Private Equity ganha espaço com mercado fraco para IPOs

Foram realizadas 11 transações com fundos de private equity no primeiro trimestre deste ano, ante oito operações realizadas no mesmo período de 2009

Natalia Gómez, da Agência Estado,

28 de abril de 2010 | 08h57

O fraco desempenho das ofertas iniciais de ações (IPO, na sigla em inglês) neste ano abriu um espaço maior para transações envolvendo fundos de private equity, especializados em comprar participações em empresas e lucrar com a venda após alguns anos de investimento. Esta tendência já começou a favorecer negociações entre os fundos e algumas companhias que, no momento, estão "barradas no baile" das ofertas de ações, de acordo com executivos do setor ouvidos pela Agência Estado.

 

Apesar de o mercado acionário ter se recuperado após a crise mundial, os IPOs hoje são uma opção restrita para poucas empresas em razão da maior cautela do investidor estrangeiro. Neste ano, apenas duas das sete companhias que abriram capital - Ecorodovias e Mills - conseguiram fechar a oferta dentro do preço estimado pelos bancos coordenadores, enquanto as demais vieram abaixo do esperado.

 

O movimento atual é o oposto do que ocorreu em 2007, quando uma grande variedade de empresas conseguiu acessar o mercado a preços elevados. Naquela época, algumas empresas chegaram a desistir de vender participações para fundos de private equity para abrir o capital a um preço mais elevado. Um exemplo é a Profarma, que estava sendo assessorada pela butique Singular Partners na busca por recursos de private equity no final de 2006, mas acabou optando por ir diretamente para um IPO, se beneficiando de melhores retornos.

 

Segundo executivos do mercado de private equity, o que se vê atualmente é uma volta à "normalidade" neste setor. "A situação em 2007 e 2008 era anormal. Empresas muito pequenas acessavam o mercado a preços muito altos", afirma o sócio e um dos fundadores do Pátria Investimentos, Alexandre Saigh.

 

Na avaliação do especialista, a tendência é de que os fundos private equity voltem a cumprir seu papel original, que é o de preparar companhias de pequeno e médio porte para ir a mercado, melhorando a governança corporativa e os controles financeiros. Segundo Saigh, os IPOs ficarão para operações de maior musculatura porque as pequenas empresas não oferecem liquidez ao investidor. "O mercado aprendeu esta lição durante a crise."

 

Com a redução do preço pago pelos IPOs, a disposição dos empresários para negociar com fundos de private equity tem aumentado, segundo o vice-presidente da butique de investimentos Singular Partners, Michael Montgomery, que atua tanto em consultoria para IPOs quanto na aproximação entre fundos de private equity e empresas. "O preço pago pelo private equity nunca foi exorbitante, mas agora os empresários estão menos reticentes em relação a esta alternativa."

 

Segundo o chefe das operações da Advent no Brasil, Patrice Etlin, os controladores das empresas estão mais dispostos a negociar com os fundos, mas tendem a optar por uma venda de participação menor do que fariam em uma abertura de capital. "Com uma transação menor, o controlador se dilui menos do que em um IPO e se une a um fundo de private equity que o ajudará a abrir capital no futuro", diz. Etlin afirmou que 2010 deve ser um ano de muita atividade para o setor de private equity, que está capitalizado. Recentemente, a Advent concluiu uma captação de US$ 1,65 bilhão para um fundo de participações voltado exclusivamente à América Latina. Desse total, mais de 50% devem ser investidos no Brasil.

 

Assim como o valor pago pelos investidores em IPOs caiu neste ano, os preços oferecidos pelos fundos de private equity também recuaram. De acordo com Saigh, sócio do Pátria, os fundos de private equity "se entusiasmaram" durante o auge do mercado, pagando preços muito altos pelas companhias em 2007 e 2008. Atualmente, prevalece um maior "bom senso", avalia.

 

Volume de negócios

 

O volume de transações envolvendo fundos de private equity no Brasil em 2010 deve ser maior do que as 44 operações registradas no ano passado, graças ao cenário no mercado de capitais e ao crescimento econômico, de acordo com o sócio de Corporate Finance da KPMG no Brasil, Luís Motta. Em 2008, foram realizados 20 negócios na área.

 

Segundo levantamento feito pela KPMG com exclusividade para a Agência Estado, foram realizadas 11 transações envolvendo fundos de private equity no primeiro trimestre deste ano, ante oito operações realizadas no primeiro trimestre de 2009.

 

Apesar do aumento no volume de transações, Motta destacou que a participação dos fundos de private equity no total de operações de fusões e aquisições em 2010 será menor do que em 2009 porque no ano passado os demais tipos de transações caíram devido à crise. Em 2009, este tipo de fundo representou 9,7% das fusões e aquisições envolvendo empresas brasileiras. No primeiro trimestre deste ano, a participação caiu para 6,9%.

 

Segundo o sócio da Stratus, Álvaro Gonçalves, o avanço do setor neste ano será garantido pelo alto grau de capitalização dos fundos, em especial os que captam no exterior. "Os estrangeiros iniciaram seus estudos para investir no Brasil em 2007 e agora os investimentos estão se refletindo no setor de private equity", afirmou. Segundo Gonçalves, o segmento é tradicionalmente mais lento do que os demais devido ao seu foco no longo prazo. A Stratus pretende fazer neste ano duas compras de participação com aporte de US$ 30 milhões a US$ 50 milhões cada.

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