Próximo risco para EUA é crise de cartão de crédito

"Eu queria poder dizer que o pior já passou, mas é difícil afirmar isso", diz Dana Saporta, do Dresdner em NY

Luciana Xavier e Nathália Ferreira,

20 de agosto de 2008 | 17h06

A próxima crise nos Estados Unidos deve ser a do cartão de crédito e os riscos deste novo "credit crunch" estão bem evidentes, afirmou a economista do Dresdner em Nova York, Dana Saporta, em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo. Dana disse que, com o crescimento da inadimplência e crédito mais apertado, a ameaça é de uma crise não somente nos cartões de crédito, mas com os financiamentos de automóveis e empréstimos em geral aos consumidores."Eu queria poder dizer que o pior já passou, mas está difícil afirmar isso."  Ouça a entrevista Dana observou que o os gastos do consumidor norte-americano estão desacelerando e que o PIB dos EUA só não mostrou ainda trimestres negativos por causa do impulso dado pelo governo com a devolução de impostos e, principalmente, do bom desempenho das exportações. "As exportações têm dado alguma força à economia e são a principal razão de o país não estar (tecnicamente) em recessão. Mas a impressão que se tem é de que os EUA estão em recessão desde o final do ano passado. Para o consumidor, a sensação é de recessão e os riscos são de que ela seja mais profunda e prolongada do que se imagina", disse. Tecnicamente, um país está em recessão quando há dois trimestres consecutivos de queda no PIB. Mas Dana avalia que muitos outros sinais como consumo e emprego podem dar essa sinalização ainda que o PIB esteja positivo. A economista acredita que o PIB do terceiro trimestre no país deve ser fraco e pode ficar negativo nos últimos três meses do ano, mesmo sendo um período tradicionalmente de compras por causa do Natal. Para 2008, a economista estima que o PIB ficará em 0,9% e pode subir para 1,7% no ano que vem com algum alívio vindo dos preços de energia. "Mas ainda assim é um crescimento muito abaixo do ideal para a economia dos EUA, algo como 2,5% e 3%", comentou. Esse crescimento mais forte, segundo ela, poderia ocorrer somente a partir de 2010.  Inflação A inflação cheia nos Estados Unidos pode já ter atingido o pico deste ano, afirmou Dana. "A inflação de julho foi uma má notícia. Mas creio que poderemos ver queda na inflação cheia, embora o núcleo do CPI ainda possa subir mais com repasse de preços", disse. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) subiu 0,8% em julho, após subir 1,1% em junho. O núcleo do índice, que exclui alimentos e energia, subiu 0,3% pelo segundo mês consecutivo. Os economistas esperavam alta de 0,4% para o índice cheio e de 0,2% para o núcleo. No acumulado ano a ano, os preços ao consumidor subiram 5,6%, a mais alta taxa desde janeiro de 1991.  Para a economista do Dresdner, o CPI poderá fechar 2008 com alta de 5% e pode desacelerar para 2% em 2009. O núcleo, por sua vez, poderá subir 2,5% este ano e 2,2% em 2009, ficando um pouco mais próximo da não-oficial zona de conforto do Federal Reserve (Fed), de 1,5% a 2%.  Dana disse que diante dos números altos de inflação, deterioração das expectativas, riscos de crescimento da economia e turbulência no mercado financeiro, o Fed deve manter o juro em 2% pelo menos até meados de 2009. "O Fed está de mãos atadas diante de tantos problemas". O próximo passo, no entanto, deve ser de aperto monetário na segunda metade do ano ou até mesmo antes disso, em maio ou junho.  Dana disse que o problema da inflação também está na Europa, mas que o Banco Central Europeu (BCE) poderá não subir os juros, por enquanto, por causa da fraqueza das economias na região. A economista reconhece o risco de  os EUA começarem a se recuperar e a situação piorar na Europa, o que poderia ter impacto negativo na balança norte-americana.  "A Europa está um pouco atrás no ciclo (de desaceleração) e há riscos de recessão no Reino Unido, Espanha, Itália. Mas mesmo que a demanda da européia diminuía, há expectativa de que a economia doméstica comece a reagir", avaliou.  Segundo Dana, a China também "está sofrendo um pouco" com a desaceleração nos EUA, mas acredita que os emergentes de um modo geral devam continuar nadando em uma maré melhor que a dos desenvolvidos no próximo ano, embora com menos vigor.  Socorro O receio de que o governo dos Estados Unidos tenha que dar socorro financeiro às gigantes agências hipotecárias Fannie Mae e Freddie Mac está cada vez maior e pode ser a única solução no momento, disse a economista do Dresdner em Nova York. "O custo para essas agências tomarem recursos emprestados no mercado está cada vez mais caro. O Tesouro norte-americano pode comprar ações, emprestar dinheiro ou fazer ambos. Não é uma boa idéia, mas é a única saída. O governo precisa fazer algo", disse. Para os acionistas, no entanto, Dana disse que a melhor alternativa ainda seria o governo emprestar dinheiro às agências. No mercado, há temores sobre a habilidade das duas agências em pagar os bônus que vencem no final do trimestre e até mesmo de uma nacionalização das duas, que detêm ou garantem cerca de metade de toda a dívida hipotecária pendente dos EUA. Dana comentou ainda que já está mais do que na hora de essas agências fornecerem informações mais claras sobre a real situação em que estão. No início do mês, a Freddie Mac informou que iria oferecer muito mais informação sobre sua posição de crédito para deixar os investidores mais seguros de que a empresas se protegeu adequadamente contra futuras perdas. "É uma vergonha que não tenham pensado em fazer isso há muito tempo. De qualquer modo, o que teremos não serão boas notícias", disse. A economista salientou que nos próximos dias e semanas, o foco do mercado estará um pouco menos nos indicadores e mais no mercado financeiro. "A preocupação com Fannie Mae e Freddie Mac deve continuar e a atenção estará também nos ganhos dos bancos e na inflação, para saber se o Fed será capaz de manter sua política monetária na espera", comentou.

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