Volatilidade das ações da Sadia e da Perdigão deve continuar

As ações de Sadia e Perdigão devem continuar em destaque nos próximos dias. A oferta pública feita pela primeira para a aquisição da segunda colocou as empresas em evidência, apesar de o negócio não ter prosperado. O imbróglio serviu para mostrar o poder de fogo da Sadia em seu projeto de expansão, que não se restringe ao crescimento orgânico, e ainda colocou a Perdigão na vitrine. "A Sadia não conseguiu comprar a segunda (empresa do setor), mas pode comprar da terceira em diante. E a Perdigão se transformou em uma janela de oportunidade que só aparece a cada cinco anos, pois quem compra não vende antes desse tempo", disse o analista da Ágora, Alexandre Garcia. Ele complementou que a Perdigão é uma empresa consolidada, enxuta, o que atrai investidores, principalmente considerando que o setor passa por um momento de baixa liquidez, por causa dos problemas sanitários. A própria Sadia pode ser objeto de investidas, operação que talvez fosse até mais fácil, pois bastaria negociar com os controladores. Os projetos da Sadia de montar unidades no exterior também demonstram o potencial de crescimento, de modo que não faltam motivos para o papel continuar pressionado. "A volatilidade deve persistir ainda por algum tempo." Garcia adverte que as norte-americanas que supostamente têm interesse em comprar as duas visam usufruir das vantagens competitivas brasileiras e garantir espaço no fornecimento para importantes mercados como o da União Européia, Japão e Oriente Médio. Não se trata de abastecer o mercado local, onde o produto brasileiro não pode entrar. A intenção é também explorar o segmento de produtos industrializados, foco atual das duas companhias, pois garante maior rentabilidade do que os produtos in natura e as protege de percalços relacionados a problemas sanitários. A visão das companhias é de longuíssimo prazo, um cenário em que o mercado externo é a principal promessa, pois a demanda mundial vai crescer, as ondas de gripe aviária devem ser controladas, a Rússia em algum momento irá aderir à Organização Mundial do Comércio (OMC) e, por conseqüência, será obrigada a reduzir os prazos de seus embargos. Na interpretação de Garcia, a transação não saiu porque as empresas "exageraram na pressão" ao defender cada uma seu interesse, apesar de quererem a união. O valor máximo a que a Sadia chegou não ficou perto do mínimo que a Perdigão aceitaria. "Deu para perceber que a conversa só começaria nos R$ 30", afirmou, referindo-se ao valor por ação que a Sadia deveria pagar. A oferta inicial foi R$ 27,88 e subiu depois para R$ 29. Outro analista avaliou que a Perdigão ficou em uma sinuca, pois havia poucos meses que tinha aderido ao Novo Mercado - segmento diferenciado de governança corporativa da Bovespa - e não poderia abandonar esta condição de uma hora para outra. Contudo, a empresa acabou indo na contramão ao não submeter a proposta em assembléia aos demais acionistas. A Sadia, por outro lado, poderia também migrar para este estágio de governança antes de fazer a oferta. "A falha foi na forma como a operação foi estruturada", analisou. "A Sadia podia ter consultado as fundações antes." Para esse analista, o preço médio das instituições é de algo em torno de R$ 29,50 por ação, excluindo-se os extremos quase irreais que algumas calcularam. A Sadia tinha condição de melhorar a oferta, pois os valores mencionados não incluíram todas as sinergias que ela iria angariar com a aquisição. Isto posto, ficou provado que o problema se centrou na estratégia de negociação e com isso a Perdigão perdeu a oportunidade de vender a empresa a R$ 32, na sua opinião.

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