Reprodução/YouTube
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160 dias com covid: 'Houve momentos em que eu preferia ter ido embora', diz dono da Tecnisa

Há um ano, Meyer Nigri foi internado por conta da doença, e ainda faz sessões de fisioterapia para recuperar a coordenação motora; amigo de Bolsonaro, empresário recomendou que o presidente tomasse a vacina para dar o exemplo

Entrevista com

Meyer Nigri, fundador e controlador da Tecnisa

Circe Bonatelli, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2021 | 10h00

Há exatamente um ano, o empresário Meyer Nigri, fundador e controlador da Tecnisa, fez uma pausa forçada nos negócios: percorreu um calvário pessoal que quase o levou à morte. Foram 160 dias internado para tratamento contra a covid-19, 16 dias completamente sedado, com a ajuda de aparelhos para respirar e 38 quilos a menos. "Eu era osso e pele", diz ele, no programa Olhar de Líder, do Broadcast. "Foi muito difícil, um sofrimento brutal. Houve momentos em que, sinceramente, preferia estar indo embora." 

Foi a primeira entrevista do empresário, que agora está em casa, em São Paulo. Meyer saiu do hospital de cadeira de rodas, mas já voltou a andar sozinho e dirigir. Não houve sequelas, mas ainda faz três sessões diárias de fisioterapia para recuperar a coordenação motora. Na hora da entrevista por videochamada, usava roupa de ginástica e pediu um momento para colocar uma camiseta polo.  

Meyer foi contaminado por coronavírus num jantar com amigos do presidente Jair Bolsonaro na Embaixada de Israel, em Brasília. Neto de judeus libaneses que vieram ao Brasil há mais de 100 anos, ele conserva a religião. Do lado político, foi um dos primeiros empresários de expressão nacional a apoiar Bolsonaro, ainda na campanha.

O primeiro encontro entre ambos ocorreu anos atrás, por meio de seus filhos. Renato Nigri estava em sua despedida de solteiro, em Florianópolis, quando conheceu Eduardo Bolsonaro. Com o gosto em comum pelo surfe, se tornaram amigos. Os pais foram apresentados em um jantar na residência dos Nigri, na capital paulista. 

De lá para cá, o dono da Tecnisa ganhou trânsito livre em Brasília. Foi, por exemplo, articulador da proposta de diversificação das linhas de crédito imobiliário, com indexação dos contratos ao IPCA. A medida ajudou a baixar juros e aumentar as vendas de imóveis, embora em contratos com risco mais elevado para mutuários. A Caixa foi o primeiro banco a adotar a nova modalidade de crédito, seguida por alguns bancos privados. 

Meyer não esconde a afeição pelo presidente. "Gosto muito dele, é um cara muito correto, do bem, patriota e bem intencionado", diz. "Montou um time muito bom, mas está difícil governar em função de outras coisas que estão em volta. Gostaria que estivesse indo melhor, mas tem muita coisa acontecendo que não ajuda", afirma, sem detalhar o que atrapalha seu amigo presidente. 

E diz que não concorda com tudo que Bolsonaro fala. "Recomendaria que, se ele puder moderar os discursos em algumas coisas, seria melhor." Outra dica para o chefe da nação é tomar a vacina contra o coronavírus, que já matou quase 600 mil brasileiros. "Ele deveria tomar agora e dar o exemplo. Seria mais producente para o País". Confira a seguir a entrevista:

Como foram esses longos dias de internação?

