Andrew Kelly/Reuters - 11/08/2021
Andrew Kelly/Reuters - 11/08/2021

Ações de empresas de 'carros voadores' caem até 68% após fazer barulho em estreia na Bolsa

Passados sete meses desde que a primeira dessas empresas fez seu IPO (sigla em inglês para oferta pública inicial de ações), seus papéis despencaram em ritmo muito superior ao índice das Bolsas em que foram listadas

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2022 | 05h00

Empresas que estão desenvolvendo “carros voadores” chegaram com festa às Bolsas americanas a partir do segundo semestre do ano passado. Após fecharem parcerias com Spacs (companhias que primeiro abrem capital para depois buscar um projeto para investir), foram avaliadas em até US$ 6 bilhões (R$ 30 bilhões). Passados sete meses desde que a primeira dessas empresas fez seu IPO (sigla em inglês para oferta pública inicial de ações), seus papéis despencaram até 68% – em um ritmo muito superior ao índice das Bolsas em que foram listadas. Em média, o recuo foi de 56,2%. 

A americana Archer foi a empresa que viu suas ações caírem de forma mais acentuada. Com acordo para fornecer US$ 1 bilhão em “carros voadores” para a United Airlines e possibilidade de aumentar esse contrato em mais US$ 500 milhões, a empresa fez seu IPO em setembro na Bolsa de Nova York (NYSE). Suas ações começaram sendo negociadas a US$ 9,48; hoje estão cotadas em US$ 3,03. No mesmo período, o principal índice da NYSE recuou 4,6%.  

No caso da também americana Joby – a primeira a abrir o capital, em agosto, e a que foi mais bem avaliada pelo mercado antes da chegada à Bolsa, por US$ 6 bilhões –, a queda dos papéis foi de 51,3% até agora. O recuo é 45 pontos porcentuais superior ao da NYSE no período.

Avaliação

Há pouco mais de um mês, quando a retração do preço das ações da Joby estava em 57%, um relatório do banco Morgan Stanley afirmou que o desempenho negativo na Bolsa devia-se a um menor apetite ao risco dos investidores por empresas que ainda não registram lucro, mas têm grande potencial. No documento, a instituição financeira lembrou que outras companhias de eVTOL – sigla em inglês para veículo elétrico de pouso e decolagem vertical, como é chamado oficialmente o “carro voador” – enfrentavam situação semelhante. A alemã Lilium recuou 66% de seu IPO até ontem, e a britânica Vertical, 39,6%. 

Para o analista da XP Lucas Laghi, que acompanha o setor aéreo, os recuos acentuados são explicados pelo risco de um produto que deve começar a gerar caixa, em tese, só depois de 2025 – as quatro empresas que abriram capital prometem entregar as primeiras unidades em 2024. Enquanto o Federal Reserve (o Banco Central americano, o Fed) não elevava a taxa de juros nos EUA, porém, os investidores estavam mais dispostos a encarar esse risco. 

“A perspectiva de risco global hoje é muito mais elevada. Empresas de tecnologia e startups têm perspectiva de geração de caixa muito para frente e sofrem com isso”, disse Laghi. “O valor justo de uma empresa, teoricamente, é o valor presente do fluxo de caixa de hoje até a perpetuidade. Quando se tem muito desse valor no futuro, o valor presente desse montante é mais sensível à taxa de juros, isto é, a taxa que você vai usar para trazer esse fluxo de caixa a preços de hoje”, afirmou o analista.

 

Setor de tecnologia

Esse panorama tem prejudicado companhias não apenas de eVTOL, mas de tecnologia das mais diversas áreas em todo o mundo. Um sinal disso é o desempenho, neste ano, da Nasdaq, a Bolsa americana em que as principais empresas do setor estão listadas. Enquanto a NYSE e o S&P 500 recuaram 8,8% e 12,4%, respectivamente, no acumulado do ano, a Nasdaq perdeu 19%. 

Além do panorama mais difícil para o setor de tecnologia, empresas de eVTOL têm ainda o desafio de viabilizar seus produtos e implementá-los no mercado. Isso significa que precisam desenvolver todas as tecnologias necessárias e conseguir a certificação dos órgãos reguladores, além de terem de criar a infraestrutura dos locais onde as aeronaves vão pousar, decolar e ser recarregadas. 

Para os analistas do Morgan Stanley, o principal risco hoje para o preço das ações – considerando o caso da Joby, única do segmento analisada pelo banco – é a dificuldade no processo de certificação, que pode atrasar a entrada da aeronave no mercado. Uma aceitação baixa pelos consumidores dos vertiports – os “helipontos” – também pode ser um percalço. 

Apesar do cenário, o banco continua apostando que as ações da companhia podem chegar a US$ 16 e que o preço atual do papel pode significar uma oportunidade para comprá-lo. Para os analistas, o segmento de eVTOL ganha credibilidade. Um dos indicativos disso, disseram eles, é um investimento adicional de US$ 450 milhões feito pela Boeing na Wisk, empresa desenvolvedora de eVTOL que tem como sócios a Boeing e a Kitty Hawk.

Procuradas, a Vertical e a Archer afirmaram que não comentariam o assunto. A Joby e a Lilium não deram retorno.   

Embraer e Bolsa dos EUA  

Assim como já fizeram suas concorrentes, a Embraer se prepara para abrir o capital da Eve, subsidiária que desenvolve seu “caro voador”. A chegada da empresa à Bolsa dos EUA, porém, ocorrerá em um momento pouco favorável. A estreia está prevista para o fim de abril, quando o Federal Reserve (o banco central americano) já deverá ter iniciado o ciclo de alta na taxa de juros e em meio a um ceticismo do mercado em relação às empresas de tecnologia.

“Com certeza o fato de o setor como um todo ter caído na Bolsa não ajuda a empresa, mas não consigo ainda dizer como será o impacto”, afirmou o analista Lucas Laghi, da XP. 

Laghi disse que o preço da ação da Embraer hoje, de R$ 15,32, é baixo quando se considera que a Eve foi avaliada em US$ 2,9 bilhões em 2021. Isso pode significar que o mercado financeiro considera o valor da avaliação alto.

O analista, porém, afirmou que a Eve tem pontos a seu favor. “A empresa está extremamente ativa em firmar parcerias. É impressionante a quantidade de contratos que estão fechando para desenvolver todo o ecossistema do eVTOL. Não estão apenas com um viés de entrega de produto”, disse. Laghi lembrou ainda que a companhia já tem 1.785 aeronaves encomendadas – uma das maiores carteiras de pedidos.

Procurada, a Embraer afirmou estar “bastante confiante no seu plano de negócios e nas parcerias já firmadas com investidores estratégicos e financeiros”. “A volatilidade do mercado acionário no curto prazo impacta empresas de tecnologia em geral e com foco em alto crescimento, não é algo específico do setor de mobilidade aérea urbana.”  

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