Koji Sasahara / AP
Koji Sasahara / AP

Por que os mercados estão tão nervosos

Investidores desconfiam que o governo chinês não será capaz de fazer um ‘pouso suave’ na economia e temem uma crise nos países emergentes

Neil Irwin, THE NEW YORK TIMES

24 de agosto de 2015 | 20h57

Na semana passada, o mercado financeiro estava agitado, mas somente os negociadores de contratos de petróleo, os burocratas chineses e os administradores de fundos de hedge sentiam o problema. Agora, o susto está atingindo a todos.

Uma queda de 8,5% no índice Xangai Composite nesta segunda-feira se espalhou pelas bolsas ao redor do mundo. Houve também uma corrida dos investidores pelos títulos da dívida americana, considerados uma das aplicações mais seguras do mundo.

O que é fascinante neste movimento é que não há nenhuma mudança clara, em relação à semana passada, sobre a trajetória das taxas de juros nos EUA, os lucros de companhias na América do Norte e na Europa ou o crescimento econômico geral, quando o índice Standard & Poor’s, da Bolsa de Nova York, valia 8% mais.

Mas há maneiras de encontrar sentido neste problema global, que começa nas ruas de Xangai, onde investir em ações virou uma espécie de “esporte” da classe média nos últimos anos, passa pelos campos de extração de óleo no Oriente Médio e no interior dos EUA e desembarca nos corredores do poder do Federal Reserve, o banco central americano.

Além da China. O gatilho para a volatilidade global foi a China, onde a queda generalizada das ações reforçou uma rota negativa que já era realidade desde o início do verão do Hemisfério Norte. As poucas pausas nas desvalorizações vinham sendo causadas por intervenções governamentais.

A economia chinesa está desacelerando, e a queda de 38% no principal índice de ações do país desde 12 de junho é um número que não pode ser ignorado. Não há dúvidas de que esse gigante está tendo dificuldades na transição de uma economia alimentada por investimentos e exportações para um modelo mais sustentável.

Mas alguns fatos fazem os problemas chineses parecerem uma explicação menos plausível para a apreensão global. Nos últimos anos, o mercado de ações chinês se valorizou consideravelmente graças à chegada da classe média às bolsas. Apesar da queda recente, o índice Xangai Composite perdeu menos de 1% no acumulado de 2015 e apresenta ganhos de 43% nos últimos 12 meses.

Talvez haja uma explicação mais complexa para o forte impacto da queda da bolsa chinesa reverberar bem mais fortemente na economia global do que os ganhos expressivos que o índice vinha apresentando até recentemente. O fato de o governo chinês ter dado passos importantes para tentar conter a venda de ações, com muito pouco sucesso, pode ser um indicativo de que o Estado chinês possa ter poderes limitados.

Em outras palavras, a venda de ações chinesas pode não ser muito significativa isoladamente. Mas mostra muito sobre a incapacidade do país em garantir um “pouso tranquilo” para sua economia. E talvez isso possa ser mais assustador.

Uma evidência de que o problema vai além da China é a análise de outros mercados emergentes, da Malásia ao México, cujos mercados também estão levando uma “surra”. Suas moedas, ações e títulos de dívida tiveram fortes quedas na última semana.

Alguns desses fatos talvez reflitam exposição à economia chinesa. Mas também pode significar algo maior. Pode ser a reedição do pânico que tomou conta dos mercados em junho de 2013, quando o Fed deixou claro que seu programa de incentivo à economia seria aos poucos desativado - em outras palavras, o BC americano anunciou que deixaria de injetar dinheiro no sistema financeiro.

A decisão do Fed teve o efeito de fazer os investidores globais buscarem papéis que pagavam juros mais altos, algo que encontraram em muitos mercados emergentes. O dinheiro foi direcionado para esses países de 2010 a 2013.

Mas o fim da era do dólar barato parece estar perto do fim. Agora, a ordem é tirar esse dinheiro de mercados mais arriscados - e isso colaborou para fortes aumentos de taxas de juros em países emergentes.

Petróleo em baixa. Os problemas nos mercados financeiros tiveram um efeito particularmente ruim para o preço das commodities, incluindo a principal delas, o petróleo.

O preço do barril de petróleo caiu de US$ 60, no fim de junho, para menos de US$ 40. Ao longo do tempo, isso será uma boa notícia para os consumidores de energia na Europa e nos EUA. Porém, há razões complexas que podem fazer a venda de contratos de commodities ser tanto a causa quanto o resultado do pânico atual entre os mercados emergentes. 

Quando os preços do petróleo começaram a cair, no segundo semestre de 2014, havia previsões generalizadas de que a queda causaria uma redução da produção ao redor do mundo, ajudando o mercado a recuperar o equilíbrio. Mas o contrário ocorreu: produtores americanos mantiveram a produção, elevando o abastecimento apesar dos preços baixos.

Aqui está a armadilha: a desaceleração na China e em outros mercados vai reduzir a demanda. Oferta em alta e demanda fraca acabam por reduzir os preços - o que reforça a expectativa de redução da atividade econômica em países produtores de energia no Oriente Médio e na América Latina, isso sem falar da Rússia.

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