Fiquei 160 dias no hospital. Entrei em setembro do ano passado. Bati na trave por quatro ou cinco vezes e quase fui embora. Foi por muito pouco. Tive tudo o que se pode imaginar: água no pulmão, trombose, hemorragia, infecção generalizada. Só a intubação não deu certo, então fui para a ecmo, que é um pulmão artificial em resumo. Fiquei 16 dias, sedado. Seis meses de hospital. Foi muito tempo. Cheguei a perder 38 quilos. Eu era osso e pele. Foi muito difícil, um sofrimento brutal. Houve momentos em que, sinceramente, preferia estar indo embora. Eu pensei 'poxa, com esse sofrimento todo, prefiro ir embora'. Se tivesse um botão para isso, talvez eu tivesse apertado, não sei não. Aos poucos, fui melhorando. Voltei para casa e comecei a recuperação. Ainda faltam uns 10 quilos para voltar onde eu estava. Fisicamente estou muito bem. Na parte mental, não tive sequelas. A memória e o raciocínio lógico estão perfeitos. Na parte clínica, falta o rim melhorar, mas o coração, o pulmão e o resto estão ótimos. A parte motora ficou um pouco comprometida. Ao vir para casa, estava na cadeira de rodas. Depois passei a usar andador, bengala e já caminho sozinho. Já estou dirigindo. Até comecei a bater um pouco de tênis com meu professor, mas não chego a jogar uma partida. Faço bastante exercício e já recuperei a musculatura das pernas. Para os braços, falta um pouco. Estou fazendo três sessões de fisioterapia por dia. Não é fácil. Amanhã (quinta-feira, 2) faz um ano que entrei nessa.

Foi uma jornada bem intensa. Em algum momento o sr. chegou a temer pela sua vida?

Vou te falar uma coisa muito profunda. Em nenhum momento tive medo de morrer. Sou um cara de 65 anos, com três filhos casados e sete netos. Sou realizado profissional e financeiramente. Se tivesse de ir embora, ok, acabou. Faz parte. Mas fiquei assustado com a morte. Não com o processo de morrer. Pensei: como será que vai ser? Será que estarei em um lugar escuro? Será que vai ter ar? Tive muita sensação de falta de ar. Então fiquei assustado. É horrível. Mas já passou.

O sr. tem ideia de como pegou covid?

Eu sei. Fui para Brasília e tive um jantar para os amigos de Bolsonaro, na Embaixada de Israel. Foi nesse jantar que peguei.

Tem um vídeo do sr. saindo do hospital ainda debilitado, em cadeira de rodas, sendo recebido calorosamente pela família e pelos amigos. Qual foi a sensação naquele momento, após 160 dias internado?

Ver toda a família e amigos foi ótimo. Minha mulher foi quem preparou tudo aquilo. Ela foi muito dedicada, em todo esse tempo. Salvou minha vida. Ela e os médicos, enfermeiros e auxiliares. Eu nunca tinha prestado muita atenção, mas a dedicação de todos foi impressionante. Eles realmente têm amor à profissão. O carinho que me deram foi impressionante. Minha mulher mandou fazer umas camisetas em que estava escrito 'obrigado a todos'. Isso porque teve uma época em que eu não mexia braços, pernas e não tinha fala porque me fizeram traqueostomia. Depois que pude voltar a falar por meio de uma válvula, a primeira coisa que disse foi 'obrigado a todos'. Para minha surpresa, é o que estava escrito na camiseta.

O sr. já voltou ao trabalho?

Como presidente do conselho, minha atividade já não é muito de dia a dia na Tecnisa. Antes da internação, eu ainda ia no escritório. Agora, tem um misto de falta de tempo e riscos da pandemia. Como tenho mais de 60 anos, ainda evito ir ao escritório. Tenho feito as reuniões por videoconferência, confiro projetos e plantas da Tecnisa. Faço também reuniões remotas do grupo de incorporadores do Secovi (o Sindicato da Habitação).

Nesses dias internados, o sr. perdeu uma parte da 'festa' do mercado imobiliário. O setor teve recuperação forte na pandemia, ajudado pelos juros baixos. Quais as perspectivas agora que os juros e a inflação estão em alta? Com as incorporadoras repassando custos maiores, a velocidade das vendas vai cair?

