Ed Ferreira/Estadão
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Meirelles nega ‘convite concreto’, mas mercado reage como se fosse ministro

Em encontro inesperado, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e o nome mais cotado para substituí-lo, Henrique Meirelles, estiveram juntos em evento em Brasília

Bernardo Caram, Rachel Gamarski, O Estado de S. Paulo

11 de novembro de 2015 | 18h52

Atualizado às 7h50 de 12/11

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, debateu na quarta-feira a situação da economia com o nome mais falado para substituí-lo no ministério, o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles. Em entrevista, Meirelles disse não ter recebido "convite concreto" para substituir Levy. Mas o mercado financeiro reagiu à sua fala durante o evento como se ele estivesse prestes a assumir o cargo.

"Questão de se eu aceitaria ou não aceitaria, tenho uma postura há muito tempo que eu não trabalho, não penso nem falo sobre hipótese. Só trabalho com situação concreta. Acho que o importante hoje é definirmos o que precisa ser feito no Brasil", respondeu Meirelles, ao ser questionado por um dos participantes do painel. 

A Bolsa de São Paulo fechou em alta de 1,86%, aos 47.065,01 pontos, puxada pelos boatos da troca no ministério. Durante a manhã, o dólar chegou a mergulhar de R$ 3,7760 para a faixa de R$ 3,70, mas ao longo do dia o movimento perdeu força, com a avaliação de que a presidente Dilma Rousseff resiste a fazer a substituição, e a moeda americana fechou com resultado mais modesto, uma queda de 0,32%, a R$ 3,7669.

Meirelles é bem visto pelos investidores porque eles imaginam que o ex-presidente do BC terá mais força política para fazer o ajuste fiscal avançar.

Encontro. Levy e Meirelles estiveram juntos no Encontro Nacional da Indústria (Enai), promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Com a agenda lotada, Levy teve de atrasar sua participação no evento e sua fala acabou coincidindo com a palestra do ex-presidente do Banco Central.

Para não causar mal-estar, os responsáveis pelo evento consultaram Levy e Meirelles se o encontro os incomodaria. Levy e Meirelles responderam que não, almoçaram juntos, cumprimentaram-se publicamente e posaram para fotos.

As cotações no mercado financeiro oscilaram com o discurso de Meirelles. Em sua apresentação, que foi acompanhada por Levy da primeira fila da plateia, o ex-presidente do BC disse que é preciso reconhecer a gravidade do cenário econômico brasileiro. "São números que apontam para um cenário recessivo que não há dúvida que temos de reconhecer a gravidade", avaliou, antes de ponderar que o País está muito mais forte do que nas últimas décadas.

Ajuste completo. Meirelles disse que é preciso olhar o Brasil não só no curto prazo, mas de uma forma a permitir um crescimento sustentável. De acordo com o ex-presidente do BC, a situação deve ser enfrentada de forma vigorosa e com ajuste fiscal, mas é preciso visão de longo prazo - o que foi interpretado como sinal de sua disposição de levar adiante reformas na estrutura dos gastos públicos.

Meirelles disse que a desvalorização cambial, apesar de problemas causados, como por exemplo para empresas endividadas, tem um lado positivo para produção e exportação. "É evidente que o câmbio não resolve o problema de longo prazo, mas é importante que ele dê um fôlego, uma base para as empresas."

Pouco antes, Levy apresentou um discurso parecido, em sua apresentação aos empresários. Com o dólar num patamar mais elevado, o ministro afirmou que o câmbio no lugar certo faz bem a empresas e indústria. "Sabemos que hoje é fundamental evoluir para baixar o custo Brasil. Produtividade não pode ser só no câmbio."

Custo para Dilma. Levy disse ainda que o Brasil está enfrentando problemas de curto prazo e a presidente Dilma está pagando um preço pelas mudanças que decidiu fazer para reorganizar a economia. "O governo tem feito mudanças importantes e difíceis e são mudanças que a presidente assumiu e está pagando um preço difícil para que a gente possa estar vencendo o curto prazo."

Ele destacou ainda que as medidas que o governo tem tomado são indispensáveis para e estabilização fiscal e retomada da demanda. "O Brasil tem condição política de fazer as reformas necessárias e se colocar num novo patamar."

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