País deve crescer 6% no próximo ano, avalia Barros

Sócio da Quest Investimentos vê economia retomando rapidamente o dinamismo de antes da crise

Luciana Xavier, da Agência Estado,

25 de setembro de 2009 | 14h04

O Brasil deve ter uma forte recuperação e chegar a crescer 6% no ano que vem, acredita o sócio da Quest Investimentos, Luiz Carlos Mendonça de Barros, que foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações no governo de Fernando Henrique Cardoso. "Vejo a economia retomando rapidamente o dinamismo de antes da crise", disse, em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo, da Agência Estado. Para Barros, o terceiro selo de grau de investimento concedida na terça-feira pela Moody's é positivo "mas acho que a questão do investment grade está superada. Agora vamos olhar para a frente".

 

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Segundo ele, se a economia mantiver o ritmo atual de retomada, um velho inimigo pode voltar a rondar o Banco Central: a inflação. "Se acumularmos no ano que vem crescimento do consumo interno, que vai acontecer, a volta dos investimentos e o nível de gasto do governo tão elevado como está hoje, vamos começar a criar tensão inflacionária que vai acabar desembocando no aumento de juros. Então, o governo tem que ter juízo para desacelerar os gastos para o ano que vem", avaliou. Barros diz que está difícil avaliar até onde o dólar pode cair. "Há seis meses eu projetava o dólar a R$ 1,80. A partir daí prefiro observar um pouco."

 

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

 

Agência Estado - Esta semana o Brasil virou grau de investimento pela Moody's. Qual a importância desse upgrade que, se por um lado foi o último a chegar, por outro, foi o único a ser dado em período ainda de crise global?

 

Luiz Carlos Mendonça de Barros - Houve uma convergência das agências, com uma novidade no caso da Moody's, pois ela, além de melhorar nossa nota no nível de investment grade, colocou também em observação positiva. Isto é, deu um sinal de um movimento próximo de melhora ainda na nota. Mas é uma coisa engraçada porque o mercado já vinha antecipando esse movimento. O Brasil já tinha avançado bastante nos últimos meses. Acho que essa questão do investment grade está superada. O Brasil consolidou essa avaliação e vamos olhar para frente.

 

AE - Ao olhar para frente, o que o senhor vê?

 

Barros - Vejo uma economia que está retomando rapidamente o dinamismo que tinha antes da crise, com um impacto ainda negativo do comércio exterior - as exportações brasileiras não se recuperaram. Certamente, o investimento, que foi afetado durante a crise, vai voltar naturalmente. Alguns analistas parece não entender que uma dinâmica de economia de mercado tem um timing natural. Muita gente está criticando que o investimento não voltou ainda. Isso é absurdamente natural. Estamos saindo muito recentemente de uma crise que assustou todo mundo. Então acho que a cadência da economia brasileira vai ser a manutenção do estímulo vindo do setor privado, do consumo - o emprego voltou a crescer, os salários voltaram a ter ganho positivo, em real. Os bancos também voltaram à normalidade, com um estímulo adicional. Pois eles acabaram perdendo um espaço para os bancos públicos, nesse período de quatro a cinco meses em que eles se trancaram. Acho que vão querer recuperar esse tempo perdido, o que dá um impulso maior à retomada do crédito. No caso do investimento, acho que é uma questão de mais um, dois ou três meses para as empresas privadas voltarem aos programas de investimento que abandonaram durante a crise.

 

AE - O senhor enxerga uma enxurrada de recursos vindo para o Brasil?

 

Barros - Isso já está ocorrendo. Se olharmos a previsão de abertura de capital de empresas brasileiras nos próximos meses, estamos perto dos US$ 14 bilhões. E isso vai acontecer porque o mundo tem hoje um desequilíbrio entre oportunidade de investimentos e liquidez para investimentos. Porque tem um pedaço grande do mundo, principalmente dos desenvolvidos, em que a retomada da atividade vai ser muito lenta. E esse pedaço do mundo tem ainda uma capacidade ociosa para ser ocupada, que vai fazer com que os investimentos nos próximos dois anos seja muito pequeno. Por outro lado, há alguns países, e o Brasil é um deles, onde se retomou mais rapidamente a dinâmica do consumo e onde as oportunidades se apresentam de forma mais clara. Além disso, é importante a gente entender que nessa saída de crise há claramente um problema com o dólar americano, que tem levado investidores a buscar ativos em regiões do mundo cuja moeda tenha uma dinâmica diferente do dólar. O real é uma dessas moedas, o que faz com que se tenha no Brasil o acúmulo de duas atrações positivas: a dinâmica de crescimento da economia e o fato de que ao entrar, você está travando seu investimento numa moeda que o mercado enxerga como uma moeda de uma força maior que o próprio dólar americano.

