Novatas da Bovespa oferecem orientação aos investidores

A chegada de novas empresas à Bolsa de Valores desde o ano passado trouxe um aperfeiçoamento na forma de as companhias oferecerem orientações para os investidores. Com essa prática, o pequeno investidor sai ganhando: com informações claras sobre a perspectiva de desempenho da empresa, é mais fácil avaliar se a ação negociada na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) está com preço justo, se pode se valorizar nos meses seguintes ou se, ao contrário, deve ser vendida antes que perca valor. A varejista virtual Submarino já entrou na Bovespa colocando em prática a política de orientar o investidor. "Na abertura do capital já demos o guidance (orientação)", lembra o gerente de Relações com Investidores da Submarino, Erik Piñeda, referindo-se a eventos de março do ano passado - em abril deste ano, a companhia fez nova oferta de ações. Entre as novatas no pregão, a locadora de veículos Localiza, a fabricante de calçados Grendene e a operadora de TV paga Vivax adotaram a ferramenta pouco tempo depois da oferta inicial de ações. A onda acabou atraindo até companhias mais tradicionais do mercado, como a Votorantim Celulose e Papel (VCP), que passou a oferecer orientação por escrito um pouco antes de divulgar os números do primeiro trimestre deste ano. "Discutir (os números) com o mercado, a empresa irá, não há dúvida. A questão é se ela irá formalizar isso ou não", afirma o conselheiro do Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (Ibri), Arleu Anhalt. "Eu diria que todas as companhias que têm uma relação com os analistas dão perspectivas", completa. "Toda empresa divulga guidance. Algumas informalmente e outras não. Resolvemos divulgar para todos. Com isso, balizamos a informação para todo o mercado", concorda o diretor de Relações com Investidores da Vivax, Carlos Norbert. Como muitos outros termos em inglês que caíram nas graças do mercado financeiro, guidance pode ser traduzido como indicação, orientação e até mesmo aconselhamento. São as informações que as companhias abertas passam aos investidores com estimativas de desempenho. Com base nos dados, os analistas confirmam suas projeções ou trabalham com bases mais sólidas, já que os indicadores partem das próprias responsáveis pelas ações que estão na Bolsa. Para Anhalt, apenas cerca de 20% das companhias listadas em Bolsa estão incluídas na categoria que antecipa dados. "Mas, nos IPOs (lançamentos iniciais de ações), todas têm adotado padrões de práticas internacionais", afirma, referindo-se ao guidance, às teleconferências e às reuniões periódicas com analistas. "As empresas que estão abrindo o capital, sobretudo no Novo Mercado (segmento da Bovespa em que as empresas se comprometem a ter práticas de boa governança corporativa), vêm com outra cabeça se compararmos com o que acontecia há cinco anos. Têm ações mais objetivas em governança corporativa", diz o presidente da Associação dos Analistas e Profissionais do Mercado de Capitais de São Paulo (Apimec-SP), Haroldo Levy. "Se lembrarmos dois ou três anos atrás, há uma diferença muito grande no número de companhias que dão alguma informação aos investidores." Tanto Levy como Anhalt defendem o formato mais voltado para as tendências futuras, com indicações de desempenho, em detrimento do modelo que estabelece números fechados. Essa opção varia de uma companhia para outra. De acordo com Piñeda, da Submarino, a política da varejista é informar duas variáveis: o faturamento bruto e o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortizações), em bases anuais. Para este ano, a empresa prevê faturar entre R$ 833 milhões e R$ 870 milhões, com crescimento de 45% a 51% sobre o ano passado. Para o Ebitda, a expectativa é atingir de R$ 75 milhões a R$ 85 milhões, com alta variando de 68% a 91%. "Em todos os trimestres revisamos esses números." A Vivax, que lançou ações em fevereiro e em março divulgou o guidance para o ano todo, segue a mesma premissa. A empresa informa que fechou 2005 com 294 mil assinantes e prevê chegar ao final de 2006 com até 320 mil. Para o serviço de banda larga, eram 84 mil clientes e a estimativa é chegar ao fim de dezembro com 116 mil a 125 mil. Além dos dados físicos, ela abre suas perspectivas de receita líquida, Ebitda e investimentos. A gerente de Relações com Investidores da Grendene, Dóris Wilhelm, divide o guidance em dois tipos. "Há os qualitativos, que dão uma idéia do setor, e os quantitativos, com dados mais detalhados", explica. A Grendene trabalha com informações quantitativas. A empresa divulga suas estimativas de receita bruta para o mercado interno e externo, Ebitda e lucro líquido ajustado, ou seja, o contábil mais os incentivos fiscais. Isso sempre para os seis meses seguintes. "Não damos o trimestral porque somos uma empresa de moda e trabalhamos com coleções específicas para o inverno e o verão. São 400 itens por ano, que sofrem influência dos aspectos sazonais", diz. A VCP divulgou seu segundo guidance, referente ao trimestre de abril a junho, alguns dias antes de soltar o balanço. O relatório, de três páginas, faz uma avaliação dos mercados de celulose e papel, traça perspectivas e informa os volumes de vendas previstos para os dois produtos. Faz ainda uma explanação da tendência de custos e despesas operacionais, estima a margem Ebitda, trata do resultado financeiro e dos investimentos, sempre em parâmetros anuais. "Quanto mais informações dermos, melhor para a comunidade financeira fazer a precificação (definição de preços) das ações", diz a consultora de Relações com Investidores da VCP, Andréa Kannebley. Andréa considera que a decisão da VCP em oferecer previsões ao mercado foi "uma evolução dentro da transparência". "O guidance é uma inovação, porque ele não é obrigatório. Chegou um momento em que, por telefone, não conseguíamos divulgar as informações de maneira justa." A meta da companhia, segundo ela, é publicar o informativo no prazo de 30 dias anteriores à divulgação do balanço trimestral. Na contramão das recém-chegadas ao mercado há os que estão abandonando a prática de informar os investidores. Roger Oey, analista de telecomunicações do Banif Investment Banking, lembra que a Embratel deixou de dar informações prévias aos analistas desde que foi vendida para a mexicana Telmex, em 2004. Esse foi um sintoma das decisões que se seguiriam. Recentemente a empresa decidiu fechar o capital e deixar o mercado de ações. A Brasil Telecom (BrT), que habitualmente distribuía guidance, tanto trimestral como anual, passou a não divulgar mais o segundo formato, afirma o analista, lembrando dos problemas societários em que a tele fixa está envolvida. A assessoria de imprensa da BrT nega ter mudado sua política e informa que, caso haja fatos que afetem as premissas, eles serão comunicados. Oey lembra que a Telesp fixa, a operadora da Telefônica, é uma das que não informam o mercado. "A Vivo, que antes dava perspectivas verbais nas reuniões com analistas, foi diminuindo a freqüência e acabou parando", acrescenta. Procurada, a Vivo informou por meio de sua assessoria de imprensa que não dá guidance e nunca deu.

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