País registra maior saldo em contas externas da história

Superando as mais otimistas expectativas dos analistas financeiros, o Brasil obteve no ano passado o superávit recorde de US$ 14,19 bilhões na conta de transações correntes. É o maior resultado desde 1947, início da série do Banco Central (BC). É também o terceiro ano seguido de quebra de recorde. A conta de transações correntes registra o resultado das exportações e importações e também as receitas e despesas envolvendo serviços (viagens internacionais, fretes e seguros), pagamentos de juros e remessa de lucro e dividendos. O superávit de 2005, equivalente a 1,79% do Produto Interno Bruto (PIB), superou em US$ 2,48 bilhões os US$ 11,71 bilhões de 2004. Para 2006, a mais nova expectativa do BC, divulgada ontem, é de um superávit menor: em torno de US$ 6,1 bilhões. A queda no superávit vai refletir o aumento esperado das importações, que reduzirá o saldo da balança comercial. Cenário positivo ?Esse cenário positivo para as transações correntes veio em boa hora e propiciou a consolidação das contas externas brasileiras. Hoje temos indicadores de sustentabilidade externa em condições absolutamente favoráveis?, disse o chefe do Departamento Econômico do Banco Central (BC), Altamir Lopes. Embora positiva para o País, a virada estrutural das contas externas abriu a discussão em torno do debate de que uma economia emergente e em desenvolvimento como a brasileira estaria em melhores condições se não tivesse superávits em transações correntes tão elevados. Poupança externa O Brasil precisaria atrair mais poupança externa para alavancar o crescimento da economia. Nesse cenário, haveria redução do superávit em transações correntes com o aumento das importações, a redução do ritmo de crescimento das exportações, aumento das despesas com serviços (principalmente tecnológicos) e das remessas de lucros e dividendos por causa da elevação dos investimentos estrangeiros diretos. ?Uma economia como a nossa precisa de uma complementação de poupança externa. Portanto seria razoável trabalhar com um ligeiro déficit em transações correntes. Isso seria uma situação ideal.? Médio prazo Segundo ele, o Brasil não pode ter déficits exagerados como no passado, quando o saldo negativo era de 5% do PIB, mas pode sim trabalhar com um saldo negativo de 2% a 2,5% do PIB. ?O Brasil caminha para isso no médio prazo?, previu. O professor da PUC de São Paulo, Antônio Corrêa de Lacerda, discorda da tese: ?É um equívoco. Já experimentamos no passado ter déficit em conta corrente e vimos que não foi bom?. Segundo ele, o País deveria trabalhar para seguir com superávits em conta corrente ou, na pior das hipóteses, ficar com o resultado em equilíbrio. ?O melhor é termos como objetivo melhorar a qualidade das exportações?, disse Lacerda. Exportações O bom desempenho das contas externas em 2005 foi sustentado pelas exportações, suficientes para compensar os gastos maiores com juros, remessas de lucros e também o aumento na conta de serviços, que inclui viagens internacionais, aluguel de equipamentos e royalties e licenças. Em 2005, a conta de serviços ficou negativa em US$ 8,14 bilhões, bem mais do que os US$ 4,67 bilhões de 2004. Os itens que pesaram mais foram os gastos com aluguel de equipamentos (US$ 4,13 bilhões), transportes (US$ 1,79 bilhão), viagens internacionais (US$ 858 milhões), computação e informações (US$ 1,62 bilhão) e royalties e licenças (US$ 1,3 bilhão). Altamir Lopes informou que o BC comprou cerca de US$ 21,5 bilhões no mercado de câmbio doméstico em todo o ano passado. O objetivo das aquisições foi conter o processo de valorização do real. Para este ano, Corrêa de Lacerda acha que o BC terá de manter a mesma estratégia. ?É possível que o dólar tenha neste ano desvalorização de 10% no mercado internacional, o que, certamente, deixará o real com tendência de valorização.? Adriana Fernandes

Agencia Estado,

20 de janeiro de 2006 | 08h08

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