O caminho do mercado de capitais

Por mais empregos, renda e investimentos, o País precisa de fontes de financiamento além do poder público

Carlos Ambrósio e Gilson Finkelsztain*, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2018 | 04h00

O Brasil atravessa um momento único na sua história. O País se recupera lentamente de uma das maiores crises já experimentadas em décadas, com quedas sucessivas no Produto Interno Bruto (PIB) e recuos nos volumes de investimentos. Qualquer que seja o caminho escolhido pelos brasileiros nestas eleições, uma coisa é certa: o novo governo precisará enfrentar a grave crise fiscal que inibe investimentos públicos, tão necessários quanto urgentes para atender às demandas da sociedade por capilaridade e qualidade dos serviços básicos.

Setores como saneamento, energia elétrica e transportes, entre tantos outros, carecem de investimentos vultosos, capazes de assegurar o bem-estar a que a população anseia e de vencer as deficiências que impactam negativamente a produtividade brasileira.

É urgente que o Brasil encontre fontes de financiamento além do poder público, e a alternativa passa pelo mercado de capitais. É por meio dele que são investidos os recursos de toda a sociedade e, ao fazer isso de maneira eficiente, são gerados benefícios para todos. Ganham as empresas, com maior disponibilidade de recursos para investimentos em novos projetos. Ganham os investidores, que colocam o dinheiro em títulos e valores mobiliários que atendem às suas necessidades por rentabilidade, segurança e diversificação. Ganha o governo, com mais liquidez e consequente custo menor para a rolagem da dívida, além de maior disponibilidade de recursos para áreas sociais, como saúde e educação. Enfim, os impactos socioeconômicos se estendem a toda a sociedade, em decorrência da maior taxa de poupança, da geração de empregos e do crescimento econômico, entre outros reflexos.

Experiências internacionais mostram que existe uma relação positiva entre um mercado de capitais forte e o desenvolvimento econômico e social. Para o Brasil, este fortalecimento se traduziria em mais emprego, renda, investimentos e maior arrecadação de impostos. Estudo feito pela Accenture indica que, em cinco anos, seria gerado 1,7 milhão de empregos adicionais. O volume equivale a quase quatro vezes o número de vagas com carteira assinada criadas de janeiro a julho de 2018. O PIB per capita ganharia um incremento de 12,1% também em cinco anos. O volume de investimentos seria 21% maior do que o projetado para o mesmo período e a arrecadação de impostos seria impulsionada.

Para chegarmos a isso, é imprescindível que o Brasil adote um conjunto de medidas tão urgentes quanto necessárias, a começar pela reforma da Previdência. A sociedade brasileira não pode mais adiar o debate fiscal, que precisa ser feito de maneira transparente.

São ajustes essenciais que certamente darão um impulso importante para a economia brasileira, mas não são os únicos. O fortalecimento do mercado de capitais exige, ainda, uma série de medidas que passam por aprimoramentos regulatórios e legais, bem como pelo fomento à educação financeira, entre outras iniciativas. Não são mudanças drásticas. São ajustes para acompanhar a evolução do mercado e buscar a simplificação e a harmonização das regras com o objetivo de fomentar o financiamento de longo prazo, aumentar o volume de emissões, expandir a base de investidores, estimular a liquidez e contribuir para a formação de poupança.

Normalmente, mercado de capitais vem associado a cifras e gráficos. Na essência, seu papel é fazer a ponte entre os investidores e as empresas que precisam de recursos para viabilizar seus projetos. Isso se traduz em emprego, melhoria de renda e possibilidade de direcionamento dos recursos públicos para áreas menos atrativas ao mercado.

Este é o papel do mercado de capitais: contribuir para o desenvolvimento não só econômico, mas também social, do Brasil, fazendo a ponte para o futuro, para o país por que os brasileiros tanto anseiam.

*RESPECTIVAMENTE, PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS ENTIDADES DOS MERCADOS FINANCEIRO E DE CAPITAIS (ANBIMA) E PRESIDENTE DA B3 – BRASIL, BOLSA E BALCÃO

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