País pode crescer 2%, diz Augustin

Para o secretário do Tesouro, a projeção do governo para o PIB é factível; 'O governo tem conseguido, felizmente, fazer previsões que se cumprem'

Luciana Xavier, Adriana Fernandes e Lucinda Pinto, da Agência Estado,

20 de março de 2009 | 17h46

O Brasil tem condições de crescer 2% ao ano e está trabalhando para isso, disse o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin, em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo. O governo anunciou a revisão da previsão de crescimento para este ano de 3,5% para 2%, enquanto a meta de inflação foi mantida em 4,5%. "Vemos o cenário de inflação de forma bem positiva", disse.

 

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Apesar da mudança, a projeção de crescimento do governo ainda está bem mais otimista do que a do mercado. Pesquisa Focus desta semana mostrou que o mercado reduziu suas projeções de 1,20% para 0,59% para o PIB deste ano. "Normal que haja previsões diferentes, especialmente porque os impactos da crise internacional não estão claros. Mas o governo brasileiro tem conseguido, felizmente, fazer previsões que se cumprem", ressaltou.

 

Augustin, no entanto, rejeita as projeções muito pessimistas, como a do banco Morgan Stanley, que revisou sua projeção para o PIB brasileiro, de zero para queda de 4,5% este ano. "No ano passado, tivemos crescimento muito significativo mesmo com as dificuldades mundiais enormes no último trimestre. Esse crescimento foi algo que ocorreu e muitos analistas não enxergavam assim. (...) Há excesso em algumas previsões. Uma previsão de queda de 4,5% está fora, obviamente", disse.

 

O secretário também descarta qualquer risco de o País vir a perder o grau de investimento caso a crise se agrave e o governo não consiga fazer os ajustes fiscais necessários. "Os fundamentos da economia têm sido fortemente testados nesse ano de crise e o Brasil tem demonstrado uma solidez fiscal muito grande", afirmou.

 

Juros

 

Augustin avaliou que a queda mais rápida da taxa Selic abriu uma janela de oportunidade para o governo melhorar o perfil da dívida pública. O secretário disse que há uma demanda maior do mercado por papéis prefixados de prazo mais longo com o aumento do apetite dos investidores por risco.

 

Segundo ele, esse aumento da demanda já levou o Tesouro a elevar de R$ 500 milhões para R$ 2 bilhões a média semanal de oferta de títulos prefixados nos seus leilões regulares."De fato, o mercado nesse momento permite a construção de um perfil melhor e, portanto, com maior participação de prefixados e menor de outros títulos, como os atrelados à taxa Selic. Isso é positivo", afirmou.

 

Augustin destacou que a estratégia do Tesouro é aproveitar o cenário de afrouxamento monetário para o alongamento dos prazos de vencimento. "A nossa estratégia é aproveitar os momentos em que há melhores condições para alongar os prazos. E esse tem sido um momento propício".

 

Apesar da crise e da volatilidade externa, o secretário destacou que para o financiamento da dívida pública o cenário é muito melhor agora. "Estamos trabalhando um com cenário hoje, e esse é um ponto importante, muito melhor do que ser via algumas semanas ou meses atrás", afirmou.

 

Para ele, essa tendência de melhora deve continuar porque o Brasil mantém fundamentos sólidos. "Estamos conseguindo melhorar em termos de perfil e prazos. É um ano que, apesar da crise, estamos vendo com otimismo nessas primeiras semanas. As colocações de títulos têm sido positivas", afirmou. "O que estamos percebendo é melhora bastante significativa do mercado em termos de prefixados", disse.

 

Augustin não descartou a possibilidade de o Tesouro fazer avanços mais fortes do que os previstos no Plano Anual de Financiamento (PAF) para o alongamento dos prazos de prefixados. "Nossa estratégia está no PAF. Alguma adequação pode ser feita", disse.

 

O secretário confirmou que tem havido um aumento da procura de títulos da dívida interna por investidores estrangeiros. Na sua avaliação, essa demanda só tende a aumentar à medida que o cenário fique mais calmo. "Já se percebe um aumento da participação de estrangeiros. É um fenômeno esperado à medida que o Brasil é um país com fundamentos muito sólidos", disse. "O Brasil passa a ser opção importante (de investimento). E já percebemos esse movimento. O aumento dos investidores vai se aprofundar", afirmou.

 

Indexação

 

Augustin disse que o governo já vem trabalhando para desindexar a economia, na contramão da avaliação da diretoria do Banco Central, que avalia que a indexação ainda é "uma amarra para queda maior da Selic".

 

Segundo ele, o cenário de inflação é benigno e essa é uma tendência. Ele ponderou ainda que essa é também a avaliação dos analistas do mercado financeiro. "O processo de desindexação diminuiu muito, embora ainda haja preços administrados indexados", afirmou.

Segundo ele, esse processo de desindexação se aprofundou e tende a melhorar à medida que a economia for amadurecendo. Ele citou, como exemplo de melhora, a redução da indexação aos IGPs, principalmente nos contratos do setor elétrico. "A minha opinião é que o Brasil está bem menos indexado", acrescentou.

 

O diretor de Política Monetária do Banco Central, Mario Torós, disse recentemente que a economia precisa de um novo padrão de desindexação e que há dificuldade em se desmontar essa cultura de reajuste de preço da época de inflação galopante. Discurso semelhante foi o do diretor de Normas e Organização do Banco Central (BC), Alexandre Tombini.

 

Augustin rebateu avaliações de que a política de reajuste do salário mínimo atrelada à inflação seja danosa para o processo de desindexação. "Estamos num processo de correção do salário mínimo.

 

Ele é muito positivo e melhora o perfil da distribuição de renda. "Não tem efeito danoso para inflação", disse. O secretário evitou dar detalhes das medidas em estudo para mudar a rentabilidade da poupança.

 

Para o secretário, a oferta de títulos atrelados ao IPCA, as NTN-B, pelo Tesouro não contribuem para a indexação da economia. "A indexação que eventualmente pode trazer alguma problema é aquela que retroalimenta preços. É o preço que sobe porque lá trás teve um inflação. Não é o caso de título público. Não tem efeito inflacionário. É uma opção de aplicação", afirmou.

 

Augustin disse ainda que a programação financeira anunciada pelo Ministério do Planejamento é "bastante realista" e não vê necessidade de se cortar o aumento de salários dos servidores públicos.

 

"A programação que fizemos neste momento é tranquila e permite a continuidade dos investimentos. A discussão sobre reajuste de pessoal será feita em momento oportuno. Temos em mente o compromisso fiscal e estamos fazendo cortes bastante significativos", disse.

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