Suzano Petroquímica testa comando duplo

A sala da presidência da Suzano Petroquímica será agora diferente de outras companhias brasileiras. Lá, em vez de um, dois presidentes vão dividir o cargo: José Ricardo Roriz Coelho e João Pinheiro Nogueira Batista. A empresa fez o anúncio da mudança no comando ontem, e com isso entra em um terreno da gestão pouco explorado, com vantagens a serem exploradas e riscos envolvidos com um duplo comando.Segundo David Feffer, presidente da Suzano Holding e do conselho de administração da Suzano Papel e Celulose, a decisão marca uma nova etapa da empresa, que passou por um processo de reestruturação e adquiriu no ano passado a Polibrasil. "Os dois são muito talentosos e juntos têm o perfil ideal para enfrentar esse desafio", diz Feffer.A empresa desde 2001 vem modificando sua estrutura, com a saída da família Feffer da gestão e a profissionalização da administração. Feffer não quis detalhar o motivo da decisão de dividir o comando, mas diz que o conselho de administração pesquisou bastante o assunto antes de bater o martelo."O setor petroquímico brasileiro passa por uma fase difícil", diz Feffer. "Diante dos desafios do setor, a união de dois executivos no comando ajuda na tomada de decisões."SiamesesDe acordo com Feffer, não há problema no duplo comando, já que ambos se conhecem bem e vão atuar em conjunto, como "siameses". "Eles têm peso igual nas decisões. Não há divisão interna e com isso a empresa fica com mais músculo e energia."Segundo Nogueira, que antes era vice-presidente da Suzano Holding e está na empresa há três anos, não há dificuldade em ter de dividir o comando. "Hoje em dia em empresas deste porte, ainda mais de capital aberto, as decisões sempre são colegiadas, com busca de ponderação, e com dois presidentes se reforça ainda mais a necessidade de reflexão."A decisão, porém, foi uma surpresa. "A sucessão foi pensada muito tempo pelos conselheiros. Mas ninguém mais na empresa sabia", diz Nogueira. "O poder às vezes é solitário e ter alguém com quem você compartilha visões e decisões importantes é saudável."RiscosThiago Zanon, consultor sênior da Hewitt Associates, especializada em RH, diz que este modelo não é comum no Brasil ou no exterior. "Quem opta por isso muitas vezes é porque o desafio de tocar o negócio exige qualidades que só dois executivos juntos poderiam ter." Outros casos de dupla presidência já ocorreram nas matrizes da Unilever e na Kraft, hoje empresas que possuem só um executivo na posição.Para Zanon, existem pontos positivos, como a maior qualidade nas decisões tomadas. "Mas a maior desvantagem é a de que, se os processos internos não forem bem azeitados, as escolhas se tornem muito lentas."Além disso, ele ressalta que é preciso ficar muito claro quem é o responsável por todos os atos, para que, em caso de algum erro, seja possível identificar quem tomou a decisão. "É preciso apostar na comunicação com os funcionários, pois se não se sabe quem é o líder, fica difícil para os empregados saber a quem recorrer."Para Gilberto Guimarães, diretor da BPI do Brasil, consultoria de RH, a decisão de manter uma dupla presidência soa estranha. "Colocar duas pessoas para fazer a mesma coisa é insanidade. A liderança de um naturalmente vai se impor, pois logo que discorrem em um ponto, um vai ter que se subordinar ao outro." Guimarães questiona se não há uma estratégia de dividir o poder para facilitar a gestão da empresa.

Agencia Estado,

17 de agosto de 2006 | 08h47

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