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Guy Perelmuter
O Futuro dos Negócios
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A linha de Kármán

Linha foi calculada em 1956 e definida como a altitude máxima na qual uma aeronave ainda encontraria sustentação atmosférica para permanecer em voo

Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2019 | 03h00

Em 1873, o autor norte-americano Samuel Clemens – mais conhecido como Mark Twain, nome que utilizava para assinar seus livros – escreveu, em parceria com seu amigo Charles Warner, “The Gilded Age: A Tale of Today” (algo como “A Era do Douramento: um conto atual”). Este título refere-se à técnica de aplicar finas camadas de ouro a um objeto menos nobre (madeira ou porcelana, por exemplo) como uma espécie de metáfora para os problemas da sociedade do último terço do século XIX. Na superfície, as coisas pareciam bem, mas estruturalmente havia problemas importantes a serem resolvidos. 

O período pós-Guerra Civil nos EUA viu o surgimento de famílias detentoras de vastas fortunas, e a expansão do hiato social entre os mais ricos e os mais pobres. Nomes como Rockefeller, Mellon, Carnegie, Morgan e Vanderbilt influenciaram de forma significativa os rumos da sociedade através de investimentos em ferrovias, metalúrgicas, indústrias e bancos, estabelecendo as bases do parque industrial norte-americano e a cultura de filantropia empresarial, presente até hoje naquele país. Bill Gates (fundador da Microsoft) e Warren Buffett (investidor e CEO da Berkshire Hathaway), por exemplo, já doaram mais de setenta bilhões de dólares para diversos tipos de causas, ligadas à saúde, educação, pobreza e saneamento.  

Cento e cinquenta anos depois, é a vez de um outro grupo de empresários buscar influenciar os destinos de um novo segmento que estava, até pouco tempo atrás, relativamente restrito aos governos de potências militares como a antiga União Soviética e os Estados Unidos. Trata-se, claro, da exploração espacial.

Uma vez que até hoje não foi estabelecida uma legislação definitiva sobre o tema, a definição sobre onde efetivamente começa o espaço varia de acordo com a instituição ou o país. A agência espacial norte-americana, NASA, considera que voos acima de 80 quilômetros do nível do mar são “espaciais”, enquanto a Fédération Aéronautique Internationale (Federação Aeronáutica Internacional, fundada em 1905 e sediada na Suíça) utiliza o limite de 100 quilômetros acima do nível do mar. A tentativa mais conhecida de realizar esta definição de forma científica está associada ao engenheiro aeroespacial húngaro-americano Theodore von Kármán (1881-1963).

A chamada “linha de Kármán” foi calculada em 1956, resultando em 83,8 quilômetros e definida pelo próprio como a altitude máxima na qual uma aeronave ainda encontraria sustentação atmosférica para permanecer em voo. De fato, a partir desta altitude, a atmosfera terrestre possui muito menos relevância que a força da gravidade. Para entrar em órbita, um veículo precisa vencer a gravidade terrestre e manter uma determinada velocidade para girar em torno dela. Se essa velocidade for atingida na atmosfera, as temperaturas excessivas iriam transformar esse mesmo veículo em uma bola de fogo.

Por que o estabelecimento de uma altitude que indique onde começa o espaço é importante para o futuro dos negócios? Analogamente ao conceito das “águas internacionais”, que não pertencem a nenhum país, é importante estabelecer onde termina o “espaço aéreo” de cada nação, uma vez que a legislação aplicável a aeronaves é diferente daquela aplicável a espaçonaves. De acordo com Thomas Gangale, diretor executivo da rede de pesquisas OPS-Alaska (Oceanic, Polar, Space - ou Oceânica, Polar e Espacial), a rota de retorno para Terra do ônibus espacial norte-americano passava a apenas 34 quilômetros do espaço aéreo cubano. Segundo ele, a lei espacial deveria se aplicar a qualquer voo com a intenção de atingir o espaço, independente do país que ele precise sobrevoar.

Com o aumento dos voos comerciais e os novos tipos de veículos espaciais em desenvolvimento, é bem provável que em sua rota para atingir o espaço ou durante seu procedimento de pouso na Terra algumas espaçonaves utilizem o espaço aéreo de mais de uma nação – o que pode gerar problemas políticos com consequências imprevisíveis. As origens da exploração do espaço por governos e sua transição para um modelo comercial são os temas da nossa próxima coluna. Até lá. 

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