Turbulência faz presidente do Fed adotar nova linguagem

O presidente do Fed (banco central dos Estados Unidos), Ben Bernanke, admitiu ontem à Comissão de Finanças do Senado que errou ao fazer um comentário à jornalista Maria Bartiromo, da rede de televisão CNBC, durante o jantar da Associação dos Correspondentes da Casa Branca, no mês passado. Estrela do jornalismo financeiro nas redes a cabo, Maria ignorou a regra do "off the record", que protege as conversas entre autoridades e repórteres em ocasiões sociais, e revelou, em seu programa, que Bernanke lhe falou sobre seu desapontamento com o fato de alguns investidores acharem que ele é condescendente com a inflação. Inicialmente, os analistas viram na informação uma indicação de que o Fed sustaria a política de aperto monetário que iniciou em 2004. A turbulência que o relato da repórter provocou nos mercados de capitais continuou mesmo depois que, no dia 10, a Comissão Federal do Mercado Aberto (Fomc), o Copom americano, aumentou a taxa de juros pela 16ª vez consecutiva, para 5%, e sinalizou a possibilidade de nova alta por causa da pressão inflacionária. Bernanke referiu-se ao episódio como "um lapso de julgamento". "No futuro, minhas comunicações com o público e com os mercados serão inteiramente pelos canais regulares e formais", afirmou. Isso significa que ele seguirá o exemplo de seus antecessores, Alan Greenspan e Paul Volcker, de limitar pronunciamentos a discursos e depoimentos periódicos às duas casas do Congresso. Acredita-se que Bernanke manterá periodicamente conversas reservadas com um grupo seleto de jornalistas financeiros dos principais órgãos da imprensa escrita. O que não se sabe é se Bernanke, ex-acadêmico que nunca teve de se preocupar com o impacto de suas palavras entre os agentes econômicos, frustrará os que previram que ele restabeleceria o uso do inglês em seus pronunciamento e desenvolverá uma linguagem propositalmente ambígua, como fez Greenspan. "Acho que esse episódio não terá maior conseqüência e faz parte do aprendizado de qualquer novo presidente do Fed ou secretário do Tesouro, mas Bernanke está em Washington há algum tempo e devia saber que não deve dizer nada importante numa situação social, mesmo em off", disse Edwin "Ted" Truman, ex-diretor internacional do Fed e hoje no Instituto de Finanças Internacionais. Quanto à linguagem que Bernanke adotará, Truman disse ser "muito difícil ser claro quando se fala sobre situações que não são claras, como a que atravessamos".

Agencia Estado,

24 de maio de 2006 | 09h41

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