O mundo cresce, a Bolsa dá lucro

Há dinheiro sobrando no mercado internacional, aquilo que os economistas chamam de excesso de liquidez. E é esse dinheiro - atrás de mais dinheiro - que faz girar as Bolsas e também dá liquidez a títulos públicos de países emergentes, derrubando o seu risco como ocorre hoje com o Brasil. O que atrai, ainda mais, investidores estrangeiros aos pregões emergentes. E também desperta a cobiça de investidores locais. E é o que justifica o bom momento da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) nas últimas semanas, desde dezembro, quando tem quebrado sucessivos recordes de negócios. Até quando? Para o ex-diretor do Banco Central Carlos Thadeu de Freitas Gomes, enquanto o mundo estiver crescendo. A tendência, no entanto, é que os prêmios de risco, que subiram muito em todo o ano de 2005, sofram ajustes, exceto se as empresas continuarem investindo e novas empresas abrirem o capital, aumentando o leque de opções. Segundo ele, o fenômeno que se vê hoje é resultado da globalização, que impede inflações aceleradas em todo o mundo por causa da oferta agressiva de países emergentes como a China. Freitas explica que essa liquidez resulta justamente dos preços menores, fruto de novos fornecedores e também de ganhos de competitividade. Mas, se as novas opções de ações que surgem são de empresas que estão antenadas com este cenário de competitividade e uso de insumos mais baratos, ainda é possível manter a exuberância, mas não na mesma intensidade. O que ajuda o Brasil é que os preços das ações de empresas similares às internacionais ainda é muito baixo. Segundo o presidente da Bovespa, Raymundo Magliano Filho, o crescimento da economia americana e das economias mundiais produz um excesso de capital, com o bom resultado das empresas, e aí as aplicações se multiplicam e vão em busca de mercados onde se possa ter melhor remuneração e garantia de recebimento. E vai durar? "Essa é uma pergunta que ninguém pode responder, mas os indicadores das empresas são bons e quanto mais empresas abrem o capital maiores as oportunidades." O volume diário da Bovespa chegou a R$ 920 milhões este mês, ante R$ 466 milhões em janeiro de 2005. Em dezembro, esse volume médio diário era de R$ 793 milhões. Por trás desse movimento, está a participação dos investidores estrangeiros, com 34,3% dos negócios. Magliano Filho, comemora, porém, o aumento constante da participação de investidores pessoas físicas, que já respondem por 26% dos negócios, à frente das instituições financeiras (9%) e das empresas (2%), perdendo apenas para investidores institucionais (28,5%) como fundos de pensão. "O importante é que os recordes e o crescimento dos negócios contempla um leque maior de investidores, cada vez mais conscientes da importância da Bolsa para a criação de empregos e o crescimento da economia e a distribuição dos dividendos desse movimento", diz Magliano Filho. A Bovespa tem ido à praia e às fábricas em busca de novos investidores. Na sexta-feira, Magliano comemorava a marca de mil clubes de investimentos formados, alguns familiares. De setembro de 2002 até sexta-feira, foram criados mil clubes, sendo 35 em 2006, 356 em 2005, 349 em 2004, 217 em 2003 e 22 em 2002. No total, a Bovespa tem 1.351 clubes de investimento, com um patrimônio líquido de R$ 7 bilhões e 112,3 mil cotistas. Entre os investidores há pessoas como Nelson Vasconcelos, que entrou em contato com o mercado de ações na Riviera de São Lourenço, há um ano, quando o programa "Bovespa vai à praia" passou pelo local, e hoje participa de clube de investimento. O maior orgulho de Magliano, porém, é a presença de operários, conquistados com o Programa Bovespa vai à Fábrica, que teve o apoio das centrais sindicais. Já a corretora Spinelli tem procurado vender a formação de clubes para pais que querem custear os estudos dos filhos. Outro programa da Bovespa, o Mulheres em Ação, também busca estimular o investimento de pessoas físicas. Esse estímulo vem de um cálculo simples, diz Einar Rivero, da Economática, empresa de consultoria especializada em mercado de ações: "Quem aplicou R$ 1 mil no primeiro pregão de 2005, em janeiro, sacaria hoje (sexta-feira) R$ 1.275,00." É essa rentabilidade que levou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a ampliar o volume de dinheiro aplicado no programa Papéis Índice Brasil Bovespa (PIBB), de US$ 600 milhões na em agosto de 2004 para US$ 2,3 bilhões em agosto de 2005, na segunda versão do programa. "E muitos queriam investir mais. O importante é que o PIBB trouxe 121 mil investidores ao pregão", diz Magliano Filho. A Regra É Clara - Para o ex-árbitro de futebol Arnaldo César Coelho, que comanda a Corretora Liquidez, líder dos negócios no mercado derivativo na Bolsa de Mercadorias & Futuros em dezembro, a regra, como no futebol, é clara. "O preço das ações brasileiras é baixo em relação a similares no mercado internacional e isso tem garantido uma grande lucratividade em relação aos papéis, devido ao desempenho favorável de empresas exportadoras e de outras em fase de globalização." Rivero, da Economática, recorre a uma curva de lucro por preço (preço da ação dividido pelo seu lucro em 12 meses), a chamada P/L, para mostrar que os papéis estão baratos. No Brasil, a P/L até o dia 26, era de 12,2, enquanto, no mesmo período, era de 20 em relação aos papéis nos Estados Unidos, 16,9 no Chile e 14,7 no México. "As ações brasileiras são baratas, e isso funciona a favor dos investidores estrangeiros, que estão dispostos a apostar nesses papéis", diz Arnaldo César Coelho, que faz negócios em nome de grandes grupos e bancos de outros países.

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