Suíça joga a tolha na luta contra a valorização do franco

País anunciou que desistiu da política cambial que previa um piso para as cotações da moeda, que chegou a subir 37% na máxima do dia

Fernando Nakagawa, correspondente, O Estado de S. Paulo

15 de janeiro de 2015 | 17h46

A surpreendente mudança cambial anunciada pelo Banco Central da Suíça (SNB, na sigla em inglês) reforça a aposta de que o Banco Central Europeu (BCE) agirá em breve. Diante do custo crescente pago pelo SNB para manter a moeda no piso de 1,20 franco suíço por euro, foi anunciada a desistência dessa política e a divisa se valorizou quase 37% em poucos minutos ante o euro na máxima do dia. Analistas dizem que os suíços "jogaram a toalha" na luta para amenizar o movimento no câmbio e isso pode indicar que o euro pode cair ainda mais fortemente em breve.

A Suíça chocou o mercado nesta quinta-feira ao anunciar que desistiu da política cambial que previa um piso para as cotações da moeda local. A estratégia abandonada atrelava o preço do franco suíço à moeda única europeia. Assim, o euro deveria custar, no mínimo, 1,20 franco. Para cumprir essa relação, o BC suíço intervinha no mercado em uma estratégia que, grosso modo, pode ser comparável às ações do BC no Brasil para respeitar as bandas cambiais até 1999. A diferença é que a Suíça continha a valorização do franco e no Brasil a ação tentava conter a desvalorização do real.

Considerado um dos "portos seguros" mais confiáveis do mundo, a Suíça sempre atraiu investidores em tempos turbulentos. Foi assim na crise de 2008 e continua sendo assim diante da crise geopolítica na Rússia. Analistas dizem que esse fluxo tende a crescer caso seja confirmada a expectativa de que o BCE iniciará em breve um amplo programa de injeção de liquidez no mercado com a compra de dívida soberana, o chamado relaxamento quantitativo (QE).

Quando esse dinheiro ingressa na Suíça, investidores transformam os recursos originais - sejam eles em euros, dólares ou rublos, por exemplo - em francos suíços para que o dinheiro seja depositado em um banco local. Isso gera aumento da demanda pela moeda, o que deveria valorizar o franco. A alta da moeda, porém, não ocorria porque as intervenções do SNB travavam o valor.

O raciocínio por trás da desistência dessa estratégia é relativamente simples: 1) O fluxo de recursos para a Suíça já é elevado e deve ganhar força com eventual QE na Europa. 2) Diante da entrada de mais dinheiro, a moeda deveria se fortalecer. Mas, para respeitar o piso de 1,20 franco por euro, o SNB precisaria intervir ainda mais, o que tende a disparar os custos para o BC suíço.

O presidente do SNB, Thomas Jordan, sinalizou que a manutenção dessa política era insustentável. "É melhor fazer isso agora do que em 6 ou 12 meses, quando a ação iria doer ainda mais", disse ele.

Ao anunciar a medida, o BC suíço informou que a trava das cotações foi adotada em período de "excepcional sobrevalorização do franco e extremamente elevado nível de incerteza nos mercados". A medida, classificada pelo BC suíço como "excepcional" e "temporária", "protegeu a economia de sérios danos". Agora, diz o BC, a economia está preparada para a volta do câmbio livre.

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