Sergei Karpukhin/Reuters
Exploração de petróleo na Rússia; sanções impostas por outros países podem afetar escoamento de petróleo russo. Sergei Karpukhin/Reuters

Petróleo fecha em alta, no maior nível desde 2014, com tensões na Ucrânia

Barris subiram mais de 2%, com o Brent a US$ 96, diante da expectativa de que o conflito afete os campos de exploração russos e diminua a oferta de óleo no mercado

Letícia Simionato, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2022 | 18h30

Os contratos futuros do petróleo fecharam em alta nesta segunda-feira, atingindo o maior nível desde 2014, em sessão marcada pela volatilidade. A commodity operou em alta durante o começo do dia, mas depois virou para baixo, à medida que o dólar se fortalecia em meio a crescentes temores de que a Ucrânia seja invadida pela Rússia. Durante a tarde, o petróleo passou a subir e ampliou ganhos com relatos de que o ataque russo pode estar próximo.

"Com uma possível guerra, muitos países da região poderão ter dificuldades de explorar ou até ter seus campos de exploração atingidos", diz Julia Monteiro, analista da MyCap. "Esse bloco de oposição à Rússia promete sanções severas contra o país, que também é um dos grandes exportadores de petróleo. Se a Rússia não conseguir escoar petróleo, vai faltar a commodity no mundo", acrescenta.

Em Nova York, o barril do petróleo WTI com entrega prevista para março subiu 2,53%, a US$ 95,46, no maior nível desde 2014. Já o Brent para abril, padrão utilizado pela Petrobras, avançou 2,26%, a US$ 96,48 em Londres.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, disse que foi avisado de que a Rússia atacará o país na próxima quarta-feira, 16. Além disso, o ministro da Energia dos Emirados Árabes Unidos, Suhail al-Mazrouei, afirmou hoje que essas tensões geopolíticas puxam para cima o preço do petróleo, mais do que um problema na oferta que poderia justificar que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) acelerasse o aumento de seus embarques.

Já o ministro das Relações Exteriores do Irã, Hossein Amirabdollahian, disse que o Irã está ansioso para chegar a um acordo rápido com potências mundiais em negociações nucleares.

Para a Rystad Energy, as notícias esperançosas sobre as negociações nucleares Irã-Estados Unidos são superadas por preocupações persistentes com as tensões militares na Ucrânia e suas possíveis ramificações nas exportações russas. "A ameaça de guerra e ruptura pode ser suficiente para elevar os preços. A tensa situação da Ucrânia ainda pode sair do controle, e o mercado de petróleo está no limite à procura de notícias da cena diplomática", destaca ela, em relatório enviado a clientes.

De acordo com o TD Securities, além das tensões geopolíticas, que ainda podem levar os preços do petróleo a três dígitos, outros fatores do lado da oferta começaram a diminuir e podem fazer os preços caírem. "Continuamos a notar sinais nascentes de normalização da produção na Líbia, Nigéria, Venezuela e em outros países da Opep+, sugerindo que os riscos operacionais diminuíram ultimamente", pondera.

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Tensão entre Ucrânia e Rússia segura ganhos da Bolsa e de Nova York; dólar cai

Ibovespa teve leve alta de 0,3%, mas quase ficou no vermelho, após o presidente ucraniano dizer que a Rússia pretende invadir o país na quarta-feira, 16

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2022 | 14h44
Atualizado 14 de fevereiro de 2022 | 19h30

O temor de que a Rússia invada a Ucrânia nos próximos dias afetou os negócios desta segunda-feira, 14, com o mercado nacional quase zerando os ganhos. Em Nova York, os índices fecharam majoritamente em queda, enquanto a Bolsa brasileira (B3) conseguiu registrar leve ganho de 0,29%, aos 113,899,19 pontos, o suficiente para atingir o maior nível de encerramento desde 18 de outubro. No câmbio, o dólar se fortaleceu no exterior, mas fechou ante o real com queda de 0,46%, a R$ 5,2185, no menor valor desde 6 de setembro.

