PIB de 2009 pode ser positivo, afirma Marcio Pochmann

Segundo o presidente do Ipea, o PIB do País este ano deverá ficar entre 0,2% e 1,2% e, em 2010, em 4% ou mais

Lucinda Pinto e Luciana Xavier, da Agência Estado,

03 de setembro de 2009 | 15h20

A recuperação do Brasil é consistente e são maiores hoje as chances de o PIB ficar positivo este ano, acredita o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann. "O Brasil não deve registrar recessão, algum crescimento positivo", disse, em entrevista hoje ao AE Broadcast Ao Vivo, durante visita à Agência Estado. Segundo ele, o PIB do País este ano deverá ficar entre 0,2% e 1,2% e, em 2010, em 4% ou mais, e não vê "problemas inflacionários fortes" no ano que vem. Pochmann é professor licenciado da Unicamp, filiado ao PT, e entre 2001 e 2004 foi secretário municipal do desenvolvimento, trabalho e solidariedade em São Paulo na gestão de Marta Suplicy.

 

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Pochmann, que está no Ipea desde 2007, salientou que essa retomada consistente é observada especialmente na indústria, que foi a mais afetada pela crise global. "Tivemos uma recessão quase que exclusivamente industrial. Os setores primário e terciário não apresentaram os mesmos sinais de queda que o setor industrial. Mas vemos uma recuperação consistente do setor, principalmente na ocupação da capacidade ociosa", avaliou Pochmann.

Pochmann ressaltou que a retomada dos investimentos deve ocorrer nos próximos meses, apesar do "problema do câmbio". De acordo com ele, houve adiamento e não rompimento de investimentos, que devem voltar com o fortalecimento da demanda doméstica. "Dado o problema da taxa de câmbio e o patamar de juros reais, é de se imaginar que a retomada dos investimentos se dê mais voltada para o mercado interno", disse.

Ele acrescentou que, se não for "resolvida a questão do câmbio", a indústria pode ter dificuldade em avançar nas exportações, fazendo com que o Brasil corra o risco de seguir como exportador principalmente de produtos primários.

O presidente do Ipea, no entanto, não deixou claro que medidas poderiam ser adotadas para reduzir "os efeitos maléficos da valorização do real". "A recuperação do real faz com que tenhamos mais dificuldade em exportar nossos produtos. E acredito que a decisão que o Copom tomou não vai ajudar a resolver o problema do cambio", afirmou. Ontem, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) decidiu manter a taxa Selic inalterada em 8,75%.

"Não estou cobrando do Copom a responsabilidade de cuidar do câmbio, inclusive porque isso não é função do Banco Central. Talvez pudesse vir a ser, como é em outros países, onde a função do Banco Central vai além da política monetária, como ocorre nos Estados Unidos", explicou. "Mas acredito que a decisão do Copom mais uma vez reflete a dificuldade que o governo tem do ponto de vista da coordenação de políticas, fiscal e monetária, sobretudo", acrescentou.

Desemprego

 

Os efeitos da crise financeira sobre o mercado de trabalho foram mais brandos do que no passado e, portanto, devem ser superados com mais facilidade, na avaliação de Pochmann. "Já estamos com uma taxa de desemprego em julho menor do que estava no mesmo mês em 2008", afirmou, referindo-se à taxa de desemprego medida pelo IBGE, que caiu para 8% em julho deste ano, ante 8,1% tanto em junho de 2009 quanto em julho de 2008. "O mercado de trabalho reage relativamente muito bem. Estamos em meio a uma recessão, com uma taxa de desemprego menor do que no ano passado, quando não tínhamos recessão", disse.

Pochmann destacou que os efeitos da recessão econômica, que começou em outubro de 2008, só chegaram ao mercado de trabalho em janeiro deste ano. E, ainda assim, a recuperação do emprego começou muito rapidamente, com base no emprego formal. "O que me parece positivo e diferente do que se viu em outros momentos, quando a recuperação acontecia a partir da informalidade", afirmou.

Outro fator positivo, segundo Pochmann, é que o desemprego, desta vez, não atingiu com tanta intensidade os trabalhadores que vivem com renda muito baixa. "O perfil da demissão atingiu segmentos de renda intermediária, principalmente, porque quem mais demitiu foi a indústria, que paga melhor. Como os setores primário e terciário não foram tão atingidos pela crise, o desemprego que nós tivemos teve natureza diferente", afirmou. Isso significa, segundo o presidente do Ipea, que foram os trabalhadores de melhor qualificação que perderam o emprego, justamente os "que têm mais facilidade de voltar ao mercado de trabalho, tão logo a economia comece a se recuperar".

Bolha

 

Ao comentar a recuperação que se vê nas bolsas de valores mundiais e nos preços das commodities, o presidente do Ipea coloca em questão a possibilidade de o mercado estar criando uma nova "bolha". "Vejo com preocupação (esse movimento nos mercados), pois os sinais de recuperação da economia mundial ainda estão muito vinculados aos elementos que fundamentavam a expansão econômica antes da crise", afirmou. "Fico vendo a elevação das bolsas e commodities, mas não consigo compreender que razão há para essa elevação, se não há ganho de lucro, de faturamento. Em que medida essa recuperação não aponta para mais uma bolha?", disse.

O presidente do Ipea afirmou ainda que, assim que a economia mundial ingressar em um período consistente de recuperação, será preciso discutir quem irá arcar com os custos fiscais dos incentivos concedidos pelos governos, com o objetivo de amenizar os efeitos da crise. "Em função da crise, todos os governos aceitaram a socialização do prejuízo: empresas e bancos ganharam dinheiro público, o que trouxe impacto sobre as finanças públicas", afirmou. Agora, diz ele, à medida que bancos e empresas privadas se recuperem, é preciso discutir quem pagará a conta desse esforço. "Vão ser os que tradicionalmente pagam, ou os que foram beneficiados darão uma cota adicional?", questiona.

Ele diz que os benefícios foram importantes para preservar a economia, e citou especificamente a redução do IPI sobre alguns bens de consumo, como automóveis e linha branca. "Mas, uma vez recuperada a economia, talvez não justifique a redução, ou justifique um patamar mais baixo", disse.

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