 

AE- O dólar chegou ontem (dia 23) a R$ 1,7820. Há espaço para a moeda cair mais?

 

Barros - Não sei. Há seis meses fiz uma projeção que naquele momento parecia um absurdo, que era de dólar a R$ 1,80. Até R$ 1,80 eu vou. A partir daí, prefiro observar um pouco (risos). Mas é importante entender que o real não tem movimento autônomo, isolado. Ele está se valorizando dentro de uma cesta de moedas - principalmente ligadas a economias exportadoras de commodities - e, portanto, tem de acompanhar um pouco essa dinâmica. Ele não está sozinho.

 

AE - O que impede o dólar de voltar ao patamar pré-crise?

 

Barros - Ele volta ao patamar pré-crise se as outras moedas também voltarem. E tem o Banco Central. Acho que o Banco Central teria de acompanhar a cotação do real dentro dessa cesta de moedas. Isto é, ele não deve interferir no processo de valorização dessa cesta. Mas se dentro dessa cesta de moedas, o real, por alguma condição específica de movimento de capitais, tiver uma valorização maior, acho que é dever dele intervir.

 

AE - O senhor viu incoerência no fato de o Brasil ter conseguido o grau de investimento, citando como ponto positivo a situação fiscal, dias depois de o governo ter reduzido a meta do superávit primário?

 

Barros - Não vejo incoerência nenhuma. O que eu vejo é que esses analistas que dão tanta força para parte fiscal estão perdendo a dinâmica da economia brasileira mais geral. Quando se olha com mais cuidado dentro da economia, o que vemos é que o setor privado está crescendo em relação ao setor público. Um segundo ponto é que essa piora fiscal deste ano está muito relacionada à crise que vivemos, com queda de arrecadação e aumento de gasto do governo. Então, não me preocupo com este ano. Até porque, o superávit primário para estabilizar a relação dívida/PIB não é muito maior que 1,5%, 1,7%, que é o que o governo deve fazer. Começo a me preocupar com a parte fiscal, se o novo presidente da República seguir a mesma linha desses últimos dois ou três anos do presidente Lula. Mas hoje não vejo incoerência. As pessoas esquecem que como o juro caiu muito, o superávit primário que é preciso para estabilizar a relação dívida/PIB é muito menor.

 

AE - O senhor não vê então nenhum grande problema na economia?

 

Barros - Vejo um problema novo que vai aparecer a partir do ano que vem. Nesse ritmo de crescimento que a gente está retomando, principalmente no mercado de trabalho. Por incrível que pareça, na metade do ano que vem, vamos começar a nos preocupar com a inflação. E aí é que entra a questão fiscal. No período em que a economia privada deu esse vácuo, ele (governo) entrou, corretamente, só que está na hora de ele sair. Porque se nós acumularmos no ano que vem crescimento do consumo interno - que vai acontecer -, a volta dos investimentos e o nível de gasto do governo tão elevado como está hoje, nós vamos começar a criar tensão inflacionária, que vai acabar desembocando no aumento de juros. Então, o governo deveria ter o juízo para desacelerar os gastos para o ano que vem. O problema é que o ano que vem é ano eleitoral e sabemos que numa democracia como a nossa num ano eleitoral o governo tende a gastar mais. É por isso que eu jogo a minha preocupação mais para o próximo presidente da República, a partir de 2011.

 

AE - De qualquer modo, a partir do segundo semestre do ano que vem pode já haver um problema para o BC resolver?

 

Barros - Acho que sim. Nós podemos começar a ver uma inflação mais próxima de 5% do que de 4,5% já no ano que vem.

 

AE - Os juros vão acabar subindo então no segundo semestre?

 

Barros - Isso não sei. É problema do Banco Central.

 

AE- Como o senhor vê o crescimento do Brasil em 2010?

 

Barros - Nós revisamos nossa projeção para crescimento do PIB em 2010 de 5% para 6%.

 

AE - Qual sua expectativa para o relatório trimestral de inflação?

 

Barros - Acho que todas as projeções para este ano e para o ano que vem apontam ainda para um número por volta de 4,5% (IPCA). O que estou colocando como preocupação é uma projeção um pouco mais adiante, que não é bem o objetivo do relatório de inflação do Banco central. Nos modelos do Banco Central, certamente ainda não há nenhuma razão para se pensar numa fuga do centro da meta. Acho que isso ainda não aparece no radar do banco central nesse relatório de inflação.

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