Em pronunciamento nas redes sociais, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, disse ter recebido um aviso de que a Rússia atacará o país na próxima quarta-feira, 16. "Dizem-nos que 16 de fevereiro será o dia do ataque. Vamos fazer dele um dia de união. O decreto já foi assinado. Neste dia, vamos hastear bandeiras nacionais, colocar fitas auzis e amarelas e mostrar ao mundo a nossa unidade". Um conselheiro político, porém, disse que a fala de Zelensky era "irônica".

O porta-voz do Pentágono, John Kirby, disse em coletiva à imprensa ser "absolutamente possível" que o presidente russo, Vladimir Putin, aja com "pouco ou nenhum aviso" em ataque à Ucrânia. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, já reforçaram que pretendem impor consequências severas aos russos se eles seguiram adiante com a invasão.

Mais cedo, o secretário do Conselho de Segurança e Defesa Nacional da Ucrânia, Oleksiy Danilov, afirmou à imprensa que não vê alta probabilidade de que a Rússia faça uma invasão de larga escala do território ucraniano nos próximos dias. Além disso, a agência de notícias russa Tass informou que Putin deu autorização para que o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, mantenha negociações com países ocidentais sobre as tensões na Ucrânia.

“A postura do presidente russo na disputa ainda não é inteiramente clara”, aponta Rachel de Sá, chefe de economia da Rico Investimentos. “Ainda é cedo para determinar quais serão as ramificações da crise atual, tanto na seara política quanto na econômica”, acrescenta em nota, na qual observa também que o principal efeito imediato, nos preços de petróleo e derivados, coloca “mais gasolina na fogueira da inflação global”, no momento em que as políticas monetárias nas principais economias sugerem abordagem restritiva para a liquidez. Hoje, o Brent foi negociado acima de US$ 96 por barril, com ganho de 2% na sessão, enquanto o WTI chegou a US$ 95,46 no fechamento, no maior nível desde 2014

“Os investidores podem passar a precificar a necessidade de juros mais altos e subindo mais rápido do que o esperado nos EUA, se a situação se prolongar. O mesmo pode ocorrer no Brasil, com o risco de vermos juros ainda mais altos do que o projetado hoje, no evento de uma disparada inesperada nos preços da gasolina e derivados”, acrescenta Rachel. Uma “fuga para a segurança”, aponta a economista, tende a fortalecer o dólar, assim como a demanda por títulos americanos.

A tensão gerou uam onda de aversão aos riscos nos mercados de todo o mundo nesta segunda: em Nova York, Dow Jones caiu 0,50% e o S&P 500, 0,39%, enquanto o Nasdaq fechou estável. No mercado europeu, a Bolsa de Londres baixou 1,69%, a de Frankfurt, 2,02% e a de Paris, 2,27%. Na Ásia, Tóquio cedeu 2,23% e Hong Kong, 1,41%.

Apesar da onda global de aversão ao risco, o Ibovespa conseguiu se manter no azul durante boa parte do pregão e emendou hoje sua quinta alta seguida. Não fosse o conflito no exterior e a falta de sinal em Nova York, o índice teria mantido o patamar dos 114,1 mil pontos, registrado na máxima do dia. No mês, o índice avança 1,57% e, no ano, ganha 8,66%, apesar da aversão global a risco.

Hoje, o bom desempenho das ações de Banco Inter, em alta de 7,84%, ajudou a garantir fluxo positivo para o Ibovespa, assim como a alta de 6,59% de Petz e de 4,35% de Hypera. Em contrapartida, Petrobras ON e PN cederam 2,58% e 2,25% cada, enquanto Vale baixou 0,43%.

Câmbio

Com relatos de fluxo de recursos estrangeiros para ativos domésticos e perspectiva cada vez maior de taxa Selic na casa de 12%, o dólar à vista recuou no mercado doméstico de câmbio na sessão desta segunda, apesar de ter ganhado força em relação

a ampla maioria de divisas fortes e emergentes. Afora uma pequena alta na primeira hora de negócios, quando tocou na máxima do dia, a R$ 5,2665, a divisa trabalhou em baixa durante todo o pregão, operando em diversos momentos abaixo da linha R$ 5,20 - uma barreira técnica que, se superada em um fechamento, poderia abrir uma janela para nova rodada de apreciação do real, dizem operadores.

