Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

'A queda no turismo será menor do que se previa no início da pandemia', diz presidente da Gol

Segundo Paulo Kakinoff, no caso das viagens corporativas, redução, no longo prazo, será de cerca de 10%, bem menos do que se projetava no ano passado 

Entrevista com

Paulo Kakinoff, presidente da Gol

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2021 | 11h00

À medida que os efeitos da covid-19 começam a se dissipar no setor da aviação, a Gol já se vê próxima de ofertar o mesmo número de voos, nessa temporada de alto verão, ao que tinha antes da pandemia, em 2019. Além disso, segundo o presidente da companhia aérea, Paulo Kakinoff, há também uma expectativa mais positiva para o turismo de negócios hoje do que se calculava durante a maior parte da pandemia.  

Enquanto muita gente previa que até um terço das viagens corporativas poderia deixar de existir, Kakinoff vê agora um efeito bem mais ameno. “Revisamos a nossa projeção, e agora vemos uma redução de apenas 10% (no longo prazo), com a possibilidade de, eventualmente, isso ser recuperado plenamente.” 

O executivo falou ainda sobre a expectativa de volatilidade para 2022, um ano de eleições. Segundo ele, a expectativa de uma campanha turbulenta é um ponto de atenção, mas, ao mesmo tempo, parte desse problema já foi antecipado pelo mercado financeiro. 

Leia os principais trechos da entrevista. 

Já chegou o momento em que a oferta de voos vai se equiparar à de 2019?

Em dezembro, a gente deve ter uma oferta de 90% a 95% dos voos que tivemos em dezembro de 2019 - falando, claro, apenas de mercado doméstico, já que o internacional ainda está muito longe do patamar anterior à pandemia. Na alta temporada de verão, podemos chegar a até 100% do que oferecemos antes da pandemia.

Se o turismo parece estar voltando com força, como fica a situação das viagens corporativas?

Como a pandemia foi uma situação inédita, nós chegamos a calcular que um terço das viagens corporativas seriam eliminadas pelas ferramentas de comunicação como a que estamos usando para essa entrevista (que foi feita via Zoom, em meados de dezembro). Mas agora acho que esse efeito foi superdimensionado. Agora estamos prevendo queda de 10% ou até mesmo zero, com possibilidade de recuperação plena para o corporativo. Os setores do agronegócio, de óleo e gás e de serviços como um todo devem puxar essa recuperação. Por isso, revisamos a nossa projeção anterior. 

O ano de 2022 deve ser de muita volatilidade, por causa das eleições. Como a Gol está se preparando para isso?

De fato, a volatilidade nos afeta, mas estamos acostumados a isso. Desde que estou na companhia, em 2012, já vivi cenários de barril de petróleo a US$ 20 e a US$ 120. E a variação dessa commodity é fundamental para o nosso setor. Hoje, a participação do preço do combustível no nosso custo está nos mais altos patamares históricos da Gol (por volta de 43% dos custos totais). E isso não está relacionado só ao barril do petróleo, mas também à nossa volatilidade interna. Com a alta do câmbio, nosso custo cresce muito quando se converte o valor do barril de dólares para reais.

Então, a volatilidade política preocupa.

Sim, porque a inflação é um problema a ser combatido, embora o Banco Central venha agindo de forma contundente nessa direção. Não há nada que possa ter impacto mais negativo para a sociedade do que a inflação alta. 

A empresa atravessou a pandemia com fortes prejuízos. Como o sr. avalia a saúde financeira da Gol atualmente?

Fizemos a travessia do deserto sem nenhum auxílio externo, apenas com os nossos próprios recursos. E nos propusemos a fazer a travessia sem reduzir a força de trabalho, com todo mundo a bordo. Não tivemos auxílio - o que eu acho compreensível, dada a situação fiscal do País, que também tinha outras prioridades de apoio governamental. O impacto foi muito grande, nossa receita chegou a ser reduzida em 85% ou 90% em alguns pontos da pandemia. Nesse momento, com o estágio avançado da vacinação e a retomada da atividade econômica, a gente vê um oásis.

Nos últimos tempos, a Azul tem assumido a liderança do mercado, deixando a Gol e a Latam, tradicionais líderes, para trás. Isso é algo que preocupa a empresa?

O ranking, quando você olhar sobre as três principais empresas, está distorcido justamente pelas variações de demanda dos últimos dois anos e também por questões regulatórias. Isso leva a uma disputa de narrativas. Além disso, os nossos dois competidores estão polarizando em torno da recuperação judicial da Latam (a Azul disse repetidamente ter interesse em comprar a rival, além de afirmar ter uma proposta melhor para os credores da Latam do que os termos da recuperação judicial da empresa chilena nos EUA). Então, eu não vejo que essa fotografia atual (da divisão da participação de mercado) seja representativa do futuro próximo. Considerados os inventários que foram colocados à venda para o próximo ano, as participações de mercado vão ser muito análogas ao que eram antes da pandemia. Vejo um equilíbrio, com cada uma das empresas com um terço do mercado.

Mas ainda dá para cortar custos? Deixar a operação mais eficiente?

O 737 Max é uma aeronave de menor consumo de combustível, além de ter maior alcance (voar distâncias mais longas) e fazer menos ruído. Já transportamos mais de 2 milhões de brasileiros com ela. E vamos continuar com a nossa disciplina no ajuste da capacidade em relação à demanda, sem tiros midiáticos que podem ser implementados, com voos que normalmente não são (economicamente) sustentáveis. 

O fator eleição preocupa?

A volatilidade é mais elevada em anos eleitorais. Está se desenhando uma das atividades mais intensas (do ponto de vista) eleitoral das últimas décadas. E tudo isso no momento de desafio, com inflação e desemprego altos, além de um crescimento do PIB (mais baixo). Mas acredito que o mercado já tenha refletido de forma antecipada a volatilidade do próximo ano, que esse cenário de certa forma já está dado. De nosso lado, estamos trabalhando com um patamar bem superior ao que tivemos em 2021. Por isso, esperamos um crescimento de 100% na nossa receita no ano que vem, contando que não ocorra uma nova forte onda da pandemia. 

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