Risco de inflação no Brasil é maior que fiscal em 2010

Economista José Márcio Camargo, da PUC-RJ, 'resiste em dizer que crise é assunto do passado'

Luciana Xavier, da Agência Estado,

25 de setembro de 2009 | 16h09

O risco de inflação em 2010 é maior do que o risco fiscal, acredita o economista José Márcio Camargo, professor da PUC-RJ e economista da Opus Gestão de Recursos, que se considera um otimista "moderado". "Ainda tenho enorme resistência em dizer que crise é um assunto do passado", disse, em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo. Sua resistência, no entanto, conforme observou, se refere mais às incertezas no cenário externo, especialmente Estados Unidos, do que propriamente o Brasil.

 

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Camargo disse que há sinais na economia que sugerem que o Brasil poderá crescer a taxas relativamente altas até o final deste ano e atingir 4,5% a 5% no final de 2010, mas esse pacote de prosperidade, de acordo a avaliação do economista, deve trazer também pressões inflacionárias. Afinal, conforme ele mesmo ressaltou, o crescimento estará calcado mais no mercado doméstico do que no internacional, que de um modo geral, especialmente nos desenvolvidos, deve crescer a taxas mais módicas do que o Brasil.

 

No curto prazo, Camargo acredita que a inflação pode ter queda, por causa da inércia no setor de serviços. Mas é justamente do setor de serviços que deve vir a pressão dos preços daqui a uns meses, diz ele.

 

"O excesso de demanda do setor de serviços deve começar a pressionar a inflação no primeiro semestre do ano que vem. Isso vai incomodar o Banco Central. O BC vai ficar desconfortável quando os preços de serviços e "não-comercializáveis" começarem a dar sinais de aumento. Mas não vou dizer que o BC vai agir imediatamente", afirmou. Para Camargo, a autoridade monetária vai tentar monitorar as expectativas de mercado por meio de declarações e sua primeira ação pode ser via encolhimento do crédito, e não por aumento de juros.

 

Camargo ressaltou que a resistência do mercado de trabalho com a crise, ao contrário de outros países, foi e deve continuar a ser um importante pilar de sustentação da economia daqui para frente. "Ao contrário do que está acontecendo nas economias desenvolvidas, o mercado de trabalho, ainda que tenha mostrado fraqueza, não mostrou o recuo que se esperava. O processo de geração de empregos estagnou, mas não caiu. (...) O que fez com que os salários fossem também relativamente pouco afetados. Em conjunto, isso significa que a demanda das famílias deve seguir crescendo a taxas elevadas. Portanto, acho que existe sim uma probabilidade grande de que a economia volte a uma trajetória de crescimento já agora e ao longo do próximo ano", disse.

 

Câmbio

 

A trajetória do dólar ante o real deve continuar sendo de queda e nada impede que volte ele volte aos menores patamares pré-crise, afirmou o economista. Para ele, a moeda americana pode fechar o ano em R$ 1,70 ou menos e seguir nessa direção.

 

"Acho que a pressão é por valorização da taxa de câmbio. Não podemos esquecer que antes da crise o dólar chegou a bater R$ 1,57. Se você me perguntar, vai chegar lá outra vez? É difícil saber. Mas se já chegou, numa situação específica, num momento em que o Brasil estava crescendo menos que a maior parte dos emergentes, hoje, com o Brasil crescendo mais que a maior parte dos emergentes, não tem nenhuma razão para saber que é impossível chegar lá, a menos que tenha uma reversão grande lá fora", avaliou Camargo.

 

Segundo ele, há uma enorme liquidez no mercado internacional e poucas oportunidades de investimentos, o que torna o Brasil um dos destinos mais prováveis dos investidores, "o que tende a valorizar o real ante o dólar". Esse movimento de entrada de recursos externos, diz Camargo, vem sendo antecipado pelo mercado doméstico.

 

"O mercado tende a antecipar. Quando percebe que vai ter entrada, as pessoas começam a vender dólar sabendo que ele vai cair. (...) O ponto fundamental é que o que vemos para frente é mais entrada de recursos e não menos", analisou.

 

Camargo disse não duvidar que, se houver pressão inflacionária e for necessário subir os juros, o BC não hesitará em fazê-lo, independentemente de ser ano eleitoral. "Eu acredito que qualquer que seja (o presidente), o Banco Central vai aumentar juros se achar que é necessário aumentar juros".

 

O economista disse que o Banco Central conquistou credibilidade que vai além da figura do presidente Henrique Meirelles e, portanto, uma eventual saída do cargo não representaria mudança significativa na condução da política monetária.

 

"Isso não significa que eu não ache que não vai ter ruído no mercado se por acaso o presidente Meirelles resolver sair para se candidatar a alguma coisa. Acho que o mercado vai ficar preocupado, pois muita gente tem avaliação de que o BC pode ser mais leniente com a inflação. Mas acho que, pelo menos nesse governo, é pouco provável que o Banco Central saia dessa trajetória".

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