação. Segundo ele, houve mais de 200 pessoas envolvidas nas negociações e cabe à CVM apurar se houve desvio de conduta de alguns deles. Segundo ele, as conversas demoraram ?meses?, mas a decisão pela oferta só foi tomada em reunião do conselho de administração da empresa na sexta-feira. A Bovespa já enviou à CVM parte das informações solicitadas. O superintendente de Relações com Mercado e Intermediários, Waldir de Jesus Nobre, revelou que o restante dos dados deve chegar hoje à autarquia. A lista de operadores identificará todos os que atuaram com papéis do Grupo Ipiranga ao longo do mês de março. Anteontem, a superintendente de Relações com Empresas da CVM, Elizabeth Lopez Rios Machado, informou que um dos indícios de que houve informação privilegiada durante as negociações para venda do Grupo Ipiranga foi o fato da movimentação atípica ter se concentrado nas ações ordinárias. Segundo ela, as investigações podem resultar na abertura de um inquérito administrativo. O órgão informou que já recebeu as respostas dos diretores de Relações com Investidores das empresas do Grupo Ipiranga. Além dos esclarecimentos pedidos sobre a movimentação atípica com ações, a CVM solicitou informações aos executivos sobre o assunto. ?A CVM tem de investigar, ver que corretoras negociaram Ipiranga nos últimos dias. Estamos muito tranqüilos. Não temos qualquer preocupação com relação a isso?, disse Costa, da Petrobras. Ele informou que o contrato final entre os três compradores só foi assinado às 7 horas de segunda-feira. (Colaboraram Mônica Ciarelli e Nicola Pamplona)

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