Patrick Rodrigues/RBS/Estadão Conteúdo
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'A esquerda brasileira é irresponsável', diz dono da Havan sobre Previdência

Empresário Luciano Hang, dono da rede Havan, afirma que continua 100% fechado com Bolsonaro e diz esperar que presidente e seu vice, Hamilton Mourão, encontrem um 'cachimbo da paz'

Entrevista com

Luciano Hang, dono da rede Havan

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2019 | 11h14

Quase quatro meses após o início do governo de Jair Bolsonaro (PSL), o voto de confiança do empresário Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan e um dos mais fervorosos cabos eleitorais do presidente durante a campanha, permanece intacto. O varejista diz desconfiar das pesquisas que mostram uma piora na avaliação do presidente e culpa a oposição pela lentidão na tramitação da reforma da Previdência, que vem preocupando o mercado - o texto precisou de 63 dias para passar na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), primeira etapa no Congresso, enquanto no governo do ex-presidente Michel Temer esse prazo foi de apenas 10 dias.

"Eu acho uma irresponsabilidade da esquerda brasileira. A esquerda só sobrevive quando existe caos no Brasil", diz.

Sobre o recente atrito motivado por declarações críticas dos filhos de Bolsonaro, Carlos e Eduardo, ao vice-presidente Hamilton Mourão, o empresário, que afirma ter excelentes relações com Mourão, diz esperar que eles encontrem um "cachimbo da paz". Mas espeta o general da reserva: "Precisam fazer a agenda juntos, baseados em um discurso único, que é o discurso do Bolsonaro, porque nós elegemos o presidente."

Confira os principais trechos da entrevista abaixo:

A Pequisa CNI/Ibope divulgada na quarta-feira mostra que o presidente Jair Bolsonaro tem a pior avaliação entre presidentes eleitos em começo de primeiro mandato. Que avaliação o sr. faz disso?

Eu acho que essas pesquisas não refletem a realidade. Eu não vejo isso nas ruas. Aliás, não vi isso nas eleições. Eu não encontro os 45% que votaram no PT nas ruas. Eu viajo muito para abrir lojas, de Norte a Sul, Leste a Oeste. E vejo que as pessoas que votaram no Bolsonaro continuam ativas. Eu faço parte de uns 20 grupos (de WhatsApp) com pessoas que influenciaram na política. Todos os dias postam coisas sobre política, e nenhuma delas saiu do grupo - uma coisa estranha, porque, quando você monta o grupo, logo que acaba o assunto as pessoas vão embora. 

As pesquisas estão erradas, então?

Eu não sei onde está o erro. Eu acho que o erro que cometeram nas eleições é o erro que estão cometendo agora. Não refletem a realidade, assim como não refletiram a realidade nas eleições. Porque, no primeiro turno, o Bolsonaro perderia para todos. No segundo turno, também perderia para qualquer um que passasse. E as eleições vieram e demonstraram algo diferente. Quero crer que essas pesquisas não retratam a realidade. Eu viajo para todo o lugar e as pessoas continuam apoiando o governo. Até porque nós temos três meses de governo, que é uma mudança radical neste País.

O vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente, tem feito críticas frequentes ao vice-presidente Hamilton Mourão. Essas críticas foram endossadas pelo irmão dele, o deputado federal Eduardo Bolsonaro.  Essa polêmica no núcleo central do governo é motivo de preocupação para o sr.? 

Eu sou amigo dos dois (do presidente e do vice-presidente), não tenho tido conversas com nenhum dos dois sobre o assunto. Então, não posso tecer comentário. Mas gostei das palavras do Mourão quando disse que, se um não quer, dois não brigam. Eu acho que, se houver algumas arestas para serem aparadas, que encontrem o cachimbo da paz.

Como é a sua relação com o vice-presidente?

É ótima. Com o Mourão é tão boa quanto é com o Bolsonaro. E eu espero que logo, logo isso tudo seja apaziguado. Os dois têm de seguir juntos, fazer a agenda juntos. Uma pessoa só não dá conta de tudo sozinha. Então, precisam fazer a agenda juntos, baseada em um discurso único, que é o discurso do Bolsonaro, porque nós elegemos o presidente, mas eles têm de estar alinhados. Bolsonaro foi eleito para fazer grandes mudanças. Se era para ter os mesmos políticos, nós teríamos votado no PSDB, PMDB, esses partidões que foram sempre a mesma coisa neste País. 

Não teme que esse seu engajamento político e o apoio declarado a Jair Bolsonaro possa impactar negativamente em seu negócio, caso a popularidade do presidente continue caindo?

A popularidade do Bolsonaro só vai cair a partir do momento que ele não fizer as coisas que ele foi eleito para fazer. Eu vou ser sempre crítico de tudo que estiver errado. E vou bater palma para o que estiver certo. Eu não tenho partido de estimação e nem político de estimação. Se eu precisar dizer que isso está errado, eu vou falar. Eu não me meti na política para apoiar quem estiver errado. Bolsonaro tem boa índole. Tudo que o Bolsonaro fez até agora foi no sentido de fazer a coisa certa. E é por isso que eu apoio tudo que ele fez até agora. 

