Ações para evitar desmatamento podem gerar US$1 bi no país

Por Marcelo Teixeira

Reuters

20 de setembro de 2012 | 17h17

SÃO PAULO, 20 Set (Reuters Point Carbon) - Projetos já em curso no Brasil para reduzir emissões de gases do efeito estufa ao evitar desmatamento podem render cerca de 310 milhões de créditos de carbono, um volume que a preços atuais poderia ultrapassar 1 bilhão de dólares, mas que também pode provocar um excesso de oferta no mercado.

Sete grandes projetos de REDD baseados no Brasil estão atualmente em processo de validação por órgãos especializados. No momento, apenas um desses projetos já começou a emitir créditos de carbono, de acordo com documentos dos projetos verificados pela Reuters Point Carbon.

Projetos para redução de emissões de desmatamento e degradação florestal (REDD, na sigla em inglês) visam proteger grandes áreas de terras vulneráveis à destruição, além de ter potencial para gerar enormes quantidades de créditos de carbono.

Os projetos comparam as emissões de gases de terras atingidas por desmatamento com áreas preservadas, na mesma região, e com esse cálculo podem obter créditos pelas emissões que foram evitadas pela preservação da floresta.

Os créditos não podem ser usados por entidades que possuem metas legais de reduções de emissões, como as que participam do regime de comércio de emissões da União Europeia (EU ETS), porque o sistema REDD ainda não foi regulamentado pelas Nações Unidas.

Isso limita a demanda desses créditos florestais a companhias que visam neutralizar emissões voluntariamente no Brasil e no exterior.

Por esse fator, alguns participantes do mercado de carbono, apesar do grande potencial de geração de créditos e de valor desses projetos, temem um excesso na oferta quando os projetos avançarem para a fase de emissão dos créditos, o que poderia desvalorizá-los.

"Estamos falando de milhões e milhões de toneladas (créditos)", disse a corretora Marcela Paranhos, da WayCarbon, de São Paulo.

"Não existe um mercado onde se possa jogar uma quantidade tão alta. E por mais que existam interessados, querendo ou não você acaba influenciando no preço, o que vai acabar prejudicando os próprios proponentes dos projetos", afirmou.

Créditos REDD brasileiros foram cotados nesta semana entre 2,5 e 5 dólares cada em ofertas para entrega futura, com vendedores pedindo valores entre 4,5 e 8 dólares, segundo a Thomson Reuters Point Carbon, provedor de informações do mercado.

Como exemplo do tamanho dos novos projetos, as duas iniciativas de REDD já validadas por um dos órgãos de referência do mercado voluntário, o VCS (Verified Carbon Standard), devem gerar os maiores volumes anuais de créditos entre todos os 64 projetos brasileiros já inscritos no VCS, incluindo centrais hidrelétricas.

Como comparação, apesar dos projetos REDD brasileiros terem ciclos de emissão de créditos de 10, 30 e até 40 anos, os 310 milhões de créditos dos projetos atuais estão 100 milhões acima do que o mercado de carbono da Califórnia deverá necessitar em todo o seu ciclo de oito anos.

COMPETIÇÃO COM CRÉDITOS DE MDLs

Marco Mazaferro, um consultor e trader na área de carbono na Eqao, de São Paulo, diz que há, sim, motivos para preocupações com sobreoferta de créditos REDD, e acrescenta um complicador.

"Além do grande tamanho dos projetos, esses créditos terão que competir no mercado brasileiro a partir do ano que vem com os RCEs (Reduções Certificadas de Emissões)", diz.

Os RCEs são os créditos oficiais da ONU, gerados por projetos do MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo) como plantas de geração de energia limpa (projetos eólicos, pequenas centrais hidrelétricas).

É que os créditos de MDLs brasileiros deixarão de ser aceitos no mercado europeu, de longe o maior mercado de carbono global, se não forem registrados até o fim de 2012. A Europa decidiu dar preferência a MDLs de países menos desenvolvidos.

Assim, a tendência é que os RCEs sejam "despejados" no mercado local.

OBSTÁCULOS

Pessoas que estão participando dos projetos de REDD, no entanto, dizem ser cedo para considerar uma situação de excesso de oferta devido às dificuldades para e evolução dessas iniciativas.

"Com os rigorosos critérios existentes, até o momento foram pouquíssimos os créditos já emitidos", afirma Walle Oppedijk van Veen, diretor da holandesa 33 Forest Capital, parceira do grupo brasileiro Cikel em projeto para evitar desmatamento no Pará.

"Então parece bastante prematuro falar de sobreoferta."

Warwick Manfrinato, diretor da consultoria brasileira Plant Inteligência Ambiental, parceiro de outra iniciativa no Mato Grosso, afirmou que projetos terão atrasos e podem não avançar devido a questões de titularidade de terras.

"Teremos um 'pipeline' grande, mas a maior parte não vai passar pelo crivo dos órgãos reguladores", afirmou.

Uma reportagem no mês passado publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, citando documentos oficiais, disse que um quarto dos municípios brasileiros possivelmente possuem problemas com legalização fundiária.

Segundo o jornal, um em cada quatro municípios brasileiros tem mais propriedades rurais cadastradas do que a sua própria superfície territorial.

POTENCIAL

Ernesto Cavasin, presidente da Associação Brasileira das Empresas do Mercado de Carbono (Abemc), diz que o mercado para esse tipo de créditos ainda é nascente, mas que ficará mais estruturado em breve.

"As empresas no Brasil estão migrando de um sistema bem conhecido para outro incipiente, mas promissor", afirmou, referindo-se ao movimento de busca por crédito florestal em vez dos créditos de projetos de energia limpa e afins.

"Existe um potencial absurdo, mas claro que são necessárias regras mais claras".

Algumas empresas brasileiras e braços locais de grandes corporações multinacionais têm demonstrado interesse nos créditos REDD para compensar emissões de gases estufa e também para associar seus nomes a projetos que preservem as florestas.

A rede de hotéis Marriott International, por exemplo, é parceira do projeto Juma, no estado do Amazonas.

A trading global Bunge também se associou a um projeto no Mato Grosso e deverá comercializar os créditos advindos da iniciativa a partir de sua mesa central em Genebra.

Já parte dos créditos do projeto do grupo Cikel foram incluídos pela 33 Forest Capital em uma plataforma online na Europa, que pode ser acessada por empresas interessadas em neutralizar emissões ou investir em projetos de preservação.

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