Schwartsman: nova contabilidade fiscal em si é mudança secundária

Segundo economista-chefe do Santander, o mais importante será observar o alinhamento do BC com o Tesouro Nacional

Luciana Xavier e Célia Froufe,

29 de agosto de 2008 | 16h44

O economista-chefe do Santander e ex-diretor do Banco Central, Alexandre Schwartsman, disse que a mudança da contabilidade fiscal do governo em si é questão secundária. Segundo ele, mais importante será observar como ficará a combinação de política monetária e política fiscal, ou seja, o alinhamento do BC com o Tesouro Nacional. "Vai haver um constrangimento para o BC ou não? Esta é a pergunta", disse ao AE Broadcast Ao Vivo.  Ouça a entrevista   De acordo com o economista, se há constrangimento e o BC não pode subir juro, pois isso afetaria a meta fiscal, fica claro um cenário de "dominância fiscal". "Mas se nos momentos de inflação alta, o BC tem que subir juro, aumentando o custo da divida, o Tesouro está ao mesmo tempo apertando a política fiscal para manter a meta, maravilha. Não sei se é isso que está na cabeça do ministro (Guido Mantega). Caso contrário, a gente vai ter dominância fiscal, que é uma receita para ter inflação sistematicamente acima da meta", comentou.  Acerto A queda das commodities e o recente recuo da inflação reacenderam a discussão sobre se o Banco Central de Henrique Meirelles errou ao elevar a dose de alta da Selic de 0,50 ponto porcentual para 0,75 pp na reunião de julho, após decidir por duas altas consecutivas de 0,50 pp. "Acredito que (o BC) não errou. Não acredito que o que está acontecendo do ponto de vista de inflação no Brasil resulte primariamente dos preços das commodities. Acho que os dados sugerem que não se trata disso", disse Schwartsman.  Segundo ele, os preços das commodities, trazidos para reais, acabam tendo efeito pequeno sobre a inflação, por conta da apreciação da moeda brasileira. "Quando a gente olha para o conjunto da obra, para medidas de inflação que não são tão afetadas por questões pontuais, para os núcleos, a gente vê que a inflação está longe de estar rodando num patamar consistente com a trajetória de metas", avaliou. Para Schwartsman, mesmo que haja um alívio para inflação vindo das commodities, ele será temporário. "Não é isso que vai trazer a inflação de volta para a meta. Vai ter que ser a política monetária mesmo." Na avaliação de Schwartsman, mais em linha com a avaliação do presidente do BC, Henrique Meirelles, do que com a do ministro da Fazenda, Guido Mantega, há sim excesso de demanda na economia, o que é uma das principais causas da elevação da inflação e não apenas o impacto das altas commodities. "De fato, o País está crescendo consistentemente numa velocidade maior do que consegue sustentar ao longo do tempo", comentou o ex-diretor do BC em relação ao PIB potencial brasileiro. Ele citou como sinais de que a demanda está forte, o elevado nível de utilização da capacidade instalada na indústria (Nuci), o baixo nível de desemprego e os ajustes de salário nominal (10,50% em julho ante o mesmo mês do ano passado) acima da meta de inflação (de 4,50% com intervalo de 2 pontos porcentuais). "Mesmo com investimentos, o nível de utilização da capacidade da indústria está de fato no topo da série e as taxas de desemprego estão testando os níveis mínimos." Diante desse cenário, Schwartsman acredita estar "mais ou menos garantido" que o BC voltará a elevar a Selic em 0,75 pp, para 13,75%, no dia 10 de setembro - nesse dia também serão conhecidos os dados do PIB referentes ao segundo trimestre. Depois, poderiam se seguir mais duas elevações de 0,50 pp em outubro e dezembro, com a taxa básica encerrando o ano em 14,75%. "Mas se chegar em outubro e a economia não der sinais de desaceleração, será o caso de o BC pensar se está certo ou não", disse. Schwartsman acredita, no entanto, que sinais mais claros de desaceleração da economia virão na transição do terceiro para o quarto trimestre. Segundo ele, por enquanto, todas as indicações são de que o consumo seguirá forte e de que a demanda seguirá crescendo acima do PIB ainda em 2009, como já vem ocorrendo este ano. Após dois anos de crescimento forte, Schwartsman prevê que o crescimento do PIB irá desacelerar de 4,7% ou 4,8% em 2008 para 3,5% no ano que vem. O economista projeta ainda IPCA perto do teto de 6,5% da meta de inflação este ano e na meta de 4,5% em 2009. "Com um pouco de sorte, Meirelles não terá que escrever a carta", disse, referindo-se ao procedimento formal no qual o presidente do BC tem de redigir uma carta aberta ao ministro da Fazenda, esmiuçando os pontos que levaram ao não-cumprimento da meta de inflação definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) para o ano anterior. Para Schwartsman, os preços das commodities devem continuar a ceder ao longo deste segundo semestre e do primeiro semestre de 2009, o que não é bem uma boa notícia para o Brasil, que tem se beneficiado nos últimos anos do boom das commodities. "Não tem como dizer que a queda das commodities é algo positivo para o Brasil", avaliou. "Mas o País se preparou nos últimos anos para enfrentar um cenário desse", acrescentou. Segundo ele, será importante observar como a China se comportará nos próximos meses e em 2009 diante de um cenário de desaceleração não só nos Estados Unidos, mas também Europa e Japão. Schwartsman prevê que o mundo enfrentará mais dificuldades nos próximos nove a 12 meses. O ano de 2009, acredita o economista, será pior para o mundo e também pior para o Brasil. "Mas não será um desastre. Não vejo nenhum colapso", disse.

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