Produtos feitos para exportação estão ficando no País

Produtos que naturalmente seguiriam para o mercado externo estão sendo vendidos no País, com diferencial de qualidade e preços mais baratos. Com as dificuldades criadas pelo câmbio fraco, indústrias de setores como o calçadista descarregam no mercado doméstico produtos ?tipo exportação?. Para economistas, o movimento é bom para o consumidor, porque aumenta a oferta interna de produtos e pressiona os preços para baixo. Mas incomoda fornecedores que vinham fazendo negócios basicamente no mercado interno.O administrador de empresas Welimar Pereira, de 30 anos, foi a uma sapataria no centro do Rio escolher calçados. Mesmo em uma loja basicamente popular, deparou-se com um par de sapatos que chamou a atenção, segundo ele, porque estava ?muito bem acabado?, com as inscrições ?vero cuoio? (couro legítimo, em italiano) e ?fatto a mano? (feito a mão) cravada no solado e por R$ 80,00. Ele mesmo desconfiou que o produto era voltado ao mercado externo, achou barato e animou-se a experimentar.?A população interna acaba ganhando com isso. Vai pagar por um produto de qualidade muito bom, com um preço acessível. Não se vê um sapato desse no Brasil?, chegou a dizer Pereira, enquanto analisava outros modelos na loja. Do outro lado do balcão, o supervisor Leonardo Bianchini, da Fox Calçados, confirmava que aumentou a oferta de representantes comerciais com sapatos que seriam exportados, oferecendo prazos maiores para o pagamento da mercadoria.O supervisor, que preferiu não dizer o nome dos fornecedores, contou que em alguns casos os calçados custariam acima de ? 100 (mais de R$ 280) no exterior e foram negociados a um preço mais baixo.Uma olhada no mostruário permite ver alguns exemplos. Um deles é a Villione, indústria instalada em Franca (SP). ?Na verdade, a gente está tentando nadar contra a corrente?, disse o diretor da indústria, Adilson de Freitas Pimenta. Com o dólar alto, o setor perdeu competitividade externa e busca novos caminhos de venda.Pimenta conta que houve até cancelamento de pedidos. Com a matéria-prima já comprada, a saída foi ?queimar (o estoque) para fazer dinheiro?. O esforço da indústria tem sido trabalhar com margens reduzidas, buscar insumos de custo mais baixo e enxugar despesas. Na prática, a Villione já atuava fortemente no mercado interno e foi afetada pelo câmbio fraco quando começava a apostar nas exportações.OfertaEm outros setores, o aumento de oferta, decorrente de problemas na exportação, também favoreceu os consumidores internos. Há três meses, o Pão de Açúcar vendeu 6 milhões de quilos de frango Sadia ?tipo exportação?, a R$ 0,99. O problema, nesse caso, não foi o câmbio. A exportação de um navio com o produto foi suspensa, porque alguns mercados fecharam as importações de frango por conta da gripe aviária, que reduziu a demanda mundial. Em alguns países na Europa, houve queda de 70% no consumo.Na sexta-feira, o Pão de Açúcar voltou a vender frango, a R$ 0,99 o quilo, em uma ação promocional em São Paulo, com a marca Pena Branca. Segundo a rede, ?a redução das exportações contribuiu para uma maior oferta do produto no mercado interno e ajudou nas negociações?. De forma geral, o excesso da oferta de aves e suínos acabou gerando uma redução do preço médio dos produtos no mercado local. No caso dos suínos, houve embargo da Rússia por causa da aftosa.Com relação ao câmbio, o setor calçadista tem sido um dos mais prejudicados com a valorização do real. Para o economista da Fundação Centro de Estudos em Comércio Exterior (Funcex), Fernando Ribeiro, não há demanda interna suficiente para absorver os excedentes do setor industrial. ?Deve haver algum redirecionamento (das exportações), que pode gerar alguma queda de preços, mas, no geral, o que acontece é queda de produção mesmo?, explico Ribeiro.No setor calçadista, já há reações ao movimento. O presidente do Sindicato das Indústrias de Calçados de Jaú (Sindicalçados), Caetano Bianco Neto, explica que algumas indústrias estão adaptando produtos para venda no mercado interno e ?quando entram com preços e prazos aviltados acaba gerando uma concorrência que é nefasta para nós?. Segundo o sindicalista, as vendas internas já não estão muito fortes e a oferta adicional reduz os preços.Em meio à disputa mais forte pelo mercado, os consumidores saem ganhando com o preços mais baixos. ?Acaba sendo bom para a inflação. O excesso de oferta joga o preço para baixo. Para o Banco Central, esse efeito é ótimo?, afirma o especialista em inflação do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFMS), Carlos Thadeu de Freitas Filho. Segundo ele, o real valorizado já favorece a entrada de produtos importados a preços mais baixos e o redirecionamento de produção agora acaba funcionando como outro efeito do câmbio.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.