O que fazer com o novo presidente do Brasil

Eleitores anseiam por renascimento econômico; investidores estrangeiros estão cautelosos

The Economist

04 Janeiro 2019 | 04h00

“O capitão chegou”, gritavam milhares de brasileiros no dia 1.º de janeiro, quando Jair Bolsonaro subiu a rampa de mármore branco que leva ao Palácio do Planalto. Recém-empossado, o 38.º presidente do País olhava para a multidão de apoiadores com bandeiras, soldados a cavalo e políticos e falava com o tom ardente que caracterizou sua improvável ascensão. Ele prometeu livrar o Brasil do socialismo, do politicamente correto e da “ideologia que defende os bandidos”. Desdobrando uma bandeira, ele declarou que ela “nunca seria vermelha, a menos que nosso sangue fosse necessário para mantê-la verde e amarela”. “Mito”, a multidão cantou.

Nenhum ex-presidente conquistou tantos inimigos nem fez as ofensas que ele fez. O ex-capitão do Exército elogiou a antiga ditadura militar do Brasil e insultou gays, negros e mulheres. Até recentemente, seus detratores eram quase tão numerosos quanto seus adoradores. E, no entanto, os brasileiros se mostraram extremamente otimistas quando ele tomou posse. Três a cada quatro dizem que o novo governo está no caminho certo, de acordo com o Ibope. Embora a economia esteja se recuperando lentamente de sua pior recessão, em 2014-16, uma pesquisa do Datafolha constatou que a parcela de brasileiros otimistas em relação à economia saltou de 23% em agosto do ano passado para 65% em dezembro.

Isso porque eles vêem Bolsonaro, que em sete mandatos no Congresso nunca foi além de seu “baixo clero”, como um líder potencialmente transformador. Eles o encaram como solução para superar a corrupção, o crime e a decepção econômica. Formando seu governo desde que venceu as eleições presidenciais em 28 de outubro, Bolsonaro mostrou alguns sinais de que pretende cumprir essa expectativa. Alguns de seus planos poderiam mudar o Brasil para melhor; outros podem causar danos imensos. As principais incertezas são o equilíbrio entre o bem e o mal e se ele tem habilidade e força para executar sua agenda.

Ao contrário de seus antecessores, Bolsonaro não deu empregos ministeriais a políticos de alto escalão para conquistar apoio ao seu programa. Isso encanta os brasileiros, que votaram em Bolsonaro em grande parte porque estão revoltados com os políticos convencionais. Em vez disso, ele montou um gabinete composto por tecnocratas, ideólogos e militares.

O caso do otimismo repousa principalmente em dois “superministros”. Paulo Guedes, ex-banqueiro graduado em Economia pela Universidade de Chicago, será o czar da economia, liderando um ministério que absorverá os Ministérios da Fazenda, Planejamento e Indústria. O apoio de Guedes à desregulamentação, à privatização e, acima de tudo, à reforma do inacessível sistema previdenciário do Brasil poderia fornecer um tônico que a economia há muito precisava.

O novo ministro da Justiça, Sérgio Moro, deve lidar com as duas outras doenças que Bolsonaro identificou: corrupção e crime. Como o juiz que conduziu as investigações sobre a corrupção política nos últimos quatro anos, Moro se tornou um herói popular. Ele foi responsável pela prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Partido dos Trabalhadores, de esquerda, que passou a representar tudo o que Bolsonaro e seus partidários desprezam. Os aliados de Lula dizem que a mudança de Moro do tribunal para o gabinete de Bolsonaro confirma suas suspeitas de que a Lava Jato é uma caça às bruxas com motivo político. Mas a maioria dos brasileiros aplaudiu: eles esperam que Moro leve a luta contra a corrupção para o coração do governo.

