Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Temor de ingerência derruba ações da Petrobrás

Discussão sobre redução do preço dos combustíveis, às vésperas da votação do impeachment da presidente Dilma, foi mal vista pelo mercado; ações caíram 9% após duas semanas de alta

Mônica Ciarelli, Antonio Pita, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2016 | 21h39

RIO - Às vésperas do votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff, o presidente da Petrobrás, Aldemir Bendine, tenta despolitizar as discussões feitas na empresa sobre uma eventual redução dos preços dos combustíveis. A estatal já enxerga espaço para baixar o valor da gasolina e do diesel, mas enfrenta forte resistência do seu conselho de administração para um movimento nesse sentido.

Para amenizar o tom das críticas feitas pelos conselheiros, Bendine encaminhou a eles um e-mail afirmando que ainda não há uma decisão final sobre a redução dos preços e que não deve haver “qualquer tipo de politização do tema”.

“Estamos todos aqui, diretores e conselheiros, com o objetivo de atender única e exclusivamente os interesses da Petrobrás”, escreveu Bendine em mensagem a qual o Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, teve acesso.

No mercado financeiro, o temor de ingerência do governo na estatal fez com que as ações tivessem a maior queda da Bovespa – um tombo de 9%, após duas semanas de alta. Em relatório, o BTG alertou os investidores que “o timing dessa decisão pode ser gravemente mal interpretado” em meio ao processo de impeachment de Dilma.

“É dever dessa diretoria monitorar permanentemente a composição de todos os nossos custos e também o comportamento do mercado. São estes os fatores que norteiam nossa política de preços”, diz o e-mail assinado por Bendine.

A mensagem buscava reduzir a tensão com o presidente do colegiado, Nelson Carvalho. Em conversas com outros integrantes, ele criticou a ausência de discussão prévia sobre o assunto no conselho, que defende uma atuação “afinada com o mercado”. “A Petrobrás, em função de seu caixa, tem de maximizar o retorno com seus produtos”, disse um integrante.

A avaliação da diretoria, entretanto, é que há margem para redução de preços em função das mudanças no câmbio e da queda nas vendas de combustíveis. Na mensagem, Bendine explicou que houve queda de quase 11% nas vendas entre janeiro e fevereiro na comparação com 2015. No último ano, a empresa já havia registrado queda de 9% nas vendas.

Mercado. O argumento é questionado por analistas. Walter de Vitto, da Tendências, lembra que a queda nas vendas é causada principalmente pela perda de renda real e pelo desemprego. “Esses fatores são mais importantes para definir o consumo e ainda devem se agravar neste ano”, afirma.

Os preços de combustíveis estão mais altos no País que no exterior desde o final de 2014, com a queda das cotações do petróleo. Cálculos da Tendências indicam que, na última semana, a gasolina estava 23,5% mais cara nas bombas brasileiras em comparação com o mercado internacional. Já o diesel custava 42,7% mais.

A receita gerada com o cenário favorável foi usada para recuperar perdas acumuladas entre 2011 e 2014, quando o governo congelou reajustes nos preços para conter a inflação. Essa política provocou perdas de até R$ 80 bilhões no caixa da empresa.

O consultor Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie), ressalta que a redução de preços integra um “pacote de bondades” do governo para recuperar popularidade, como a adoção de bandeira verde no setor elétrico. “O governo voltou a tratar a Petrobrás como instrumento de política econômica e partidária e repete decisões populistas que já fizeram estrago no primeiro mandato”, disse.

A estatal informou que não há previsão, neste momento, de reajuste nos preços de comercialização da gasolina e do diesel. Em fato relevante, a Petrobrás esclareceu que "avalia permanentemente a competitividade de suas práticas e condições comerciais".  Segundo a empresa, fatos relevantes sobre o tema serão "tempestivamente divulgados ao mercado".

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