GILLES SABRIE/THE NEW YORK TIMES
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A bilionária chinesa que mudou os smartphones

Zhou Qunfei é a mulher por trás da Lens Technology, que faz telas de vidro para celulares das principais marcas

David Barboza , THE NEW YORK TIMES

03 de agosto de 2015 | 03h00

Zhou Qunfei é a mulher “self-made” mais rica do mundo. Fundadora da Lens Technology, é proprietária de um imóvel de US$ 27 milhões em Hong Kong. Ela costuma se deslocar para o Vale do Silício e para Seul para cortejar executivos da Apple e da Samsung, seus dois maiores clientes. Recebeu o presidente Xi Jinping, da China, quando ele visitou a sede de sua companhia. Mas parece mais à vontade na sua fábrica moderníssima, fazendo alguma coisa.

Zhou conhece o ofício. Durante anos, trabalhou numa fábrica, o melhor emprego que conseguiu depois de viver numa aldeia pobre na China central. “Às vezes, ela senta e trabalha como operadora para ver se há algo errado no processo”, disse James Zhao, gerente geral da Lens Technology. 

A empresa é atualmente uma das principais fabricantes detampas de vidro para laptops, tablets e celulares, como o iPhone, da Apple, e o Galaxy, da Samsung. Este ano, suas fábricas deverão produzir mais de um bilhão de telas de vidro.

“Esta é uma indústria que requer uma tecnologia extremamente sofisticada”, diz Stone Wu, analista da empresa de pesquisa IHS Technology. “Se você tem uma régua, verifique quanto é 0,3 milímetro e compreenderá como é difícil fabricar algo desta espessura”.

Ao criar uma fornecedora global, Zhou, 44, definiu uma nova classe de mulheres empreendedoras na China que construiu sua riqueza do zero – uma raridade no mundo dos negócios. No Japão, não há uma única mulher bilionária que tenha empreendido sozinha, segundo a revista Forbes. Nos Estados Unidos e na Europa, a maioria das mulheres bilionárias recebeu sua riqueza de herança.

Nenhum país tem mais mulheres bilionárias que construíram o próprio negócio do que a China. O Partido Comunista, na época de Mao Tsé-tung, promoveu a igualdade de gêneros, permitindo que as mulheres florescessem após o capitalismo começar a ganhar espaço, afirma Huang Yasheng, um especialista na classe empresarial da China e professor de Gestão Internacional no MIT. 

E num país com poucas empresas estabelecidas, empreendedoras como Zhou conseguiram deixar rapidamente sua marca quando ingressaram nos negócios na década de 90, quando o motor econômico da China começava a engrenar. 

O patrimônio de Zhou na Lens Technology, que abriu o capital este ano, vale US$ 7,2 bilhões. Com isso, sua fortuna se compara à do magnata da mídia John C. Malone e de Pierre Omidyar, fundador do eBay.

Zhou não é uma celebridade, como Jack Ma, o bilionário fundador do Alibaba, gigante do comércio eletrônico. São poucos na China os que ouviram falar o seu nome antes da oferta pública de ações da companhia este ano. Ela raramente dá entrevistas ou aparece em público.

Mulher elegante, ela é meticulosa e exigente – “Sente direito!” ordena a um gerente geral durante uma reunião. Entretanto, transpira charme e humildade, um silencioso reconhecimento de que as coisas poderiam facilmente ter ido no sentido contrário.

“Na aldeia onde cresci, muitas meninas não tiveram a chance de ir para o ginásio. Elas ficavam noivas ou casavam e passavam a vida toda naquele lugarejo”, disse numa entrevista. “Eu escolhi dedicar-me aos negócios, e não me arrependo”.

Oportunidade. A mais nova de três filhos, Zhou nasceu numa vila na província de Hunan, no centro da China, em uma comunidade agrícola. Sua mãe morreu quando ela tinha 5 anos. Seu pai, um artesão muito habilidoso, mais tarde perdeu um dedo e a maior parte da visão num acidente industrial.

Em casa, ela ajudava a família na criação de porcos e patos que eles consumiam ou vendiam para ganhar um dinheiro extra. Largou os estudos aos 16 anos e foi para o sul. Aceitou um emprego numa fábrica na cidade de Shenzhen que fazia vidros de relógios por cerca de US$ 1 ao dia. “Eu trabalhava das 8 da manhã à meia-noite e, às vezes, até 2 horas da manhã”, lembra. 

Em 1993, Zhou, então com 22 anos, decidiu trabalhar por conta própria. Com US$ 3 mil na poupança, ela e vários parentes começaram sua própria oficina. Atraíam clientes com a promessa de lentes de relógio de qualidade superior. Mas foi o celular que tornou Zhou bilionária.

Em 2003, ela ainda fabricava vidros para relógios quando recebeu um telefonema inesperado da Motorola. O funcionário perguntou se ela estava disposta a ajudar a empresa a desenvolver uma tela de vidro para seu novo aparelho, o Razr V3. Na época, as telas da maioria dos celulares eram de plástico. Ela aceitou e logo em seguida, as encomendas começaram a chegar de outras fabricantes.

A Lens trabalha incessantemente, com 75 mil operários espalhados por três das principais fábricas que ocupam cerca de 324 hectares na região de Changsha. A empresa abriu o capital em março e vale cerca de US$ 8 bilhões.

/TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA


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