PIB pode ser negativo no 4º tri, diz José Júlio Senna

Para ex-diretor do BC, 'o vento mudou com uma velocidade espantosa', saindo de PIB de quase 7% para chance de recessão

Luciana Xavier, da Agência Estado,

13 de dezembro de 2008 | 11h44

O crescimento de 6,8% do Produto Interno Bruto no terceiro trimestre de 2008 ante igual trimestre do ano passado dá a dimensão de quão aquecida a economia brasileira estava, afirmou o sócio-diretor da MCM Consultores e ex-diretor do Banco Central José Júlio Senna, em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo. "Esse resultado é uma fonte de complicação para os formuladores de política monetária. Os dados mostram uma economia aquecida, mas o quadro atual foi alterado. O vento mudou com uma velocidade espantosa. Os primeiros sinais da economia no 4º trimestre estão longe de corroborar o que houve no 3º trimestre", avaliou.  Ouça a entrevista   Para Senna, há muito espaço para deterioração da economia daqui para frente. "Teremos desaceleração bastante considerável do PIB em 2009. A produção industrial em novembro deve vir pior que a de outubro e a chance de o crescimento ser negativo no 4º trimestre é alta. Sendo que no 1º trimestre de 2009 não devemos ter mudança substancial de quadro", comentou o ex-diretor do BC. Ou seja, para o economista é possível que haja recessão nos próximos meses. "Uma vez aceito o conceito de que recessão são dois trimestres negativos é possível que isso ocorra. E o curioso é a rapidez com que chegamos a um PIB de quase 7% ao ano e de repente ele pode ficar negativo". Para o ano de 2009, Senna espera que o crescimento do PIB seja de 2% a 2,5% e, dificilmente o país deve crescer com a força dos últimos trimestres nos próximos dois anos. "Definitivamente o 3º trimestre de 2009 pode ser o último de crescimento forte do governo Lula", disse, rebatendo afirmações feitas hoje pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que o terceiro trimestre não será o último de forte expansão deste governo. Cautela Para Senna, é mais prudente o BC esperar alguns meses antes de mexer no juro. "No médio prazo, se tiver que escolher, escolho pela predominância do efeito contracionista e pelo corte de juro", analisou. Entre os argumentos, segundo ele, estaria a alta do dólar e os impactos na inflação. "Mas a subida do dólar é compensada pela forte alta dos preços das commodities. Não quer dizer que o pass-through não vai acontecer, não há essa segurança. Mas o efeito contracionista da crise é muito severo", reforçou Senna. Segundo o ex-diretor do BC, a tendência de desvalorização do real deve ser mantida nos próximos meses. "Vai ser difícil o câmbio voltar aos níveis de antes da crise. Pode haver recuo, mas não um recuo expressivo. Para o real se fortalecer, isso significaria termos uma das moedas mais fortes do planeta, pois todas as moedas estão se desvalorizando. Isso não é provável". Recuperação A crise atual não é exatamente igual as crises anteriores e a recuperação será lenta, acredita Senna. "Toda crise passa. Mas não estamos numa contração cíclica tradicional. Esta é mais séria e será mais prolongada. É possível pensar em recuperação em meados de 2010 para frente, no mínimo. Não dá para imaginar uma recuperação antes disso, até porque essa encrenca não começou ontem", afirmou Senna. Segundo ele, esta crise é marcada pela perda "colossal" de base de capital e destruição de riqueza das famílias. "E essas famílias irão se esforçar para recuperar parte do patrimônio perdido. Talvez queiram guardar dinheiro no lugar de gastar. Há uma descontinuidade que torna mais difícil o resultado das políticas clássicas. Nesse momento, a política monetária fica prejudicada, os efeitos demoram a aparecer". Senna ressaltou que embora os governos e bancos centrais do mundo todo estejam em esforço conjunto para garantir a liquidez do mercado, "os bancos puxaram o freio de mão". "Em uma hora como essa, os bancos trabalham com alavancagem mais baixa, porque já se deram mal à beça. Devemos ter crédito escasso por muito tempo. É como diz um provérbio inglês, que você pode levar o cavalo até a fonte, mas não consegue forçá-lo a beber água. Por isso, creio que a economia mundial terá um período bastante prolongado de estagnação ou recessão e é impossível o Brasil escapar". E acrescentou: "O ano de 2009 será bastante difícil para nossos governantes. O governo tem de se comportar de maneira compatível com os fatos. Não dá para mascarar os fatos e acreditar em onda de otimismo para 2009. Os governantes mundo afora não estão vendo fantasmas. Estão vendo problemas concretos".

Tudo o que sabemos sobre:
Crise FinanceiraCrise nos EUAPIB

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.