Abandono da meta da inflação em 2012 indica que prioridade é crescimento

Segundo economista da MB Associados, conquista da meta de 4,5% virou uma 'história da carochinha', que só deve mudar com o próximo presidente

Ricardo Leopoldo, da Agência Estado,

28 de julho de 2011 | 15h10

O Banco Central indica que abandonou a meta de 4,5% para o IPCA em 2012 porque está em plena harmonia com a presidente Dilma Rousseff, para quem a prioridade é o crescimento do País e não o combate à inflação, comentou o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale. "Em meados do ano passado, o BC disse que perseguia a meta para 2012, agora o Copom sinaliza que busca o objetivo para 2013. A conquista da meta de 4,5% virou uma história da carochinha, que só deve mudar em 2015, quando vier o próximo presidente da República, seja Dilma ou Lula", disse.

A partir do novo tom do comunicado da decisão do Copom anunciada na semana passada, Vale passou a avaliar que o BC deve elevar os juros no máximo em mais 0,25 ponto porcentual em agosto, caso já não tenha parado de fazê-lo na reunião de julho. Nesse cenário, ele acredita que o IPCA fechará este ano em 6,5% e em 5,3% em 2012.

"Para convergir a inflação para a meta de 4,5% no ano que vem, os juros deveriam subir e atingir 14% no ano que vem", comentou. Segundo ele, caso isso ocorresse, o crescimento do PIB ficaria no próximo ano entre 2% e 2,5%. "Mas como o governo quer uma expansão ao menos de 4% do Produto Interno Bruto, é muito improvável que o Banco Central vá elevar os juros para aquele nível", destacou.

Vale lembrou que na sexta-feira a presidente Dilma ratificou essa posição ao dizer a jornalistas que deseja combater a inflação, mas sem sacrificar o crescimento do País. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o Brasil deve registrar uma expansão de 4,5% neste ano, nível que deve ser mantido nos próximos anos.

Na avaliação de Vale, a estratégia da política econômica de buscar um crescimento ao redor de 4,5% neste ano, o que conta com a explícita colaboração do BC e deve levar à interrupção do ciclo de alta de juros, tornou secundárias as preocupações da autoridade monetária com o cenário externo.

"Os problemas estruturais dos EUA e Europa não devem ser resolvidos no curto prazo, portanto não são fatores que devem influenciar o cenário interno", destacou. A questão da inflação no Brasil, segundo ele, é causada basicamente por fatores domésticos, como a demanda bem mais forte que a oferta, o que faz com que os serviços estejam perto de 9% em junho no acumulado em 12 meses.

Para ele, na prática o governo Dilma e o Banco Central cometem um erro, que é "brincar com fogo", ao permitir que a inflação se distancie constantemente da meta de 4,5%. "Qualquer choque externo pode levar a taxa para 8% no próximo ano", disse. Segundo o economista, o IPCA deve chegar a 7,2% em setembro no acumulado em 12 meses. Além de a inflação corroer naturalmente o crescimento do País e reduzir o horizonte de previsão dos agentes econômicos, o que tende a afetar também investimentos de empresas, Vale apontou que a alta crônica dos preços fortalece a indexação da economia.

"Nesse contexto, fica ainda mais difícil diminuir a indexação no País, inclusive para questões muito importantes, como o fim da remuneração mínima (de 6% ao ano) da caderneta de poupança, e acabar com a regra esdrúxula de correção do salário mínimo baseada na soma do crescimento do PIB registrado dois anos antes e na variação do INPC apurado no ano anterior", comentou.

Segundo Vale, um reflexo imediato da política defendida pela presidente Dilma e pelo Banco Central de que a prioridade da condução da economia é o crescimento do País é a piora continua das expectativas de inflação, que acabam influenciando a taxa corrente dos índices de preços. Assim, o BC perderia cada vez mais poder para ancorar expectativas, o que compromete o poder do sistema de metas de inflação. A mediana das expectativas da pesquisa Focus para o IPCA em 2012 está em 5,28% e, segundo Vale, ela deve manter a alta nas próximas semanas, rumo aos 5,5%.

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