Com baixa de 1,65% em fevereiro, a moeda já acumula perda de 6,41% em 2022. Entre os pares do real, o rand sul-africano e o peso mexicano também conseguiram ganhar terreno frente ao dólar, mas com desempenho inferior ao da moeda brasileira. O índice DXY, que mede o dólar ante uma cesta de moedas fortes, subiu 0,30%, a 96,374 pontos.

O economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, vê o fluxo externo "ainda expressivo" para ativos locais como responsável pela "persistência no descolamento do mercado cambial" doméstico do comportamento do dólar no exterior. "O movimento segue beneficiando o real frente ao dólar, com a expectativa de juro maior no curto prazo", diz Velho, ressaltando que no exterior a moeda americana avança por conta da crise geopolítica e da possibilidade de alta maior de juros pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano).  /LUÍS EDUARDO, ANTONIO PEREZ E MAIARA SANTIAGO

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Bolsas internacionais caem em torno de 2% com temor de invasão russa na Ucrânia

Além da questão geopolítica, investidores seguem atentos ao quadro inflacionário mundial, que pode ser agravado pelo conflito entre os países

Sergio Caldas e Ilana Cardial, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2022 | 08h25
Atualizado 14 de fevereiro de 2022 | 19h28

Os principais índices do exterior fecharam com queda em torno de 2% nesta segunda-feira, 14, diante da escalada do conflito entre a Rússia e países ocidentais na região da Ucrânia, que pode agravar ainda mais o quadro inflacionário enfrentado pelas maiores economias do mundo.

As negociações sobre a crise na Ucrânia seguem no noticiário. Na sexta-feira, 11, o conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jake Sullivan, disse haver informações de que um ataque russo à Ucrânia poderá ocorrer antes do fim da Olimpíada de Inverno de Pequim, que se encerra no próximo dia 20. No domingo, 13, o presidente dos EUA, Joe Biden, voltou a alertar que a Casa Branca reagirá de forma dura a uma eventual invasão russa.

Hoje, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse que integrar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) garantiria a segurança de seu país. Já o chanceler alemão, Olaf Scholz, reafirmou estar pronto para debater segurança europeia com a Rússia, segundo a Reuters. O G7, por sua vez, reforçou estar pronto para impor sanções à Moscou, em caso de invasão. Na sexta-feira, a Casa Branca projetou que o presidente russo, Vladimir Putin pode agir nos próximos dias.  

Em relatório, a Capital Economics prevê que uma guerra na região  da Ucrânia adicionaria até dois pontos porcentuais à inflação de países desenvolvidos, em especial os europeus. Um quadro de conflito poderia levar os bancos centrais a optarem por um aperto monetário mais agressivo, enquanto os governos relaxariam sua política fiscal, afirma a consultoria. 

Na semana passada, dados fortes da inflação americana já tinham reforçado a avaliação de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) terá de elevar juros de forma agressiva ao longo do ano. Já na zona do euro, a persistência da inflação alimenta especulação sobre uma possível alta de juros pelo Banco Central Europeu (BCE) ainda este ano.

Na Europa, o índice Stoxx 600, que concentra as principais empresas do continente europeu, caiu 1,83%. Durante o pregão, a Bolsa de Frankfurt chegou a atingir o nível mais baixo desde outubro de 2021 - no fechamento, caiu 2,02%. A Bolsa de Londres caiu 1,69% e a de Paris, 2,27%. Milão, Madri e Lisboa baixaram 2,04%, 2,55% e 1,49% cada.

Na Ásia, o clima também foi de queda. A Bolsa de Japão cedeu 2,23%, enquanto Hong Kong recuou 1,41%, Seul, 1,57% e Taiwan, 1,71%. Os índices chineses de Xangai e Shenzhen baixaram 0,98% e 0,43% cada. Em Nova York, o Dow Jones fechou em baixa de 0,49%, o S&P 500 caiu 0,38% e o Nasdaq ficou estável.

No câmbio, a cautela apoiou a demanda pelo dólar. A Western Union menciona as tensões geopolíticas e também a postura do Fed impulsionadores da moeda. No horário citado, o dólar subia a 115,58 ienes, o euro recuava a US$ 1,1301 e a libra tinha baixa a US$ 1,3525. O índice DXY, que mede o dólar ante uma cesta de moedas fortes, subiu 0,30%, a 96,374 pontos.

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