Bolsonaro montou sua administração com ex-generais. Entre eles estão o vice-presidente, Hamilton Mourão, e o assessor de segurança nacional, Augusto Heleno. Os críticos de Bolsonaro temiam que ele militarizasse a política (Mourão chegou perto de justificar a intervenção do Exército para manter a ordem no Brasil). Mas os generais se esforçam para parecer pragmáticos e democráticos. “Você pode apagar do mapa qualquer tipo de ação (antidemocrática) de Bolsonaro”, disse Mourão em entrevista ao The Economist.

A perspectiva dos ideólogos do governo pode estar mais próxima da de Bolsonaro. Eles incluem seus três filhos, o mais influente dos quais é Eduardo, um deputado de São Paulo que cortejou o governo Trump (ele conheceu o genro de Donald Trump, Jared Kushner, na Casa Branca em novembro). Ele supostamente pediu que seu pai chamasse como ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo, um diplomata até então obscuro que considera a ação contra a mudança climática como uma trama globalista e defende uma aliança cristã entre Brasil, Estados Unidos e Rússia.

Especialistas e ideólogos

Com pontos de vista incompatíveis, rivais da equipe Bolsonaro já começaram a discutir um com o outro. Enquanto o presidente faz questão de transferir a Embaixada do Brasil em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém (como fez Trump), a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, teme que os países muçulmanos punam o Brasil comprando menos carne.

Bolsonaro e o ministro das Relações Exteriores desconfiam da China – ele acusou o país de querer “comprar o Brasil”. Mas Mourão quer um bom relacionamento com o país, o maior parceiro comercial do Brasil. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso acredita que os pragmatistas vão prevalecer em tais disputas. “Dinheiro fala”, diz. Mas se as políticas de Araújo vencerem, “teremos de rezar”.

As chances podem ser piores para os planos de reforma de Guedes. Em parte, porque Bolsonaro parece ambivalente em relação a eles. No passado, ele não demonstrou interesse em dizer aos eleitores que seus benefícios poderiam ser cortados. Por exemplo, ele disse que uma proposta de Michel Temer de fixar uma idade mínima de aposentadoria de 65 anos para homens e 62 para mulheres era muito dura. (Atualmente, homens e mulheres se aposentam, em média, na casa dos 50 anos.) Uma reforma tímida não estabilizaria a dívida pública, que em 77% do PIB já é muito alta, e impediria que as pensões eliminassem mais gastos produtivos do governo.

Mas há pouco entusiasmo popular pelas reformas. Ao contrário dos partidos políticos, as bancadas nas quais Bolsonaro está contando para apoio legislativo não têm dinheiro e não têm congressistas influentes em votos legislativos. O analista político Ricardo Sennes acredita que as chances de aprovar uma reforma previdenciária são de apenas 50%. A força recente dos mercados financeiros brasileiros reflete o otimismo local em relação à reforma econômica; investidores estrangeiros têm sido cautelosos.

Talvez percebendo que o governo será mais difícil do que ele pensava, Bolsonaro abriu canais com líderes do Congresso. Em discurso de inauguração ao Congresso, em tom mais comedido, ele convocou um “pacto nacional” entre a sociedade e os três Poderes do governo para restaurar o crescimento e os valores familiares e combater o crime e a corrupção. Ele sabiamente disse que não tomará partido quando a Câmara e o Senado escolherem seus presidentes; eles desempenham um papel crucial na negociação entre os partidos e a Presidência. Os partidos têm sido “demonizados” por causa da corrupção, diz a ex-senadora Marta Suplicy, cujo mandato terminou em dezembro, “mas isso não significa que eles devam ser marginalizados”.

As esperanças de Bolsonaro de ser um presidente transformador dependem de sua capacidade de unir pragmatismo e reforma econômica. Tão importante será lutar contra a corrupção e o crime de forma a reforçar o Estado de Direito em vez de miná-lo. Atingir essas mudanças exigirá sabedoria e talento para a gestão política. Pouco no passado de Bolsonaro sugere que ele possui qualquer qualidade.

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