Em outubro do ano passado, o senhor anunciou investimento de R$ 500 milhões, um  projeto de expansão motivado pela vitória de Jair Bolsonaro. Como vai esse projeto?

Olha, se o PT tivesse ganho, eu colocaria as nossas empresas à venda já no dia 29 (de outubro). Não só eu, como todo empresário que tivesse a cabeça em cima do pescoço. Nós íamos fazer 20 lojas neste ano e agora estou tentando fazer 25. Estou acelerando. Temos três metas neste ano: a meta-meta, a meta ousada e a meta desafio. A meta normal é crescer 40%. A meta ousada é crescer 50%, e a desafio é 60%. E nós estamos crescendo, até agora, nos quatro primeiros meses do ano, 65%. 

Mas então vão ser mais de R$ 500 milhões.

Vai passar de R$ 500 milhões. Eu estou com 50 lojas mais ou menos entabuladas, sendo que eu tenho de ir atrás das licenças, dos alvarás, das aprovações... Na terça-feira eu fiz uma live (transmissão ao vivo no Facebook) sobre isso, dizendo que o Brasil é o País mais burocrático do mundo. A gente não consegue prever se vai abrir loja, como será que eu vou conseguir o carimbo? Será que vou conseguir a licença? Este é o inferno brasileiro.

Mesmo com as reduções da projeção do PIB? Nesta semana, o mercado cortou de novo as previsões de crescimento do PIB de 2019, de 1,95% para 1,71%...

Sempre cresci dez vezes o tamanho do PIB. De 2009 a 2015 a gente cresceu 50% ao ano. Nós crescemos 35% em 2017. Nós crescemos 45% em 2018. E nós vamos crescer 65% neste ano, baseado em lojas novas e em tudo que estamos fazendo pelo País. Eu não fico olhando quanto que o PIB vai crescer para fazer investimento. Nós fazemos o nosso trabalho. Motivar as pessoas, motivar os nossos clientes. O Brasil deveria fazer a mesma coisa. Porque temos de ser a quinta roda da carroça? Temos de nos espelhar em Israel, na Coreia do Sul, em Cingapura. Porque vamos nos espelhar em países que não deram certo: França, Portugal, Espanha, Venezuela, Cuba e Nicarágua? É essa a pergunta que eu faço.

No começo do ano, o senhor anunciou que criaria 5 mil empregos em 2019. Essa previsão se mantém?

Eu saí de 16 mil empregos em dezembros e devemos chegar a 20 mil, 21 mil empregos neste ano.

De janeiro até agora, fim de abril, quantos empregos já foram criados?

Cada loja minha aberta... A gente vai abrir, até o dia 4 de maio, mais cinco lojas. E cada loja tem 200 funcionários. Mas aí tem centro de distribuição. Eu na verdade não sei ainda. Nós estamos preparando, neste momento, 10 novas lojas. Veja bem, se passar essa reforma da Previdência e as coisas começarem a andar pra frente, se o governo atacar a questão da burocracia - e o Bolsonaro foi eleito também para acabar com a burocracia -, eu garanto para você que os empresários começam a contratar antes mesmo de as empresas crescerem. 

Já que o sr. falou sobre a Previdência, a aprovação do projeto na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara, que é só a primeira etapa da tramitação, demorou 63 dia, enquanto no governo de Michel Temer esse prazo foi de 10 dias. Porque, em sua opinião, houve essa demora?

Eu acho uma irresponsabilidade da esquerda brasileira. Na visão da esquerda, quanto pior, melhor. A esquerda só sobrevive quando existe caos no Brasil, a desunião, a pobreza. Eu nunca vi um grande empresário, um grande gestor ser da esquerda. Na terça-feira, lá na CCJ, eles pareciam um jardim de infância de crianças mal-educadas. Eles defendem privilégios. Privilégios dos funcionários públicos, das estatais, que aliás devem ser todas vendidas. 

Então, em sua opinião, a demora na tramitação da Previdência é de responsabilidade da oposição?

Eu acho que é de todos os responsáveis. Essa reforma deveria acontecer até junho, nós temos dois meses para isso. Eu vi um vídeo do Rodrigo Maia dizendo que vai se comprometer para a aprovação. O presidente precisa se comprometer para a aprovação. 

Faltou empenho do presidente Bolsonaro no início?

Eu acho que ele quis deixar bem claro que o governo foi eleito para fazer uma nova política. Aquela onde o político pode pedir alguma coisa, mas tem de ser republicano. Ele pode pedir uma verba para o município dele, para a região dele, para o Estado dele. E temos de parar de sentar na frente do presidente para pedir cargo em estatal, que deveriam ter sido vendidas todas há muito tempo.

Mas o Movimento Brasil 200, no qual o sr.  é um dos líderes, foi no mês passado até Brasília, publicou uma nota endereçada ao presidente pedindo foco na reforma... 

Na realidade, nós fomos falar com ele. Ele tem se empenhado. Mas a nova política exige uma nova forma de relacionamento. Nós precisamos repensar o País. 

O Movimento Brasil 200 abriu  um escritório em Brasília para aumentar o corpo a corpo com os Congressistas. Como está isso? 

