Paulo Vitor/Estadão
Paulo Vitor/Estadão

Acionistas da Oi buscam saída para evitar recuperação judicial da empresa

Proposta feita pelos principais credores desagrada parte dos sócios da companhia, que não quer ter fatia diluída e tenta encontrar alternativa; bancos públicos, que detêm R$ 12 bilhões dos R$ 49 bilhões em dívidas, teriam de alongar prazos

Mônica Scaramuzzo, Cynthia Decloedt, O Estado de S.Paulo

16 Junho 2016 | 05h00

Os acionistas da Oi sentaram à mesa nesta quarta-feira, 15, para começar a discutir alternativas para evitar que a companhia entre em recuperação judicial. O ‘Estado’ apurou que a pauta era discutir se aceitavam ou não a proposta feita pelos credores, sobretudo internacionais, de conceder um desconto de até 75% das dívidas da companhia (total bruto de R$ 49,3 bilhões), com uma parte convertida em ações. Os bancos públicos – BNDES, Banco do Brasil e Caixa – ficariam de fora, mas teriam de alongar prazos de seus recebíveis, de cerca de R$ 12 bilhões. Se a proposta for aprovada, os acionistas diluiriam ainda mais suas participações.

Os credores esperam uma resposta na sexta-feira. Fontes ouvidas pela reportagem afirmaram que a Pharol (que reúne os acionistas portugueses) não concorda em diluir sua participação – eles sairiam de cerca de 20% para entre algo entre 5% e 10%, e tentam propor outros caminhos. Até o fechamento dessa edição, a reunião dos acionistas não tinha terminado. Segundo fontes próximas ao assunto, as conversas ainda devem continuar nos próximos dias.

A crise na Oi foi agravada na semana passada, com a renúncia do presidente Bayard Gontijo. O executivo, apurou o Estado, teria se desentendido com parte dos acionistas porque eles não queriam aceitar a proposta da Moelis, banco contratado para representar os credores externos. O executivo participou diretamente das negociações com os credores em Nova York, nos dias 6 e 7 deste mês. A saída dele foi recebida com surpresa pelo mercado.

Gontijo foi substituído por Marco Schroeder, que já era diretor da operadora. Na segunda-feira passada, a Oi sofreu outro revés: Robin Bienenstock, membro do conselho de administração da companhia, alinhada com Gontijo, também saiu.

A renúncia do principal executivo da Oi criou mais incertezas e colocou em xeque a reestruturação financeira em curso. Com isso, a tese de que a Oi pode ser obrigada a entrar com pedido de recuperação judicial fica cada vez mais próxima. “Há dois cenários para renegociação das dívidas: a primeira é de um acordo extrajudicial, a outra é de reestruturação em meio à recuperação judicial. Esse cenário não está descartado e coloca todos os credores na mesma fila”, disse uma fonte próxima ao assunto.

Rafael Mora, dono do grupo português de mídia Ongoing e um dos acionistas da Pharol, é apontado como o “núcleo duro” dos sócios portugueses e o mais resistente à diluição. Ele tem tentado buscar outras alternativas. Procurado, Mora não retornou os pedidos de entrevista.

Volatilidade. Em meio à crise, as ações da Oi continuam voláteis. Os papéis ordinários (ON) e (PN), que na terça-feira caíram 23% e 14%, respectivamente, subiram 18,9% e 7,14% ontem. Analistas afirmaram que os papéis variam de acordo com as especulações do dia. Ontem, os bônus de dívida da empresa operaram pressionados no exterior. Fontes ouvidas pelo Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, dizem que investidores já consideram uma situação de “default” (calote). Hoje, vence parcela de juros de ¤ 22,5 milhões referentes a bônus com vencimento em 2025. No dia 26 de julho, vence outro lote de ¤ 231 milhões.

Os bônus com vencimento em 2022 operam a 12% do valor de face e os com vencimento em 2020, a 18%. Os papéis da empresa eram cotados entre 20% a 30% do valor de face há duas semanas. Eles começaram a cair diante da percepção de dificuldades nas negociações com credores. A Oi não comenta.

Bastidores. A crise pela qual a Oi passa vai muito além da turbulência financeira e o risco de ter de pedir recuperação judicial. Aposta do governo brasileiro para ser uma campeã nacional, a Oi começou a desandar após outubro de 2013, quando foi anunciada a fusão com a Portugal Telecom (PT). Com o calote de quase ¤ 900 milhões da Rioforte, holding da família Espírito Santo, um dos principais acionistas da PT, o acordo para se criar uma das maiores multinacionais luso-brasileiras começou a ruir e a colocar em lados opostos os principais acionistas da tele. 

O que se viu nos últimos meses foi uma troca de acusações – de um lado, os sócios portugueses (reunidos na Pharol) acusam os acionistas brasileiros de má gestão da companhia. De outro, os acionistas brasileiros, entre eles La Fonte (da família Jereissati), Andrade Gutierrez, além de BTG e BNDES, que ao longo dos últimos meses foram diluindo suas participações, afirmam que os antigos parceiros portugueses atrapalham o processo de recuperação da companhia.

O fato é que a Oi, quarta maior operadora de telefonia do País, com maior relevância em linhas fixas, está quebrando. A empresa tem queimado R$ 6 bilhões por ano de caixa e não tem como honrar suas dívidas de curto prazo, segundo fontes do mercado financeiro próximas à operação. 

As alternativas são poucas. Ou os acionistas aceitam diluir participações para acomodar seus credores ou a empresa entra em recuperação judicial.

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