Kim Kyung-Hoon|Reuters
Kim Kyung-Hoon|Reuters

A luxuosa Sotheby’s em mãos chinesas

Após sucessivas compras, a seguradora Taikang, com sede em Pequim, tornou-se a principal acionista da famosa casa de leilões de Londres

The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2016 | 05h00

PEQUIM - Três décadas atrás, o magnata chinês Chen Dongsheng ficou encantado ao ver na televisão as opulentas casas de leilão europeias. Quando uma das pinturas, Girassóis, de Vincent Van Gogh, foi vendida em Londres, em 1987, por US$ 39,9 milhões, a fusão entre arte e riqueza deixou nele uma marca profunda.

“As imagens do leilão na televisão pareciam inconcebivelmente distantes da minha vida. Tão aristocrático, tão refinado. Para a China, um país economicamente atrasado que nunca se livrara de sua revolução, a disparidade com essas cenas na televisão era forte”, escreveu Chen em seu livro de memórias.

Agora, porém, em uma sinal do quanto ele e a China progrediram como forças nos negócios envolvendo artes, Chen apareceu como um dos principais protagonistas no futuro da Sotheby’s, a casa de leilões que ele sonhava imitar.

A seguradora Taikang, da qual ele é presidente, revelou há poucos dias que se tornou a principal acionista da Sotheby’s, com 13,5% de seu capital acionário após uma série de compras. “Não poderia existir uma indicação mais clara da globalização”, avalia Thomas Galbraith, consultor do mercado de arte do Petraeus Group, consultoria de Nova York.

Há muito tempo Chen é um dos maiores protagonistas do mercado de belas artes e antiguidades da China. A principal acionista da Taikang é a China Guardian Auctions, casa de leilões que Chen ajudou a fundar em 1993. “Quero criar a Sotheby’s da China e quero recriar a aristocracia cultural chinesa”, declarou a um jornal chinês dois anos atrás. Até agora, ele não comentou publicamente o anúncio a respeito da Sotheby’s.

Trajetória. Apesar de suas aspirações à alta cultura, Chen, 58 anos, é da baixa nobreza comunista. Seu pai foi soldado do Exército de Libertação Popular, e sua esposa, Kong Dongmei, é neta de Mao Tsé-Tung.

Ele descreveu o leilão como uma causa patriótica para proteger o legado chinês, mas o magnata também apoia a arte contemporânea. Ele é defensor das tendências do mercado, mas se estabeleceu em negócios – seguros e vendas de artes – que exigiam manter ao seu lado órgãos reguladores cautelosos.

Meg Maggio, diretora da Pékin Fine Arts, que tem galerias em Pequim e Hong Kong, disse que seria tolice afirmar que Chen e sua equipe são recém-chegados com dinheiro, mas sem conhecimento.

“Chen é uma potência ambiciosa. Estão longe de ser novatos. Eles são veteranos do mundo das artes, sofisticados e conhecedores”, declara Meg.

A Sotheby’s tem operações próprias na China, com escritórios em Pequim e Xangai, além de outro em Hong Kong, onde concorre com a Guardian e outras casas de leilão.

Investidores em artes e donos de galerias da China disseram que vão ficar atentos para ver até que ponto o investimento da Taikang na Sotheby’s se traduziria em cooperação entre as duas empresas e, talvez, também na Guardian Auctions.

“Isso pode dar à Sotheby’s um aliado importante na China. A Guardian também precisa ter uma presença forte no exterior”, afirma Meg.

Inspiração. A Taikang terá o direito, com a sua nova participação, de indicar membros para a diretoria da Sotheby’s. Se Chen for indicado, não precisarão lhe explicar como a empresa funciona. Quando deixou o cargo de editor de uma revista estatal e mergulhou no mundo dos leilões no começo da década de 1990, ele copiou a Sotheby’s nos mínimos detalhes. O magnata pegou emprestada uma filmadora, visitou a casa de leilões da empresa em Hong Kong e, furtivamente, filmou os procedimentos.

“Fiquei com medo de que dissessem alguma coisa e filmei de forma dissimulada, com as pernas e as mãos tremendo”, escreveu ele nas memórias publicadas em 2014. De volta a Pequim, ele e seus colegas estudaram o vídeo e copiaram até as plaquetas de ofertar lances.

Nas décadas seguintes, a Guardian prosperou enquanto a nova riqueza da China criava um mercado florescente de belas artes.

Agora, Sotheby’s e Guardian têm fortes motivos para se apoiarem. A economia chinesa perdeu o ritmo, bem como a venda de arte. As vendas de obras chinesas contemporâneas caíram 41% em 2015, na comparação com o ano anterior, segundo relatório da Deloitte.

No entanto, mais recentemente, a Guardian foi superada pela Poly Auction, estatal que passou à frente de rivais e gerou inquietação no setor por sua falta de transparência. A Poly informou que suas vendas cresceram 19,1% em 2015, enquanto as da Guardian caíram 5,6%, também segundo a Deloitte.

Já a Sotheby’s foi ultrapassada na China pela Christie’s e precisa de ajuda na China. Em 2013, a Christie’s se tornou a primeira casa de leilões estrangeira a ter licença para operar de forma independente no país.

“A Sotheby’s perdeu a batalha para entrar no mercado chinês, o que, objetivamente, ruim. Mas isso (a ajuda de Chen) pode ajudá-los a ganhar a guerra. Enquanto a Guardian chinesa ficou atrás da Poly em termos de presença internacional, o negócio muda essa dinâmica da noite para o dia”, diz o consultor Galbraith.

Uma das mudanças em curso é a tendência dos colecionadores chineses em comprar arte no exterior à medida que seu gosto se refina. É um padrão já visto em outros países, entre eles o Japão.

No fim de 2015, Liu Yiqian, ex-taxista que virou um bilionário colecionador de arte, comprou um nu feminino de Modigliani por US$ 170 milhões na Christie’s em Nova York. A Art Basel, feira de arte contemporânea, busca atrair mais chineses com um evento anual em Hong Kong. “O gosto está mudando em função das viagens internacionais, educação e experiências de trabalho”, diz Jinqing Caroline Cai, presidente da Christie’s na China.

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