Padronização de cotações atrai varejo e facilita negócios

A Bovespa continua fazendo uma campanha informal junto às empresas listadas para que ajustem as cotações de seus papéis de forma a facilitar o acesso dos pequenos investidores ao mercado de ações, embora não exista nenhuma exigência legal para que cumpram a orientação. Desdobramento ou agrupamento de papéis, adoção de cotação unitária e redução do lote-padrão de negociação são as medidas que a Bolsa tem sugerido às companhias. Além disso, a instituição defende que a padronização das cotações tende a facilitar os negócios e reduzir erros operacionais, o que beneficia todo o mercado, sem gerar custos extras para as empresas. "Nós temos orientado as companhias, informalmente, a manterem o preço da ação na faixa de R$ 10,00 a R$ 50,00 e adotarem o lote-padrão de 100 ações. Com isso, um pequeno investidor que possua entre R$ 1 mil e R$ 5 mil tem condições de acessar a Bolsa", explica o superintendente de Operações da Bovespa, Ricardo Pinto Nogueira. A meta é fazer com que pelo menos as empresas com ações mais líquidas, especialmente aquelas listadas no Ibovespa, sigam esses parâmetros. "Essa faixa de preço (de R$ 10,00 a R$ 50,00) é a que consideramos ideal. Valores muito baixos, de menos de R$ 1,00, geram distorções", comenta Nogueira, referindo-se às elevadas variações porcentuais de papéis que valem alguns centavos. "Por outro lado, se a ação vale R$ 1.000,00, e o lote padrão é de 100 ações, só quem tem R$ 100 mil consegue comprar um lote. Isso inviabiliza o acesso da pessoa física." Segundo ele, as companhias que abriram capital recentemente na Bovespa têm procurado lançar suas ações dentro dos parâmetros sugeridos, salvo algumas exceções. Quando os papéis atingem valorização expressiva e superam esses parâmetros, as empresas promovem o desdobramento, de forma que o valor unitário da ação volte ao intervalo sugerido pela Bolsa, sem prejuízo para os investidores. "Quando a ação chega na casa dos R$ 100, a empresa faz o desdobramento para garantir o acesso do pequeno investidor. Se é de 1 para 10, por exemplo, o acionista passa a ter 10 ações de R$ 10." Em 2006, 11 empresas promoveram desdobramentos de ações (ALL, CCR, Cosan, Cyrela, Gafisa, Lojas Renner, Natura, Perdigão, Rede Energia, Santos Brasil e Vale do Rio Doce), conforme levantamento da própria Bovespa. Destas, oito abriram capital nos últimos cinco anos. Segundo estudo da Bolsa, tais medidas têm pouco efeito sobre o volume movimentado pelos papéis, já que o peso financeiro da pessoa física é pequeno diante dos demais investidores. A diferença ocorre no número de negócios, que aumenta significativamente diante da pulverização da base acionária proporcionada pelo valor mais baixo. A unit da América Latina Logística (ALL), por exemplo, movimentava cerca de R$ 43 milhões por dia em agosto de 2006, com uma média de 450 negócios. Em setembro, a empresa desdobrou o título na proporção de 1 para 10. Desta forma, o valor unitário foi alterado de R$ 174,00 para R$ 17,40 em 6 de setembro. Em novembro, o papel repetiu o volume diário de R$ 43 milhões, mas a quantidade de transações saltou para 1.058, conforme o estudo da Bovespa. Dados da própria ALL mostram que a base de acionistas pessoa física saltou de 0,15% do capital antes do desdobramento para 2,6% em janeiro deste ano. Nogueira conta que algumas empresas estão planejando seguir as sugestões da Bolsa neste ano, entre elas a AmBev. Atualmente, o ativo vale R$ 1.091,00 por mil PNs, com lote padrão de 10 mil ações. Ou seja, é preciso gastar no mínimo R$ 10.910,00 para entrar no investimento. Procurada pela Agência Estado, a AmBev disse que, por enquanto, não há nada previsto em relação ao assunto. "A AmBev está sempre buscando novas maneiras de gerar valor para os acionistas", disse a empresa, em nota. A dificuldade maior, segundo Nogueira, ocorre junto às estatais, especialmente do setor elétrico. "As estatais, de maneira geral, são menos sensíveis às mudanças", afirma Nogueira, ressaltando que a Petrobras é exceção. "A Petrobras tem um bom relacionamento com os minoritários." A petrolífera fez um desdobramento de ações de 1 para 4 em setembro de 2005. Atualmente, a ação PN vale R$ 46,50. Outras companhias resistentes à idéia de padronização são aquelas cujas ações valem centavos. "De maneira geral, são empresas em dificuldades financeiras, em concordata ou recuperação judicial. Elas estão mais preocupadas em resolver seus problemas financeiros e acabam deixando essa questão das ações de lado." O procedimento para essas companhias, explica Nogueira, seria promover o grupamento dos papéis. "Tivemos algumas adesões, como a Inepar, que fez grupamento de 10 mil para 1, e da Eluma, de 2 mil para 1", diz. Hoje, Inepar PN vale R$ 11,70, e Eluma PN, R$ 40,00. O superintendente de Operações da Bovespa lembra ainda que as cotações por lote de mil costumam gerar muita confusão, não apenas para pequenos investidores, mas também para estrangeiros e mesmo operadores. "O estrangeiro está acostumado a cotações unitárias. Ele chega aqui e, além de ter que fazer a conversão do câmbio, ainda precisa dividir por mil", comenta. "Até mesmo os operadores acabam se confundindo, já que são obrigados a lidar com papéis que seguem padrões diferentes. O ideal é que todas as ações tenham cotação unitária."

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