Rússia prevê queda de 4% no PIB em 2015

A Rússia vai mesmo mergulhar em recessão econômica em 2015. Ontem, o ministro das Finanças, Anton Siluanov, admitiu pela primeira vez que a atividade do país deverá enfrentar crescimento negativo da ordem de 4% no próximo ano, e que o déficit público deve chegar a 3% do Produto Interno Bruto (PIB). A conjuntura adversa será efeito direto das sanções internacionais em função da crise política na Ucrânia e da baixa do preço do barril de petróleo, agora somadas à turbulência monetária do rublo e da inflação.

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE, Estadão Conteúdo

27 Dezembro 2014 | 08h01

As previsões foram as primeiras atualizações apresentadas pelo Ministério das Finanças após o início da nova fase de instabilidade, no início de novembro. Até aqui, o Banco Central russo previa uma recessão da ordem de 4,5% em 2015 caso o preço do barril de Bent, uma das referências do mercado, se estabilizasse em torno de US$ 60, ante US$ 115 no início de 2014. Mas até aqui o governo de Vladimir Putin seguia prevendo um crescimento em baixa de 0,8% para o próximo ano, ante 0,6% positivo neste.

Ontem, Siluanov não só admitiu a recessão - o que Putin já havia feito há 10 dias -, mas também apresentou suas estimativas. Segundo ele, com o barril de petróleo a US$ 60 e com o dólar a 51 rublos, o cenário é de forte desaceleração. "Nós estimamos uma baixa de 4% do PIB e um déficit de um pouco mais de 3%", confirmou. O ministro aproveitou a oportunidade para confirmar que cortará o orçamento federal em 10%, mas advertiu que pode ser necessário cortar mais. "Nós já temos propostas quanto às novas medidas que deverão ser tomadas."

Uma das alternativas, segundo o ministro, seria a redução das despesas militares. Em 2014, o orçamento militar subiu de 16% a 22% dos custos e investimentos federais, coincidindo com o conflito na Ucrânia. "Creio que seja indispensável repartir essas despesas em favor das infraestruturas, da educação, etc", disse Siluanov.

Na véspera, o ministro havia demonstrado otimismo frente à instabilidade ao afirmar que a turbulência da divisa nacional "acabou". "A taxa de juros de referência foi elevada a fim de estabilizar a situação nos mercados de câmbio, mas este período está, daqui para a frente, terminado a nosso ver, e o rublo se reforça", disse ao Parlamento.

Depois de perder 17% de seu valor em apenas dois dias, em 15 e 16 de dezembro, chegando a 60% de seu próprio valor no início do ano, o rublo passou a se valorizar e retomou sua cotação do início de dezembro. Ontem, a moeda era negociada a 53,82 rublos por US$ 1, em alta de 2,11% às 19h30, horário de Moscou. No pico da desconfiança dos investidores, a moeda chegou a 80 rublos por US$ 1. No início do ano, antes do agravamento da crise na Ucrânia, que resultou em sanções econômicas do Ocidente e em embargos russos em relação à Europa e aos Estados Unidos, e também antes da queda do preço do petróleo, eram necessários 32 rublos por dólar.

O efeito colateral desse cenário econômico é o aumento da inflação, que pode chegar a 11% nos últimos 12 meses. Será a primeira vez desde 2009 - auge da crise internacional - que ela ultrapassará a marca de 10% no ano.

Para brecar a queda, o Banco Central da Rússia interveio no mercado vendendo moedas estrangeiras e aumentando os juros de 10,5% para 17%. As reservas, que vinham sendo gastas nas duas primeiras semanas no mês, se estabilizaram em US$ 398,9 bilhões - com US$ 15,7 bilhões a menos em caixa em relação ao balanço divulgado por Putin na semana passada.

Além de subir os juros, o governo de Putin e o BC russo deram início a um programa de reforço do sistema financeiro local. Ontem, a autoridade monetária confirmou a intenção de injetar 99 bilhões de rublos, ou US$ 1,8 bilhão, no banco Trust, que sofria pane de liquidez. Medidas semelhantes podem ser anunciadas em relação aos bancos públicos VTB e Gazprombank.

Além de intervenções ortodoxas, o governo anunciou também a criação de um limite para o aumento do preço da vodka, a bebida nacional, muito consumida.

A fragilidade da economia russa levou a agência de ratings Standard & Poor''s a atribuir na terça-feira viés negativo aos títulos da dívida soberana, hoje em BBB-. A nova avaliação deve ser feita em janeiro, e caso o rebaixamento se confirme a Rússia será o primeiro dos grandes emergentes dos BRIC - Brasil, Rússia, Índia e China - a perder o grau de investimento.

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