Não perdi a festa porque de lá (no hospital), eu acompanhava. Recebo até hoje os relatórios diários de vendas e a posição financeira da empresa. Fora os dias em que estava sedado, sempre via as mensagens por email. No primeiro trimestre, as vendas do mercado foram muito bem. No segundo, algumas empresas foram bem, outras não. Nós fomos médio. O custo da obra está subindo muito e somos obrigados a repassar para o preço, porque a margem tem de se manter. Não tenho dúvida de que aumentando o preço, a velocidade de vendas tende a diminuir. Já está um pouquinho mais lenta, ao menos na Tecnisa. Mas o mercado não está mal.

Como está a concorrência?

A concorrência está muito grande. São Paulo tem muitos lançamentos. Muitos projetos foram represados pela pandemia, e agora todo mundo está saindo para lançar. O mercado tem muita liquidez. Vimos uma onda de IPOs (oferta inicial de ações em Bolsa), entrou muito dinheiro via bancos e fundos. Então, a liquidez alta facilita que muitas empresas lancem bastante, até mais do que deveriam. A barreira de entrada no setor não é muito grande.

O lançamento desenfreado de empreendimentos foi um dos problemas na primeira onda de IPOs no setor. Existe o risco de isso acontecer agora?

Naquela onda de 2007 a 2009 foram muitos lançamentos, mas se vendeu muito bem. O grande problema foi a execução, porque faltava mão de obra, materiais e equipamentos. Foi o que comprometeu e gerou os atrasos nas entregas. Hoje está todo mundo um pouquinho mais escolado. Apesar de os custos de materiais estarem subindo, não vejo falta de insumos. Só uma coisinha ou outra. Não como naquela época.

Ainda não estamos vendo tantos canteiros abertos porque os lançamentos de projetos são recentes. Quando começarem as obras, vai ter mão de obra suficiente?

Tem mão de obra disponível. Com a crise dos distratos, a maioria das empresas diminuiu o volume de lançamentos. Nós mesmos ficamos um tempo sem lançar. Isso aumentou muito o desemprego na construção. Agora que a atividade está voltando a empregar, não há dificuldade de mão de obra. Mais para frente, não sei responder, porque ainda depende do volume de projetos que serão lançados.

Recentemente, a Tecnisa anunciou a compra de uma participação minoritária na BoxOffice, do segmento de escritórios compartilhados, com unidades em shoppings, faculdades e lobbies de prédios. A aposta tem algo a ver com novos hábitos de trabalho no pós-pandemia?

Sim. Sempre fomos uma empresa inovadora. Fomos a primeira a lançar um empreendimento imobiliário pela internet, em 1999. Fomos os primeiros a vender no Second Life, no Twitter e a aceitar bitcoins. Essa coisa que chamamos de workpod é uma iniciativa do meu filho Joseph, CEO da Tecnisa. Ele enxergou dois movimentos. Um é que boa parte das empresas vai trabalhar mais tempo em home office. Para um executivo, é muito difícil passar o dia todo em casa, com mulher, filhos e barulho. Então o ideal é que ele tenha uma célula perto de casa, na qual possa ligar o computador e fazer suas reuniões. Segundo é que, hoje, a maioria dos empreendimentos em São Paulo têm incentivos para (a inclusão) de espaços não residenciais nos projetos. Nesses espaços é possível trabalhar com escritórios de uso temporário.

Como será o ambiente de trabalho na própria Tecnisa na volta pós-pandemia? A companhia está mudando a sede da Avenida Brigadeiro Faria Lima para o Jardim das Perdizes, no bairro da Água Branca.

Estamos diminuindo o tamanho do escritório porque achamos que tem uma parte das pessoas que não estará todos os dias no local. Alguns postos de trabalho serão rotativos. Um modelo híbrido.

Além do BoxOffice, os srs. estão planejando outro tipo de investimento fora do negócio de incorporação?

Não temos nenhum em andamento, nem na mira. Mas, de vez em quando, aparecem oportunidades. Quando isso acontecer, será estudado. Por agora, nada de concreto. O foco neste momento é fazer o arroz com feijão.

