Problema com upgrade será gerenciar real

Para Luis Costa, do Commerzbank, com o grau de investimento o dólar poderá cair para R$ 1,50 este ano

Daniela Milanese e Luciana Xavier,

06 de maio de 2008 | 17h50

O estrategista de mercados emergentes do Commerzbank, Luis Costa, afirmou que o fluxo de recursos para o Brasil vai crescer a partir da obtenção do grau de investimento pela S&P. O "problema", avalia, "será o gerenciamento do real, que tende a se apreciar mais." - Ouça a entrevista com Luis Costa  Ele acredita que o dólar poderá chegar a R$ 1,60 nos próximos meses, encerrando o ano em R$ 1,50 - considerando como base um cenário de recuperação do mercado internacional. "Esse é um tema que o Banco Central terá de olhar", disse Costa, em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo, de Londres. Segundo Costa, uma opção interessante seria a retomada da recompra dos títulos da dívida externa. Em 2006, o governo recomprou cerca de US$ 6 bilhões em papéis do endividamento externo. Ele lembrou que a acumulação de reservas internacionais traz a desvantagem do custo de esterilização da compra de dólares. "A recompra de títulos da dívida externa surge como possibilidade interessante de uso eficiente das reservas", acredita. "O governo poderia promover mais uma rodada." Conforme o especialista, o Brasil responde pela aceleração mais elevada do processo de acumulação de reservas entre os mercados emergentes, superando inclusive a China e a Índia. Dólar Costa acredita que uma restrição à entrada de capital externo, com o objetivo de conter a valorização do real, seria algo "extremamente agressivo". Além disso, ele avalia que uma taxação, como a elevação da alíquota do IOF para a renda fixa, não mudaria a dinâmica dos fluxos internacionais. "O diferencial de juros (do Brasil em relação ao exterior) é bastante interessante, só não está tão alto quanto o da Turquia", afirmou. O estrategista lembrou que o governo adotou nos últimos anos uma postura mais amigável em relação ao investidor estrangeiro, de forma a desembaraçar o processo de entrada de recursos. Costa elogiou a atuação do Banco Central e avalia que a instituição tem poder para evitar a adoção de medidas de choque no câmbio. "O BC tem sido muito consistente e a comunidade internacional aplaude (o presidente Henrique) Meirelles." A elevada dívida interna brasileira pode ser um impedimento para a obtenção do grau de investimento das outras agências de rating, avalia o estrategista. "Isso se a Moody´s e a Fitch forem consistentes com o discurso", afirmou, em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo, de Londres. "A questão da dívida interna é séria." Logo após o upgrade do Brasil pela S&P, o vice-presidente da Moody´s, Mauro Leos, afirmou que a questão fiscal é o principal limitador para a obtenção do investment grade brasileiro. Para o estrategista do Commerzbank, a melhora do endividamento interno recai sobre uma "palavra mágica": reforma. "Infelizmente, o governo Lula não tem feito nada nesse sentido", disse. "Essa palavra não tem sido pronunciada."  Costa acredita que será "muito difícil" aprovar a reforma tributária até o final do ano. "Mas, cedo ou tarde, o investidor estrangeiro vai pedir reformas." Risco-País Costa afirmou que o risco Brasil está acima da mínima histórica, mesmo depois da obtenção do grau de investimento pela S&P, devido à crise externa. "Ainda estamos em processo de recuperação e, apesar da melhora substancial das últimas semanas, existe muita aversão ao risco."  Ele lembrou que os bancos internacionais estão tendo de promover pesados aportes de capital, enquanto os bancos centrais atuam fortemente para aliviar o mercado de crédito. Para o especialista, o atual nível do risco Brasil, que fechou a 197 pontos-base na segunda-feira, acima da mínima histórica de 149 pontos-base, não tem relação com as questões internas do País. "Os fundamentos do Brasil nunca estiveram tão bons", afirmou. Fluxo O estrategista de mercados emergentes do Commerzbank acredita que o fluxo de recursos internacionais a ser recebido pelo Brasil a partir do grau de investimento irá principalmente para os títulos da dívida soberana e para os bonds de empresas de grande porte, como Vale e Petrobras. Segundo ele, é difícil estimar o montante de capital que o País pode atrair com o investment grade. Mas o estrategista afirmou que hoje há quase US$ 200 bilhões em poder de fundos destinados a países emergentes que já possuem o grau de investimento, como Rússia e Coréia. "O Brasil colocou um pezinho para acessar esses fluxos com o upgrade da S&P. É uma mudança estrutural." Segundo ele, a presença do investidor estrangeiro no mercado de dívida doméstica subiu cerca de 5% nos últimos dois ou três anos, para algo em torno de US$ 20 bilhões. "Isso poderia dobrar em um par de anos."

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