Solavanco na China estremece o mundo

Em um dia ruim, os aposentados esparramados nas cadeiras de plástico do lobby de uma corretora de Xangai aparentam pouca emoção enquanto seu patrimônio diminui diante de seus olhos - o drama está todo nos números piscando nas grandes telas. Em um dia bom, a sala se enche de ruídos animados. Nos últimos dias, houve vários altos e baixos. E momentos iguais estão por vir. "O mercado chinês está em rota de correção. É normal que os preços flutuem", diz a corretora veterana Zhang Meizhen. "Minha estratégia é evitar o risco não colocando muito dinheiro no mercado nesse exato momento." A última semana foi turbulenta e histórica para o mercado de capitais chinês. Com um total de investimentos de US$ 1,4 trilhão - um terço do tamanho da Bolsa de Valores de Tóquio, a maior da Ásia -, a Bolsa de Xangai abalou todos os mercados do mundo pela primeira vez em 15 anos de existência, quando despencou quase 9% na terça-feira passada. A queda provocou uma reação em cadeia, levando Wall Street ao seu pior dia desde 11 de Setembro de 2001 e espalhando perdas na Europa e em outros mercados asiáticos. As ações chinesas recuperaram perto de 4% na quarta-feira, antes de cair 3% de novo no dia seguinte. Na sexta, o índice da Bolsa de Xangai foi 1,2% superior ao do encerramento da semana e ainda 5,8% maior que o do começo do ano. "Se a queda de terça foi um terremoto, o resto da semana deveria ser visto como tremores de menor magnitude', diz Zhu Haibin, um analista da Corretora Everbright. Analistas dizem que a queda da bolsa chinesa levou a uma correção mundial nos preços das ações, que haviam subido muito rápido antes do episódio. Essa teoria é particularmente verdadeira na região da Ásia-Pacífico, onde os mercados, desde a China até a Austrália, vinham desafiando a gravidade nos últimos meses. Especulação O mercado de Xangai, por exemplo, valorizou-se 130% no ano passado depois de anos de estagnação. E subiu 13,6% desde o começo do ano até segunda-feira, quando bateu recorde de negociação. "Por quatro meses, era uma via rápida de mão única. Havia muita especulação no mercado", diz o economista independente, Andy Xie. "O mercado é guiado por emoções". Apesar do impacto forte e incomum, o solavanco não reflete nenhuma mudança nas tendências dos negócios nem uma inesperada revisão na economia chinesa. Enquanto o episódio traz preocupações a respeito da economia americana, a maioria dos especialistas acredita que o crescimento da China vai continuar a um ritmo de 10% ao ano. O mercado de ações chinês funciona muito mais para empresas estatais como Baoshan Iron & Steel e China Life Insurance, que para os vibrantes setores privados. Esse é um indicador econômico pobre. O preço das ações tem pouco a ver com os fundamentos corporativos, segundo os analistas. Além disso, a maioria dos mercados principais ainda é fechada para investidores estrangeiros, sem considerar os chamados investidores institucionais de qualidade, orientados a contar com apenas um pequeno porcentual do total de investimentos do mercado. Os analistas dizem que a última correção nos preços era inevitável e bem-vinda pelos reguladores como uma forma de proteger o preço das ações de uma bolha especulativa. "O mercado poderia cair bem, mas eu acho improvável uma queda em massa daqui para frente", diz o economista da UBS Securities Asia, Jonathan Anderson. Enquanto isso, os investidores locais parecem desconcertados. A autoridade de fiscalização do mercado chinês informou 188.876 novas contas abertas na terça-feira. Essa febre de investimento, na ausência de nenhuma outra boa opção, é que trouxe novos investidores para o mercado no ano passado. Parte da escalada das ações em 2006 é resultado do esforço das autoridades para conter especulação no mercado de imóveis. Como o governo apertou o controle e elevou as taxas no mercado imobiliário, investidores voltaram ao mercado de ações, esperando retornos maiores que os medíocres 0,7% pagos pelos bancos. "O desafio é saber como manter a especulação sob controle, enquanto se evita o pânico', diz Anderson. A turbulência foi um alerta aos inexperientes investidores chineses: o mercado de ações envolve riscos. Mesmo os mais experientes sentiram o drama. "A fundação do mercado ainda não está firme", disse o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, em artigo sobre reforma financeira. "Há muitos problemas a serem resolvidos."

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