Quem cuida mais disso é o Gabriel (Gabriel Rocha Kanner, que é sobrinho do empresário Flávio Rocha, da Riachuelo). Mas o escritório está funcionando. Eu não participo da dinâmica do Brasil 200. Estive quando o Flávio Rocha apresentou a carta do Brasil 200 em Nova York, no ano passado, participo de algumas reuniões. Mas não estou no dia a dia. O que eu faço é dar as minhas sugestões a quem estiver lá (no governo). O Paulo Guedes trouxe muita gente do mercado privado para fazer a árvore balançar. Imagina, em um local onde não tem meritocracia e onde tem a garantia de emprego, a dificuldade que é fazer a coisa andar. Eu fui uma vez com o Gabriel. A minha atuação hoje é muito através das redes sociais, fazendo lives, posts. Toda a semana eu faço uma live. Na terça-feira eu fiz uma sobre burocracia. Tenho 3,5 milhões de pessoas no Facebook, 1,5 milhão no Instagram e quase 300 mil no Twitter. 

O sr. continua achando que o governo de Bolsonaro está no caminho correto?

Até agora eu assino 100%. Eu acho que ele escolheu bem os ministros, escolheu baseado em meritocracia. Nós queríamos um presidente que não fosse de um grande partido e que não fosse para o governo para falar sobre o seu partido. Bolsonaro tem ido para lá falar a verdade, falar o que ele pensa, que é o anseio da população, e por enquanto eu compactuo com tudo o que ele fez. 

O sr. também é próximo do Olavo de Carvalho?

Falei com ele a primeira vez na semana passada. Acho que logo vou fazer uma live com ele. Para mim, foi uma honra ter conversado com ele. Ele ajudou a mudar o Brasil através de seus livros, suas aulas, tudo que ele pregou. Até um tempo atrás o jovem brasileiro andava com a camisa do Che Guevara feliz da vida. Hoje, os jovens são de direita. Ele quer emprego. Os jovens hoje querem mudar a sua vida, não querem depender de um governo incompetente. Querem empresas fortes e que ele possa estudar e galgar espaço na sociedade através de sua competência e meritocracia. O Olavo falou para mim que por mais de 15 anos ele foi um dos maiores e mais fervorosos defensores do Exército brasileiro. Eu não sei o que está havendo da diferença deles nas redes sociais, mas eu sinto que ele é um patriota, um brasileiro que quer mudar o Brasil. Mas as mudanças precisam ser radicais. E talvez ele não tenha sentido essas mudanças radicais, daí as críticas que ele está fazendo.

O sr.  fez algum curso dele, leu algum livro?

Não fiz o curso. Mas um dos meus livros de cabeceira é o livro dele.

E qual é?

É o 'O Mínimo Que Você Precisa Saber Para Não Ser Um Idiota'. 

Na economia, para além das discussões sobre a Previdência, como o sr. avalia o trabalho do governo?

Lamentavelmente, eu sinto que a burocracia interna do governo não deixa a máquina andar na velocidade que ela quer. Levaram pessoas maravilhosas para dentro do governo. Mas a burocracia estatal trava qualquer mudança que se tenha interesse em fazer. E isso é muito ruim para o País. Eu acho que os líderes têm de bater em cima da mesa, chutar o pau da barraca para fazer a coisa acontecer, sob pena de ficarmos anos com o que temos de pior, que é a burocracia estatal freando o crescimento. O Brasil é formado de burocratas, tecnocratas e eco chatos. O que mais atrapalha o País são os eco chatos, que foram para dentro da máquina estatal e não deixam fazer nada. Não deixam fazer uma marina, não deixam fazer um heliporto, não deixam construir uma estrada, uma casa. Isso trava a economia. Tem uma medida provisória que se chama MP da Liberdade Econômica (o projeto visa a limitar o poder regulatório do Estado sobre a livre iniciativa). Já está lá há quatros semanas e nada sai. Eu não sei quem está segurando, se é na Casa Civil, eu não sei. Alguém está sentado em cima, não sei quem. Ou seja: o governo tem medo de liberar a economia para a inciativa privada. O governo senta em cima dessa MP como se todo mundo fosse culpado até que se prove o contrário. É uma vergonha O Brasil, com o tamanho que tem, estar do jeito que está, ele só não crescer por problema do governo. E o Bolsonaro tem de ir lá e correr para destravar o governo

Seu nome figura agora na lista de bilionários da Forbes. Como tem sido isso?

Pra mim, isso não importa. Eu vivo de calça jeans, camisa verde e um sapato velho. Essa é a minha vida. Meu sapato é velho, minha calça eu compro na Havan, custa R$ 99,90. Minha cueca é da Havan e uma camisa verde. Minha vida é simples. Penso em outra coisa. Eu estive em Israel no ano passado. Um país que não tem nada e consegue fazer tudo. Como é que pode? O Brasil é uma vergonha. Esse E-Social é uma putaria. O cerne do problema está em nossa educação. Universidades comunistas, formam comunistas. Daí você nasce médico comunista, repórter comunista, engenheiro comunista. Todo mundo é comunista. Isso não dá.

 

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