Quanto o sr. está confiante na recuperação da economia brasileira? A recuperação será sustentável?

Sim. A economia está dando sinais de volta, e deve subir. Como temos um dólar muito alto, favorece a exportação de commodities e o mundo do agronegócio. Isso ajuda a balança comercial e faz a economia andar bastante. Por outro lado, ano que vem tem eleições. É um pouquinho mais difícil. Tem mais insegurança e menos investimentos. Os estrangeiros ficam inseguros de entrar no País. Mas o Brasil é muito grande e já passou por crises. Estamos acostumados. Então, teremos crescimento sim. Quanto vai ser, não sei dizer.

O sr. é amigo pessoal do presidente Jair Bolsonaro, já o recebeu em casa e o apoia desde o período de campanha. Que balanço faz do governo? Está satisfeito?

Não queria falar muito de política porque sou amigo do presidente Bolsonaro, mas também sou amigo de outros políticos, até dos que conflitam com ele. Gosto muito dele, é um cara muito correto, do bem, patriota e bem intencionado. Montou um time muito bom, mas está difícil governar em função de outras coisas que estão em volta. Gostaria que estivesse indo melhor, mas tem muita coisa acontecendo que não ajuda. Estou otimista que teremos só notícias boas, mas temos um quadro político que está tenso.

Em uma entrevista para o rabino Sany Sonnenreich, em 2019, o sr. disse que aconselhou Bolsonaro a moderar o tom das falas. Esse é um conselho que ele precisa ouvir?

Ele fala muitas coisas que discordo. Tem de se usar máscara e tomar vacina, por exemplo. Apesar que o presidente falou que vai tomar a vacina, mas quer ser o último. Disse estar acostumado a que os soldados comam primeiro e, só depois, o capitão come. Ele quer primeiro que o povo se vacine - e será o último a tomar vacina. Ele fala coisas que não concordo, mas não vou deixar de gostar dele se alguma coisa que ele pensa é diferente do que penso. Então, eu daria essa sugestão ainda. Recomendaria que, se puder moderar os discursos em algumas coisas, seria melhor. Mas ele é um patriota, fala pelo bem do País. Não tem interesses pessoais.

Bolsonaro é presidente, tomar a vacina publicamente não é uma mensagem de incentivo para outras pessoas tomarem?

Eu acho. Quando conversei com ele sobre isso, já faz muito tempo, disse que deveria tomar a vacina para servir de exemplo para a população. Só que ele acha que tem de ser o último e deixar o povo tomar primeiro. É uma atitude nobre. Eu respeito. A intenção é a melhor possível. Mas acho que ele deveria tomar agora e dar o exemplo. Seria mais producente para o País.

Se confirmada a candidatura do presidente Bolsonaro em 2022, o sr. voltará a apoiá-lo?

Não sei. Vamos ver. Acho que sim. Gosto muito dele. Mas vamos ver também quem são os outros candidatos para ter certeza.

Nesses tempos polarizados, o fato de o sr. ter manifestado apoio ao presidente Bolsonaro trouxe algum tipo de ônus?

Difícil saber. Imagino que possa ter tido algum ônus sim, pois em muitas coisas dependemos (Tecnisa) de órgãos municipais e estaduais e pode ter algum tipo de represália. Pode acontecer. Mas tenho ótima relação com outros políticos em São Paulo. Não sou amigo do atual prefeito de São Paulo (Ricardo Nunes), mas era muito amigo do (Bruno) Covas e sou muito próximo do governador (João) Doria. Transito bem por todos os lados. Quero o bem do País, sem interesse pessoal. Mas se tive ônus de um lado, também tive coisas boas. Outro dia fomos comprar um terreno. Nosso lance tinha igualdade de condições com outra parte, mas o vendedor deu preferência para nós porque sou apoiador do presidente e ele também. Posso ter tido ônus mas tive também os bônus.

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