Recuperação dos EUA não é sustentável, diz Chancellor

Para escritor britânico, economia do país corre o risco de mergulhar pela segunda vez em uma recessão

Luciana Xavier, da Agência Estado,

05 de junho de 2009 | 17h45

Apesar de sinais cada vez mais fortes de recuperação nos Estados Unidos, a economia daquele país corre o risco de mergulhar pela segunda vez em uma recessão, acredita o historiador britânico Edward Chancellor, autor do livro "Salve-se quem puder - Uma história da especulação financeira", no qual trata da história das crises desde o século 17 até o final da década de 90. "Não acredito que os pilares dessa recuperação sejam sustentáveis", afirmou Chancellor, por telefone, de sua casa em Boston ao AE Broadcast Ao Vivo.

 

Chancellor acredita que o Federal Reserve (Fed) está "entre a cruz e a espada" e prevê tempos de vulnerabilidade de preços, com períodos de deflação e inflação. "Mas Bernanke merece isso", criticou. O escritor tampouco está otimista em relação à China. Segundo ele, o país parece próspero, mas pode não estar no caminho correto de crescimento. Chancellor também alertou para o risco de surgir uma bolha nos mercados emergentes, uma vez que as bolhas costumam aparecer após períodos em que o custo do dinheiro está muito baixo.

 

Veja a seguir trechos da entrevista:

 

Agência Estado - O cenário da crise está mais claro agora?

 

Edward Chancellor - Sim. Há alguns meses as economias estavam num círculo vicioso em que más notícias e falta de confiança criavam mais más noticias e maior falta de confiança. Mas, historicamente, todo pânico tem um fim e os governos estão fazendo de tudo para que isso ocorra. Por isso, o fim da fase de pânico, não foi surpreendente, assim como a retomada nos mercados de ações.

 

AE - Podemos ter nova rodada negativa?

 

Chancellor - O momento parece mais levar para maior otimismo nos mercados de ações, maior acesso a capital e crédito, com bancos conseguindo emprestar novamente. Ou seja, há forças positivas em curso. Tendo dito isso, há fatores negativos e não passo muito tempo analisando movimento de curto prazo. No longo prazo, não acredito que os pilares dessa recuperação sejam sustentáveis.

 

AE - O que isso significa?

 

Chancellor - Quero dizer que se voltarmos para 2001, 2002, houve a bolha da tecnologia e o grande estouro dessa bolha. As autoridades se moveram, aumentaram os gastos e os empréstimos e cortaram os juros. Quando isso ocorreu, apareceu a bolha no mercado imobiliário. (..) Houve uma falsa recuperação. Agora com o estouro da bolha imobiliária, o governo veio para atuar de modo mais grandioso. O governo está aumentando enormemente seus gastos. Ao mesmo tempo, a política monetária tem sido bem agressiva. Há uma série de medidas que o Fed vem tomando para garantir a liquidez na economia. Na minha visão, trata-se de uma bolha de crédito do governo, que está substituindo a das hipotecas. Nós realmente não passamos para uma situação em que você pode dizer: Sim, nós demos uma virada no ciclo de econômico de longo prazo, que pode durar 10 anos e nossos problemas ficaram para trás. Ao contrário, nossos problemas estão potencialmente ficando maiores.

 

AE - Como o senhor vê a situação dos bancos?

 

Chancellor - Se o mercado imobiliário se estabilizar, os bancos devem se estabilizar. Os bancos devem conseguir levantar dinheiro no mercado. Haverá mais perdas, que normalmente decorrem de uma piora da economia, mas o governo está fazendo tudo o que pode para evitar uma piora e deve ser mais severo daqui para frente. Há muitas chances que os bancos se curem dos seus problemas.

 

AE - O dólar tem se enfraquecido ante outras moedas. Esse movimento tende a continuar?

