Divulgação
Divulgação

A chuva, o feriado e um estande de vendas na capital

No 15 de Novembro, a reportagem acompanhou por 11 horas a rotina de corretores em um pré-lançamento no Tatuapé

Gustavo Coltri, de O Estado de S. Paulo,

21 de novembro de 2011 | 17h30

Às 8h40 de terça-feira - feriado chuvoso de 15 de Novembro - boa parte de São Paulo ainda dormia quando 40 engravatados se aglomeravam dentro de um estande de vendas na esquina das ruas Henrique Sertório e Catiguá, no Tatuapé.

Encerrava-se o prazo para que os corretores da imobiliária Lopes se inscrevessem no sorteio que, cinco minutos depois, definiria a ordem de atendimento no plantão do You Metropolitan, empreendimento da incorporadora You, Inc.

Nenhum negócio seria fechado naquele dia, e a chuva tratou de espantar os até 25 clientes que um feriado de sol seria capaz de atrair. Sem registro de incorporação na Prefeitura, o prédio de 21 pavimentos - 11 deles comerciais - e 417 unidades ainda não podia ser vendido. Por isso, como nos últimos cinco meses, restava aos corretores "piratear", como chamam o ato de prospectar clientes para o lançamento, previsto para o dia 26.

Às 9h10, as luzes acesas anunciaram o início das atividades no espaço. "Se vocês tiverem o e-mail ou telefone de um cliente, é hora de mandar para ele", disse 0 coordenador do produto, Cesar Eduardo Cruz de Oliveira, rapidamente interrompido por um "estamos sem telefone", anunciando a morte de mais uma opção de angariar consumidores. Nem por isso eles arredaram o pé do plantão.

Motivo maior tinha a jovem Francileide, de 22 anos, a primeira da fila para o atendimento. Sorte? Talvez. Ela demorou mais de três horas para atender o primeiro cliente a entrar espontaneamente para visitação, mas foi a única em 11 horas a receber dois consumidores no dia. "Tenho a expectativa de vender umas quatro unidades."

Naquela terça, ela não pôde divulgar valores ao anunciar os imóveis, mas apenas estimativas - R$ 7,5 mil por metro quadrado para os residenciais e R$ 9 mil/m² para os comerciais. Isso de acordo com a média da região.

A jovem está há um mês na corretagem. Quer ganhar dinheiro e montar o próprio negócio após se formar em farmácia. Mas ainda não vendeu um imóvel sequer. É uma "calça branca", como costumam chamar os não iniciados na arte de negociar.

O também novato Renie, de 48 anos, não teve a mesma sorte. Esperou sentado por algum cliente que entrasse no estande e chamasse seu nome. Oitavo da lista de preferência, morreu "na vez", às 20 horas. "No lançamento você vai ver vender quem ficou esperando", disse esperançoso. Para ele, a corretagem tornou-se uma oportunidade depois de dois anos e meio de desemprego.

Esperar pode parecer inútil, mas não é. Joana, que distribuíra panfletos na região na semana anterior, tinha esperanças de receber algum retorno - o que aconteceu às 16 horas, quando atendeu um casal. "Distribui 20 mil panfletos e sabe quantos vieram me procurar? Um", disse, sem arrependimento: "Você tem de pegar um bom número e atender um cliente que queira comprar (um baludo, na gíria do meio). E você tem que ampliar a sua probabilidade de sorte."

Nomes. Certa vez, Joana quase se deu mal ao receber a visita de um cliente seu que, por engano, solicitou o atendimento de uma tal Joelma. Erros de nomes não podem acontecer na corretagem, por isso todos têm um apelido. Joana é, na verdade, Carla Augusta Ferreira, ex-proprietária de uma empresa do ramo alimentício. Da mesma forma, José Antônio Macedo Rodrigues tornou-se Everton; e Margareth Santa Eulália, Cassandra - uma palavra forte, segundo ela.

Não fosse pelos nomes incomuns, Antônio Renie Marciano, Francileide Pesce Pizarro e João Eurípedes de Souza teriam adotado apelidos impactantes. Por sinal, o último dos três só fez um atendimento às 18h45. Sua cliente cumpriu a promessa de aparecer, livrando-o da incômoda 36ª posição na lista de preferência - as indicações têm prioridade.

Às 20h, depois de 14 atendimentos - sete de visitas espontâneas -, os corretores encerraram a jornada na expectativas de ganhos futuros. Cada um deve receber comissão de 0,85%, além de bonificações da incorporadora. Recursos para sustentá-los por outros meses de escassez.

A corretagem é, para muitos, a oportunidade de mudar de vida. O hoje superintendente de vendas Evandro Mota, o Fazano, chegou de Mercedes ao estande, finalizando o dia. Em 2009, quando entrou na Lopes, ele era apenas mais um corretor.

Tudo o que sabemos sobre:
CORRETORESFERIADOVENDASIMÓVEIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.