Tendência do real no médio prazo divide analistas

Qual será o comportamento do real nos próximos meses? Não há um consenso sobre o tema entre os analistas de instituições financeiras internacionais. Fatores como a tendência da conta corrente brasileira, extensão do atual ciclo de cortes na taxa Selic, possibilidade de novos movimentos de aversão ao risco nos mercados globais são essenciais nesse debate. Embora a maioria acredite que a cotação da moeda brasileira se manterá próxima de seu atual patamar, há aqueles que acreditam que um enfraquecimento gradual será inevitável. Gray Newman e Heloísa Marone, analistas do banco de investimentos Morgan Stanley, afirmam que os balanços em conta corrente e comercial do País "finalmente começaram a se deteriorar", mas acreditam que o real vai se manter forte. "Nunca acreditamos muito que a moeda precisa se ajustar para que sejam mantidos amplos superávits em conta corrente e comercial", afirmaram. Segundo eles, com a Selic em 14,75% ao ano e mesmo com a possibilidade de mais três cortes de 0,25 ponto porcentual na taxa até dezembro, as operações de carregamento no Brasil continuam atraentes e isso deverá ajudar a dar suporte ao real. "Não ficaremos surpresos em ver alguma volatilidade cambial nos próximos meses e esperamos ver mais tentativas das autoridades para enfraquecer o real, mas continuamos confortáveis com a moeda brasileira e esperamos vê-la cotada em torno de R$ 2,20 até o final de 2007", afirmaram Newman e Marone. "Se você acredita em taxas de juros menores e demanda doméstica mais forte em 2007, achamos difícil combinar isso com uma moeda com tendência de enfraquecimento." Já o estrategista de câmbio Dany Naieman, do banco Merrill Lynch, avalia que o real vai se enfraquecer e ser mais afetado pelo movimento de aversão ao risco nos mercados mundiais. "Um fator importante é o contínuo aperto monetário promovido pelos fornecedores da liquidez global, entre eles China, Japão", disse. "No âmbito doméstico, o Brasil tem tido um crescimento fraco e tem fracassado na melhora de sua política fiscal. "Além disso, acrescentou Naieman, as perspectivas de queda do desemprego ou de crescimento do superávit em conta corrente são muitos remotas para o segundo semestre de 2006. Gene Frieda, economista do Royal Bank of Scotland, acredita que os ativos dos países emergentes estão sendo favorecidos pelo sazonal rali de verão no hemisfério Norte, mas poderão voltar a serem pressionados neste segundo semestre por causa do ambiente internacional. "Nossa visão menos positiva sobre os mercados financeiros emergentes para o final deste ano nasce de uma expectativa de aperto monetário nos países mais ricos numa época de desaceleração econômica, pelo menos nos Estados Unidos". Segundo ele, o movimento de venda de ativos de risco ocorrido em maio e junho foi causado principalmente desmontagem de investimentos alavancados receosos com as pressões inflacionárias e com os passos do Federal Reserve. "Futuros movimentos de venda deverão contar com uma maior participação do dinheiro real, estimulado pela desaceleração do crescimento além da redução de liquidez", disse Frieda. Diante dessa perspectiva, Frieda acredita que o real terá uma performance mais positiva nos próximos três meses do que a lira turca. Mesmo após a recente alta nos ativos emergentes, a moeda turca está próxima de sua cotação média dos últimos dez anos. Já o real viveu nos últimos três anos a maior valorização entre as moedas emergentes e, segundo o analista, parece substancialmente supervalorizado em relação à média de sua cotação de longo prazo. "Mas o Brasil continua a registrar superávits em conta corrente enquanto a Turquia permanece em déficit", disse Frieda. "A resposta positiva das autoridades turcas à recente turbulência nos mercados comprou algum tempo, mas a esperada ausência de ajustes na conta corrente deixa a lira muito vulnerável a qualquer nova onda de aversão ao risco."

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