TCU investiga empréstimos públicos à cearense Troller

A montadora cearense Troller, fabricante de veículos fora-de-estrada que acaba de ser comprada pela Ford, terá de dar explicações ao Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o suposto uso de dinheiro público em seus negócios. A empresa obteve cinco contratos, aos quais o Estado teve acesso, no montante de R$ 24,7 milhões, da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), órgão vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, cuja função é o fomento de pesquisas científicas e a inovações tecnológicas. Os contratos, três deles a fundo perdido, foram fechados pela diretoria da Finep entre março de 2004 e novembro de 2005, apesar de parecer contrário do Comitê de Orientação de Crédito e Operações, uma das instâncias deliberativas do órgão. O dinheiro ajudou a montadora a sair da crise financeira em que se encontrava e viabilizar novos produtos, antes de ser vendida à Ford, em janeiro deste ano. Os dois lados fazem segredo sobre o valor do negócio, mas no mercado fala-se em cerca de R$ 400 milhões.O caso foi levado ao TCU pelo deputado federal Augusto Carvalho (PPS-DF), presidente da ONG Contas Abertas, dedicada à fiscalização de gastos públicos. ?É no mínimo muito esquisito usar dinheiro público para alavancar negócios privados de uma empresa à beira da falência?, disse Carvalho. ?É inconcebível que recursos escassos para fomentar o desenvolvimento tecnológico e científico do País acabem se prestando ao enriquecimento pessoal de empresários.?As operações questionadas pelo deputado foram aprovadas no período em que era presidente da Finep o atual ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, indicado pelo PSB. Rezende informou, por meio da assessoria, que os contratos seguiram as normas legais, não houve qualquer dano ao patrimônio público e os projetos financiados são de base tecnológica, foco de atuação da Finep. TecnologiasEm nota, o ministro informou ainda que, no caso dos empréstimos, os objetivos dos projetos foram plenamente alcançados. ?Todas as etapas foram concluídas, a prestação de contas foi entregue e os empréstimos já estão em fase de amortização?, acrescentou.Do montante obtido pela Troller, duas operações, no valor de R$ 17,6 milhões, foram na modalidade de empréstimos a juros subsidiados para a empresa. As outras três, no valor de R$ 7 milhões, foram repasses a fundo perdido feitos para entidades que se associaram à Troller no desenvolvimento de tecnologias.A primeira operação de empréstimo, no valor de R$ 9,3 milhões, foi firmada em 8 de março de 2004. O objetivo era a ?absorção de novas tecnologias para capacitação e desenvolvimento de projetos de veículos destinados ao segmento off-road?. A operação teve parecer contrário do Comitê de Orientação de Crédito e Operações, que considerou a situação cadastral e financeira da Troller ?desfavorável?. Conforme o parecer, a empresa estava inserida no risco Serasa 14, que corresponde a 70% de risco de inadimplência a curto prazo. O parecer apontou também duas execuções contra o sócio majoritário da montadora e constatou que a atividade da empresa estava ?totalmente fora da prioridade governamental, comprometendo recursos que poderiam ser usados em áreas estratégicas para o desenvolvimento tecnológico do País?.A direção da Troller disse que não vai se manifestar sobre a questão porque uma cláusula do contrato de venda da empresa determina que doravante só a compradora pode falar sobre a marca. A assessoria da Ford informou que todo o material contábil e administrativo apresentado por ocasião da compra em princípio está em ordem e não foi detectada nenhuma ilegalidade. Informou também que está em curso uma completa auditoria, ao fim da qual poderá se manifestar com mais propriedade.O presidente da Finep, Odilon Marcuzzo do Canto, explicou que o parecer do Comitê foi acolhido e o pedido de recursos na modalidade ?investimento?, que havia sido feito pela empresa, foi negado. Nessa modalidade, a Finep torna-se sócia do empreendimento.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.