 

Chancellor - O dólar estava forte quando todo mundo estava com medo. Agora que todo mundo está com menos medo, ninguém quer o dólar, todo mundo quer o real brasileiro e outras moedas. Também suponho que a valorização da moeda depende de quanto o mercado antecipa o tempo em que os juros seguirão em baixos. Porém, talvez, o mais importante seria a preocupação de que a resposta do governo à crise crie uma ameaça de inflação em algum momento. A fraqueza da moeda sempre precede a inflação. Pode ser cedo para dizer que a fraqueza moeda seja sinal de inflação incipiente. Mas, se as autoridades mantiverem os juros afrouxados por muito tempo, haverá inflação e o dólar continuará fraco. Há bons motivos para se evitar o dólar neste momento. A moeda não está mais se beneficiando do status de porto seguro. Talvez haja a percepção de que o Fed não está se importando com a inflação.

 

AE - Quanto tempo o Federal Reserve (Fed) conseguirá manter os juros perto de zero?

 

Chancellor - Como disse, não creio que haja uma recuperação sustentável da economia e o Fed terá que subir os juros em algum momento, senão a economia entrará em choque. É como um paciente doente, que fica muito vulnerável a qualquer tentativa de normalizar as condições fiscais e monetárias.

 

AE - Se não é sustentável, temos uma recessão em forma de W então (recessão, com recuperação e seguida de nova recessão)?

 

Chancellor - Sim, podemos chamar de recessão em forma de W ou duas vezes a forma de V, como quiser. Meu medo é que venhamos a ter tempos de aumento de instabilidade de preços onde a deflação será substituída pela inflação e depois deflação de novo, conforme as autoridades respondem a isso.

 

AE- Então, o senhor não gostaria de estar na posição do presidente do Fed neste momento, não?

 

Chancellor - Não. Ben Bernanke está entre a cruz e a espada. Mas ele merece isso. Se alguém merece estar numa situação complicada e desagradável esse alguém é o Bernanke. Foi o Bernanke que disse em 1999 que os bancos centrais podiam identificar as bolhas de preços de ativos e que ainda assim seria menos custoso lidar com uma bolha já formada do que evitar que ela ficasse muito grande. Foi uma leitura muito equivocada. (...) Bernanke falhou ao entender a seriedade desta crise. É um emprego que não daria nem ao meu pior inimigo. Intelectualmente, não consigo pensar em ninguém melhor para estar neste aperto do que o próprio Bernanke.

 

AE - O senhor vê sinais de recuperação mais sustentável na China e outros países?

 

Chancellor - Visitei a China em abril e o país parece, na superfície, muito próspero. Há maravilhosas construções em Pequim e Xangai, mas provavelmente muitos desses imóveis estão vazios. Essas cidades têm um enorme excesso de oferta imobiliária e deve haver muito mais a caminho. Estranhamente, os bancos ainda não tiveram problemas com hipotecas imobiliárias comerciais. (...) Em bases anuais, há uma injeção de crédito no país equivalente a seu PIB. Esse tipo de injeção é suficiente para acordar um morto! (risos) Isso é tremendo, mas não necessariamente algo bom, pois apesar de poder reavivar a economia, não significa que traga uma retomada correta da atividade. Não necessariamente traz crescimento sustentável. Há gastos em infraestrutura, na construção de pontes, aeroportos e rodovias em áreas onde não necessariamente há demanda disso. E como se construíssem pontes onde não há quem vá atravessá-la. É melhor construir pontes do que não fazer nada, mas me parece que o sistema bancário chinês poderá ter muitos problemas no futuro.

 

AE - O senhor não enxerga então uma retomada global tão cedo?

 

Chancellor - O que vejo no futuro próximo é essa dinâmica continuando por algum tempo. Isso significa que as coisas podem ficar bem por um ano ou dois. Se isso ocorrer, a demanda chinesa por commodities continuaria forte. Por causa dos juros baixos no mundo todo, os emergentes poderão se beneficiar. (...) É possível imaginar uma bolha nos mercados acionários e economias dos emergentes surgindo a partir de agora.

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