Sadia avisou Perdigão da oferta antes do anúncio

O presidente do conselho de administração da Sadia, Walter Fontana, disse hoje que conversou na noite de ontem, antes do anúncio da oferta pública de aquisição de ações da Perdigão, com o presidente da empresa, Nildemar Secches, e com o presidente do conselho de administração, Eggon João da Silva, para comunicar a intenção da companhia. De acordo com Fontana, a conversa foi cordial, porém Secches disse que o assunto terá de ser tratado pelos acionistas.O executivo da Sadia comentou que não é de hoje que as empresas nutrem o sonho da união, uma vez que essa possibilidade foi aventada várias vezes nos últimos anos. Fontana disse também que conversou com o diretor de Participações da Previ - principal acionista da Perdigão, com 15,3% dos papéis -, Renato Chaves; com o presidente da Petros, Wagner Pinheiro; e com representantes dos fundos de pensão Sistel e Valia. "A reação foi de um acionista que recebe uma oferta", brincou Fontana, sem detalhar a receptividade da proposta.O diretor de Relações com Investidores da Sadia, Luiz Murat, reiterou que o valor proposto pela aquisição das ações da Perdigão é compatível com o valor econômico da empresa. Segundo ele, o múltiplo embutido na proposta, de 9,2 vezes (valor de mercado + dívida líquida/Ebtida), é superior a operações fechadas no mercado internacional na área de alimentos nos últimos anos, que foi de 6,7 vezes. Ele comparou também com o recente negócio entre Cargill e Seara, cujo múltiplo foi de 5,3 vezes.Murat comentou ainda que o valor ofertado pela Perdigão, considerando as cotações de sexta-feira, representa 5% mais do que valia a própria Sadia, sendo que a empresa fatura 40% mais e tem um Ebitda (ganho antes de juros, impostos, depreciação e amortização) 37% maior.Os executivos reiteraram que um dos objetivos da compra é formar uma grande empresa nacional com capacidade para competir internacionalmente e, ao mesmo tempo, evitar a entrada de investidores estrangeiros que já manifestaram interesse pelo Brasil, dado o inquestionável potencial do agronegócio nacional.Murat explicou que o maior ganho de sinergias ocorrerá nas atividades fora do Brasil, pois internamente as empresas são consideradas bastante enxutas, com despesas administrativas inferiores a 1% da receita bruta.O diretor da Sadia esclareceu que, se a aquisição for confirmada, a empresa pretende realizar uma alteração no endividamento, a fim de reduzi-lo. Alguns instrumentos estão sendo cogitados como emissão de debêntures (títulos emitidos pela empresa para captação de recursos em troca de um prêmio em juro), contrato de pré-pagamento de exportações, empréstimo de commercial paper e chamada de capital, que pode incluir lançamento de ações.Produtores europeusA possibilidade de uma fusão entre a Sadia e a Perdigão faz os produtores de carne da Europa ficarem em estado de alerta. As duas empresas são vistas como importantes atores no mercado internacional de carnes e uma eventual união poderia ter um impacto entre os concorrentes em outras regiões.A Associação de Processadores de Frango da Europa admitiu ter ficado surpreendida com a notícia e aponta que os produtores de países como França e Dinamarca estão conscientes de que terão de enfrentar uma concorrência cada vez maior de produtos brasileiros. Um exemplo claro é o mercado russo, onde europeus e americanos tradicionalmente dominavam. Nos últimos anos, porém, o Brasil vem ganhando espaço e ameaçando os lucros das empresas européias e americanas."Temos de ficar atentos para o dia em que o Brasil consiga resolver todos seus problemas de competitividade, inclusive as questões fitossanitárias, e entre com força total nos mercados de carne do mundo", afirmou o diretor de comunicações da Associação Dinamarquesa de Carnes, Karsten Anker Petersen.

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