Valor comparado do real é o menor em sete anos

O real já atingiu o pico de valorização desde a introdução do regime de câmbio flutuante, em 1999, mas ainda mantém uma certa margem de competitividade para as exportações, se comparado com os anos iniciais do Plano Real. É o que mostram os dados do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) e também estudos da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). De acordo com o órgão de pesquisa do governo brasileiro, a taxa de câmbio real efetiva (que compara o real com a moeda dos 16 maiores parceiros comerciais do País) em fevereiro é a mais baixa desde janeiro de 1999, quando eclodiu a crise que levou o governo a mudar a política cambial. Comparando com a média do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, o real já se valorizou 16,3%, embora a média do governo Lula mostre taxa mais desvalorizada, por causa da crise de 2002 e 2003. Quando a comparação é feita com o primeiro mandato de Fernando Henrique, entre 1995 e 1998, entretanto, os números do Ipea mostram que o real ainda está 31% desvalorizado. Ou seja, olhando por esse parâmetro, o País ainda estaria um pouco distante do ponto de estrangulamento para exportações, contradizendo as reclamações contra a política cambial feitas por importantes setores exportadores e até pelo governo. Estes números, porém, não são tão absolutos quanto parecem. O cálculo da taxa de câmbio efetiva real depende de uma comparação entre as inflações no Brasil e nos demais países. O próprio Ipea, quando usa o Índice de Preços por Atacado (IPA) da Fundação Getúlio Vargas em vez do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do IBGE na mensuração da nossa inflação, chega a resultados bem opostos aos anteriormente apresentados: a taxa de câmbio atual parece estar mais valorizada inclusive do que na primeira fase do Plano Real. Isso porque a inflação dos últimos 10 anos medida pelo IPA é bem maior do que a do INPC. A maior parte dos estudos econômicos, entretanto, como os divulgados pelo Banco Central e pela Cepal para a taxa de câmbio, utiliza como parâmetro o índice de preços ao consumidor. E é justamente por isso que o secretário-geral da instituição, o argentino José Luís Machinea, relativiza a gritaria dos exportadores brasileiros. "É certo que a valorização do real tem de ser tratada. Mas não exageremos. O Brasil ainda é competitivo em relação à década de 90", afirma Machinea, que foi ministro da Economia da Argentina entre 1999 e 2001. De acordo com os cálculos da Cepal, a taxa de câmbio real efetiva do Brasil valorizou-se mais de 20% no último trimestre de 2005, mas ainda está 20% abaixo da média da década de 90. Cenário pior pode ser verificado no Chile, país de economia aberta onde os empresários pressionam o novo governo de Michelle Bachelet a uma atitude incisiva sobre o câmbio. O peso chileno chega a estar 8% valorizado, se comparado à média da década de 90. Colaborador de Bachelet em sua campanha à Presidência, no ano passado, o economista Ricardo Ffrench-Davis, da Cepal, considera a taxa de câmbio do Chile - atualmente, em torno de 520 pesos por dólar - como "perigosa" e, levando em conta os elevados preços do cobre no mercado internacional, chegou a recomendar a criação de controles sobre os fluxos de capital estrangeiro. "A economia chilena não se sustenta nos próximos cinco anos com um dólar tão barato", alertou. Na avaliação da Cepal, a valorização cambial foi generalizada na América Latina em 2005, o que exige cuidados para evitar a excessiva valorização das moedas locais e manter o ordenamento macroeconômico. Conceito Taxa de câmbio efetiva real é um conceito criado pelos economistas para verificar se a moeda do país está se valorizando ou desvalorizando em relação às moedas dos parceiros comerciais. Ela é chamada "efetiva" porque considera, além da taxa entre o real e o dólar, a relação com o euro, o iene japonês, o peso argentino, entre outras moedas. E é "real" porque compara a inflação desses países com a brasileira e desconta a diferença entre elas da taxa final. Exemplo: se a inflação nos EUA foi zero em determinado ano e no Brasil chegou a 10%, e o valor do dólar passou nesse mesmo ano de R$ 2 para R$ 2,20, então o valor real da taxa de câmbio não se modificou. Isso porque a desvalorização nominal da taxa (10%) foi igual à diferença de inflação entre os dois países.

Agencia Estado,

03 Abril 2006 | 08h45

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