Setor de moda sente aperto econômico

Setor de moda sente aperto econômico

Com exceção da Renner, grandes varejistas viram vendas em lojas abertas há mais de um ano caírem no 3º trimestre; Marisa teve prejuízo

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

12 de novembro de 2014 | 07h19

O fim da temporada de balanços do terceiro trimestre deixou claro que as grandes varejistas de moda estão com dificuldade de convencer o consumidor a renovar o guarda-roupa em tempos de crescimento econômico perto de zero. Das quatro maiores redes de confecções listadas na Bolsa, apenas a Renner registrou alta nas vendas em lojas abertas há mais de um ano entre julho e setembro. As demais - Riachuelo, Hering e Marisa - viram retração no indicador.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que as vendas do comércio como um todo andaram para trás em julho e agosto (veja quadro ao lado). No entanto, analistas ouvidos pelo Estado apontaram que problemas internos também afetam os resultados das redes. Dificuldades com coleções, definição de preços ou projetos de expansão ajudam a explicar os resultados do terceiro trimestre. O balanço das empresas ainda inclui impacto residual da Copa do Mundo, que afetou as vendas em julho.

Fortemente atrelada à classe C, a Marisa foi a única empresa que, além de ter visto suas lojas venderem menos entre julho e setembro, também registrou prejuízo líquido - a empresa perdeu R$ 18,4 milhões no período. “Existe um componente de execução no balanço da Marisa”, disse o analista de varejo da Votorantim Corretora, Luiz Cesta. Isso quer dizer que, além de ter de enfrentar um cenário macroeconômico desfavorável, a empresa também não conseguiu entregar uma coleção que agradasse à clientela, reduzindo as visitas às lojas.

No caso da Riachuelo, parte do Grupo Guararapes, a queda nas vendas das lojas abertas há mais de um ano foi a primeira desde 2006, ano em que a empresa começou a incluir o indicador no balanço. A retração de 2,7% significou também um forte contraste em relação à expansão de 10% do mesmo período de 2013. Segundo relatório dos analistas Guilherme Assis e Victor Falzoni, do Banco Brasil Plural, um dos componentes que contribuíram para a piora do resultado foi a desaceleração nas vendas nas regiões Norte e Nordeste, às quais a companhia tem forte exposição.

Aberturas. No entanto, uma fonte de mercado lembra que a empresa também está empreendendo um forte programa de expansão - serão 40 unidades novas em 2014, ritmo parecido com o do ano passado. A abertura de novas lojas pode afetar, em alguns casos, o desempenho de pontos de venda já estabelecidos. “A empresa está também fazendo um forte movimento de sofisticação, que custa caro”, disse a fonte. A Guararapes afirmou, após a divulgação do balanço, que antecipa uma alta nas vendas em lojas abertas há mais de um ano no quarto trimestre. 

Enquanto a Riachuelo e a Renner mantêm acelerados projetos de expansão, Hering e Marisa optam pelo caminho da cautela. No fim do mês passado, a Hering, por exemplo, anunciou que abrirá 75 novas unidades em 2014, contra as cem lojas inicialmente previstas.

Entre as principais varejistas, a Hering é a que vem apresentando resultados decepcionantes há mais tempo. “A Hering já vinha perdendo força desde 2012, quando o mercado como um todo ainda vinha crescendo. Não é um resultado só ligado à economia”, disse um analista, que pediu para não ser identificado. Assim como a Riachuelo, a Hering está implantando mudanças. Recentemente, lançou uma nova linha de produtos básicos e expandiu seu portfólio de marcas.

Nos próximos trimestres, as empresas terão de fazer muito bem o dever de casa para melhorar seus resultados, já que a economia deverá seguir em ritmo lento em 2015. “É um cenário desafiador. O trabalhador tem menos dinheiro disponível e está em dúvidas sobre o futuro. Nesse cenário de incerteza, vai restringindo os gastos, especialmente os que podem ser adiados, como o com roupas”, disse Cesta, da Votorantim.

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