Peça de teatro ajuda Natura a fechar acordo com 'erveira'

Na última terça-feira, Deusarina Correia, 51 anos, acordou cedo e partiu de Belém rumo a São Paulo vestida com sua melhor roupa, chapinha no cabelo e acompanhada de seu advogado. Tratava-se de uma viagem de negócios. Dali a algumas horas ela se reuniria com executivos da Natura, uma empresa que fatura R$ 3,2 bilhões, para assinar um acordo que pode mudar definitivamente o rumo da associação que preside, a Ver as Ervas. A associação vende cerca de R$ 20 mil por dia em perfumes, xampus e sabonetes na famosa feira do Ver-o-Peso, na capital paraense.Após meses de duras negociações, a Natura concordou em repassar um porcentual sobre as vendas de produtos à base de priprioca, cumaru e breu branco para a associação. "A Natura reconheceu a feira de Ver-o-Peso como provedor do conhecimento tradicional associado ao patrimônio genético. O conhecimento serviu como um atalho para a Natura", diz o diretor de sustentabilidade da Natura, Marcos Egydio Martins. "A Natura está num terreno onde a legislação ainda é nebulosa. Esse é o primeiro acordo do gênero no País."A história entre a companhia e a associação é antiga. Começou há cinco anos, quando pesquisadores da Natura visitaram a feira de Belém. Na ocasião, gravaram longos depoimentos com seis vendedoras de ervas. Cada uma delas recebeu R$ 500 para ceder o direito de uso de imagem. Na época, elas acharam que se tratava de um vídeo. Mas a Natura estava buscando fontes de inspiração no Brasil todo para desenvolvimento de novos produtos.Dois anos mais tarde, uma das vendedoras foi convidada pela Natura para participar do lançamento do perfume e da água de banho de breu branco, uma das ervas vendidas na feira. Até aí, não havia imbróglio algum entre as partes.A briga começou no ano passado, quando a OAB de Belém procurou a associação e falou sobre os direitos que ela tinha. "Nós ficamos bravos com a Natura", lembra Deusa, como é mais conhecida. "Aí fomos investigar nossos direitos."A associação não chegou a mover um processo contra a Natura. "O Ministério Público do Pará iniciou investigação e recomendou acordo entre as partes, até por iniciativa da Natura e da associação", explica o advogado da associação, Eugênio Pantoja, que teve os honorários pagos pela Natura, como manda a Lei da Biodiversidade.O valor da negociação é guardado a sete chaves. Os advogados usaram como referência um acordo anterior entre a Natura e 32 famílias da comunidade de Iratapuru, no Amapá. No ano passado, chegou-se à conclusão que a Natura repassaria um porcentual de 0,5% sobre as vendas dos produtos com breu branco. Nesse caso, a negociação era mais simples, pois o pagamento era pelo patrimônio genético, e não pelo conhecimento tradicional. A comunidade fornecia matéria-prima para a Natura.Aulas de inglêsAlém do repasse de um porcentual sobre as vendas, a Natura também propôs a criação de um fundo para ajudar a associação a ser auto-sustentável. O dinheiro será usado para compra de equipamentos e de uma sede para a associação. Os associados também terão aula de inglês e de francês para atenderem melhor os clientes estrangeiros. A associação Ver as Ervas tem 102 trabalhadores e 80 barracas na feira do Ver-o-Peso. É um negócio que passa de pai para filho. Apenas quatro famílias controlam a venda. Quase todos são parentes entre si. A barraca de Deusa - que aprendeu a fazer perfumes aos nove anos - chega a faturar R$ 300 por dia.TeatroO acordo entre a Natura e a Associação Ver as Ervas foi o encontro de dois mundos distintos. Você consegue imaginar um diálogo entre executivos de uma empresa de R$ 3,2 bilhões de faturamento, ações negociadas em bolsa e loja em Paris e uma centena de vendedores de ervas de uma feira de Belém? A Natura também não conseguia. Para conduzir as negociações, a empresa escalou uma antropóloga, um economista e um advogado. O time ficava em Belém, dedicado exclusivamente à associação. Mesmo assim, a primeira fase das discussões foi tensa. As duas partes não se entendiam. ?Numa das reuniões, eu levantei e falei: vocês têm que começar a falar nossa língua?, lembra Deusarina Correia, presidente da associação.A Natura levou a sério o pedido e convidou uma ONG local de rádio comunitária para traduzir, por meio de uma peça de teatro, todos os termos jurídicos que constavam na Lei da Biodiversidade para a linguagem popular. ?Depois que a Rádio Margarida entrou, tudo mudou?, diz Deusa.O dinheiro para a associação só começará a ser repassado após aprovação do Ministério do Meio Ambiente. A Natura espera que o sinal verde seja dado em até onze meses.

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