Para Damodaran, investir é uma questão de filosofia

Investir é um processo contínuo de aprendizagem, que depende da personalidade de cada um e de sua filosofia para os negócios, na opinião do professor e escritor Aswath Damodaran, renomado especialista em avaliação de empresas. O ato está mais ligado às características individuais, ao perfil do investidor. Segundo ele, alguns preferem colocar suas economias em ações de empresas mais tradicionais, ligadas à indústria, por exemplo. Outros optam por destinar os recursos para companhias de tecnologia. Há ainda os que acreditam cegamente nos gráficos de uma corretora ou banco de investimentos sem se importar com a qualidade dos ativos analisados. "Para ser um investidor de sucesso, não se deve considerar apenas as evidências de mercado, mas também examinar seu próprio potencial e suas fraquezas para descobrir uma filosofia de investimento que melhor se adapta a você", explica ele no livro "Investment Philosophy", ainda sem tradução no Brasil. No livro, Damodaran analisa as estratégias de investimentos como filosofias. Em entrevista exclusiva à Agência Estado, o teórico lista três delas: investimento em valor, arbitragem e crescimento. No primeiro caso, ele afirma que o investidor deve tentar "comprar companhias maduras, que estão operando abaixo do valor de seus ativos atuais". Se a opção é pelo investimento em crescimento, Damodaran ensina que deve-se levar em conta as que estejam subvalorizadas, dado seu potencial de alta. Na filosofia de arbitragem, o investidor deve encontrar ativos muito parecidos ou idênticos inadequadamente precificados pelo mercado. "Você compra o mais barato e vende o mais caro e obtém dinheiro à medida que os preços convergem." Damodaran tornou-se conhecido do mercado financeiro e do meio acadêmico por suas explanações sobre a forma de avaliação de empresas em plena época da emergência das companhias ligadas à internet. Ele defendeu uma forma de avaliação baseada no valor presente dos fluxos de caixa futuros, descontados a uma taxa pré-determinada, chamada de valuation. Seus livros fazem parte da bibliografia básica de todos os cursos sobre mercado acionário. Ele é Ph.D. pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), professor e consultor da Stern School of Business, da Universidade de Nova York. É autor de "Damodaran on Valuation", "Investment Valuation", "The Dark Side of Valuation" ("A Face Oculta da Avaliação", Makron Books), "Corporate Finance: A User's Manual", e "Investment Philosophies". Damodaran participará hoje de uma palestra na Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), no centro do Rio. Ele irá abordar temas como análise de risco; avaliação fundamentalista, técnica e por múltiplos; determinação do custo de capital; fusões e aquisições; ofertas hostis e ofertas iniciais de ações. Leia, a seguir, a entrevista concedida à Agência Estado, por e-mail: AE: O senhor é considerado o Papa da valution por analistas e professores. Poderia resumir a teoria? Damodaran: O Papa é infalível e eu não. A valuation é composta por escolhas de estimativa e pelos erros resultantes. Há duas formas diferentes para se pensar a valuation. Uma é que você está comprando um conjunto de fluxos de caixa (com crescimento e risco incorporados neles) e você deve pagar o preço correto por esses fluxos de caixa. Isso é valuation intrínseca e é o que tentamos estimar numa avaliação de fluxo de caixa descontado. A outra (forma) é a valuation relativa, por meio da qual você estima o que pagar por alguma coisa baseado no preço que os outros estão pagando por ativos semelhantes. Esta última é usada com mais freqüência, mas corremos o risco de cometer os mesmos erros que os outros estão cometendo. AE: Valuation, como ferramenta de análise das companhias, pode reduzir os riscos do investimento? Damodaran: Eu não acredito que a valuation possa reduzir riscos. Ela pode expô-los e deixá-lo mais consciente a respeito dos riscos. Você então pode reduzi-los se sentir-se incomodado com a quantidade de risco ao qual está exposto. AE: Valuation é apontada como a melhor ferramenta para medir o potencial das companhias da "nova economia", como as de internet e ponto.com. Em 2000, a bolha explodiu e muitos investidores perderam dinheiro. Por outro lado, algumas companhias como Google estão crescendo. Gostaria que o senhor comentasse isso. Damodaran: Essa é a natureza das companhias com alto risco. Algumas vezes você ganha, outras vezes você perde. O fundamental é fazer bem as escolhas e diversificar. AE: Em "Investment Philosophies", o senhor disse que há algumas filosofias de investimentos. Quais são elas? Damodaran: Eis algumas: investimento em valor: tenta-se comprar companhias maduras que estão operando abaixo do valor de seus ativos atuais. Investimento em crescimento: você tenta comprar companhias que acredita que estejam subvalorizadas, dado seu potencial de crescimento. Em arbitragem, você tenta encontrar ativos muito parecidos ou idênticos que estejam inadequadamente precificados pelo mercado. Você compra o mais barato e vende o mais caro e obtém dinheiro à medida que os preços convergem. AE: Sua teoria sobre as filosofias de investimento é baseada em experiências de investidores famosos, como Warren Buffet? Damodaran: Eu classificaria todos os grandes investidores com base em suas filosofias de investimento, mas o importante é que nem eles compartilham da mesma filosofia. Não existe nenhuma filosofia melhor do que as outras. AE: Como um investidor pode reduzir seu risco? Damodaran: O maior determinante é como ele aloca seu portfólio entre as diversas classes de ativos - ações, bônus, ativos reais. A diversificação é claramente uma maneira útil de reduzir a exposição ao risco. AE: O senhor acredita que o mercado seja perfeito? Damodaran: Claro que não. Se acreditasse não estaria falando sobre avaliação de mercado. O preço de mercado seria o valor correto. AE: Muitos investidores perderam dinheiro com a concordata da Enron e da WorldCom. O senhor acha que eles estão mais conscientes hoje, depois desses casos? Damodaran: Os mercados têm memória curta. Os investidores passam por ciclos e eu acredito que esse ciclo já é passado. AE: O mercado está mais seguro do que antes, depois da aprovação da lei Sarbanes-Oxley? As regras poderão garantir a segurança para os investidores? Damodaran: A governança corporativa pode estar um pouco mais fortalecida, mas a Sarbanes-Oxley não pode realmente causar grande impacto sobre os riscos do mercado. AE: O senhor conhece o mercado brasileiro? O que o senhor acha dele? Damodaran: O mercado está ficando mais diversificado e teve desempenho claramente superior ao da economia brasileira. Ou os investidores sabem alguma coisa sobre o futuro que nós não sabemos ou eles estão se adiantando. AE: O Brasil tem poucas companhias presentes no mercado de ações se você comparar com o total de empresas existentes. Temos menos de 500 empresas de capital aberto. O senhor poderia comentar isso? Damodaran: É verdade. Eu acho muito difícil que companhias pequenas e promissoras no Brasil cheguem ao mercado. Além disso, o desejo de deter o controle é tão forte que os proprietários preferem gerenciar pequenos negócios sobre os quais têm total comando do que administrar companhias maiores e com capital aberto, nas quais eles têm de se mostrar mais. AE: O senhor acredita as economias dos mercados emergentes vão crescer mais rapidamente do que a de países ricos? Por que? Damodaran: Na média sim. É muito mais fácil para uma economia pequena crescer a 10% do que uma economia madura. Haverá também mais choques ao longo do caminho (e, portanto, riscos adicionais).

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